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No norte do país, tensão, protesto e “Aisó” na pauta

17.09.2017 às 00:01
Índios Cinta Larga, nos dias de hoje - Reprodução/Facebook

Em 1987, uma turma de jornalistas viajou a Cacoal, Rondônia, a convite da Funai. A intenção do governo federal era mostrar que a política indígena no país estava humanizada e que o tratamento ao índio era de total respeito aos seus direitos constitucionais.

Fazia pouco tempo que eu tinha chegado a Brasília e estava trabalhando no jornal Correio do Brasil, que ficava em Taguatinga. A pauta me animou e viajei com a recomendação de olhar além dela e de trazer algo diferenciado do que fora buscar. Topei na hora e antes de viajar fui até a uma banca de revistas, na Rodoviária em frente ao Conjunto Nacional, para comprar jornais de Porto Velho. Queria saber mais sobre Rondônia.

Mais ou menos familiarizada com o estado, lá fui eu vôo a fora em busca de aventura.

Instalados no hotel, bem acomodados e alimentados, era, enfim, hora de irmos até a área indígena dos Cinta Larga. Embarcamos numa aeronave da FAB, cerca de sete a oito jornalistas, entre repórteres e fotógrafos e um cinegrafista da TV afiliada da Globo em Rondônia, e mais uma vez voamos sobre o Norte do país, cheios de expectativa.

Ao começarmos a descer, avistei um grupo de homens e mulheres, talvez uns vinte ao todo, caras e corpos pintados, armados com arco e flecha, a se movimentarem como numa dança frenética. Balançavam muito as cabeças e batiam com os pés no chão de terra batida onde pousamos.

Pra mim e meus colegas, era uma recepção festiva, até aplaudimos.

Desembarcamos rindo, os fotógrafos com as máquinas em punho, já prontas para captar as imagens, eu já querendo saber com quem falar para me explicar qual o significado de tudo aquilo, as cores, os batuques, a dança...

Aí o representante da Funai na região nos pediu para não fotografar, chamou Gabriel Guerreiro, assessor da presidência da fundação que nos acompanhava, a um canto, cochicharam um pouco e nos pediram para retornar à aeronave.

Ora, pois. Imagine apenas nos pedir para recuar, sem explicação.

Ficamos ali e fotografamos sim. Foi então que Guerreiro nos informou que era perigoso para nós, que eles estavam realizando exatamente um protesto contra a Funai e que, na tensão, não seriam capazes de distinguir jornalistas, convidados e representantes do órgão.

Atendemos ao apelo e ficamos de butuca nas poucas janelas do avião disponibilizado para a nossa viagem. Houve momento de maior acirramento, mas de repente percebemos que os ânimos iam se acalmando e eu desci da aeronave silenciosamente. Comecei a caminhar para onde estava o restante dos índios, havia muitas mulheres e crianças.

Uma índia, velha, seios descobertos, vestindo uma saia de um tecido amarelado, não sei se era tintura apenas ou um pano encardido, pernas pintadas com tinta vermelha, feita à base de jenipapo (descobri e acompanhei a feitura dessa tinta lá mesmo, depois que o clima normalizou-se), aproximou-se de mim, desconfiada.

 Queria saber se eu era da Funai, tocou meus cabelos, minha mochila presa às costas, minhas pulseiras de arcos dourados e me disse, baixinho: “Aisó”. Eu, sem entender, no mesmo tom baixo de voz, indaguei: “O que isso significa?” E ela, insistindo, com um sorriso no canto dos lábios: “você é uma aisó”.

Bem, voltei a minha atenção à pauta.

Fomos levados a uma grande cabana coberta com palhas, onde um índio, que todos tratavam por “Abaçai”, contou-nos, enfim, as queixas da tribo. E me garantiu que o ritual de protesto na nossa chegada não tinha nada de perigoso (Graças a Deus!). Segundo ele, aquela era a linguagem encontrada para o governo saber que não havia mais uma relação amistosa entre eles.

Mas acabaram chegando a um acordo e a viagem não foi em vão.

A Funai conseguiu nos apontar um projeto do órgão na agricultura e na saúde em benefícios dos indígenas e acabamos também conhecendo a história, os mistérios e as lendas em torno dos Cinta Larga. De Cacoal, mandamos texto e imagens para Brasília por um aparelho de fax existente na prefeitura do município.

E só bem mais tarde, já no retorno a Brasília, é que fui informada sobre o que significa “Aisó”: moça formosa.

 Mas, além de algumas palavras aprendidas com essa tribo, voltei à redação com uma matéria a mais da pauta, trouxe ao jornal uma entrevista exclusiva com “Abaçai” sobre a luta dos indígenas em resistir aos costumes do “homem branco”.

Postado por Em Pauta

Quando a ousadia supera a pauta

10.09.2017 às 02:54
Romeu Tuma- Arquivo/Agência Brasil

Estava na reportagem do jornal A Crítica, em Manaus, no ano de 1986, cobrindo o caso do Colarinho verde.  Essa era uma investigação da Polícia Federal sobre possíveis fraudes nas cotas de importação liberadas pela Suframa.

Era tempo de muita competitividade na imprensa local por conta desse assunto. Não era para menos, envolvia empresários e políticos e na época havia seis jornais diários na cidade, além de emissoras de rádios e TVs.

Aí eu soube por meio de minhas fontes que o diretor geral da Polícia Federal, delegado Romeu Tuma, tinha desembarcado em Manaus, logo cedo da manhã, e se dirigira ao Comando Militar da Amazônia para uma conversa com o comandante sobre o caso em investigação.

O que danado tinha a ver o Comando Militar da Amazônia com esquema de corrupção na Suframa?

Com o meu parceiro de trabalho, o fotógrafo João Rodrigues, nosso Pinduca, decidi no mínimo bisbilhotar o local. O veículo de A Crítica parou nas imediações do Comando Militar da Amazônia e deixei Pinduca a postos, com uma determinação: ele fotografar qualquer carro que saísse pelo portão principal, mirando a placa. Eu iria tentar entrar.

O motorista e Pinduca tentaram me fazer desistir. Ali era área de segurança militar e eu poderia ser presa, passar algum constrangimento, mas, segura dos meus impulsos, fui em frente.

Já no portão, deparei-me com dois militares fazendo a guarda.

- Bom dia, eu sou da assessoria do delegado Romeu Tuma. Ele já entrou? Eu posso aguardar lá dentro? 


- Um momento,senhora, me disse um dos militares.


Através de um rádio, ele se comunicou com alguém que perguntou o meu nome.


Eu, morrendo de medo e cheia da ousadia:

 “Fui orientada a não revelar o meu nome, essa é uma reunião secreta. Se eu não fosse da assessoria dele, como saberia que ele estava aqui?”

- Um momento senhora, voltou a repetir o militar e voltou a falar com alguém pelo rádio.


Segundos depois, um militar veio até a porta. 


- O Dr. Tuma não trouxe assessoria. Ele já está em reunião com o comandante.

Ante o olhar raivoso do primeiro militar com quem falei, aumentei minha dose de ousadia:


- Claro que ele não trouxe, eu trabalho para a Polícia Federal aqui em Manaus.

 Preciso aguardar por ele, posso esperar lá dentro? Diga a ele que a assessora dele já chegou.


E quem era doido de entrar numa reunião secreta do comandante com o diretor geral da PF? Eu apostei, nisso, evidentemente.


Depois de muitos vai e vem, o sargento Pontes (era esse o nome dele) me levou para a antessala do gabinete do comandante. Tomei café, água, e meu pensamento era um só: “Vou ser presa”!

Uma hora e meia depois Tuma saiu acompanhado do comandante e se assustou ao meu ver.


- Menina (eu era mesmo uma menina, tinha 25 anos de idade!!!!), o que você está fazendo aqui?

Maravilha! Ele tinha um sorriso no rosto de susto.


- Esperando o senhor.


E o Tuma, para o comandante:


- Essa jornalista não tem fonte, tem bola de cristal. Todo dia me liga pelo menos umas quatro vezes para “confirmar” as informações dela. 


Os dois riram, e eu sosseguei, pra lá de aliviada. Estava livre da prisão, enfim!

 Sentamos ali mesmo e Tuma me deu o furo o qual eu fui buscar. Um dos laranjas do caso, Nicolas Gamarra, já tinha sido localizado e dado depoimento, em La Paz, a oficiais do exército que trabalhavam na fronteira do Brasil com a Bolívia. Deixei a sede do CMA no carro que transportava Tuma e Pinduca fez a foto de Capa do delegado federal descendo para abrir a porta para mim.


Evidente que eu não saí na foto publicada na primeira página de A Crítica, no dia seguinte. Jornalista não é notícia, ele escreve a notícia. A foto do talentoso Pinduca foi Tuma na frente da sede do comando Militar da Amazônia.

Ganhamos a pauta!

E eu não perdi nem a fonte, nem a liberdade.

Postado por Em Pauta

A ousadia no jornalismo, versão impressa do Painel Notícias

03.09.2017 às 00:55
Arte e foto: Afrânio Aquino


Quando estou prestes a completar 38 anos no jornalismo, pauta mais calma em assessorias e consultorias na área de comunicação, me chega o desafio de colocar um jornal nas ruas e de editá-lo.

O convite surgiu há vários meses e durante muito tempo eu resisti a ele. Mesmo esse convite partindo de casa, do marido e do filho, sócios proprietários do Painel Notícias.

Foram muitas conversas, infinitas contas na ponta do lápis, dúvidas sobre a reação de mercado, e muita coragem numa equipe pequena, de gente apaixonada pela profissão, querendo dar cara e vida a um sonho persistente.

Não é nenhum projeto pretensioso.

É apenas o Painel Notícias, sete anos na comunicação de Alagoas, lançando sua versão impressa, na forma de um semanário focado em cidadania, política, economia e turismo e negócios.

O projeto gráfico é leve, com destaque para imagens, reportagens especiais e pautas que promovam debate e questionamentos sobre problemas e soluções para Alagoas.

O compromisso assumido é fazer, tão somente, jornalismo.

O nome é Painel Alagoas e estará semanalmente nas bancas , a partir do próximo dia 13.

E, de novo, tomo pra mim a tarefa de me reinventar e continuar aprendendo como jornalista. Ao dizer sim ao projeto, me veio à mente um poema de Mário Quintana:

“- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
- Você é louco?
- Não, sou poeta”.

Tipo: “Não sou louca, sou jornalista”.

Postado por Em Pauta

O sigiloso jornal de PC Farias

27.08.2017 às 00:01
Jornalista Stefani Lins comunica à redação o fim do projeto - Arquivo/Tribuna de Alagoas

Um jornal que nunca foi às bancas.

Essa é uma história recontada. Ela já foi publicada no meu blog, no  Cada Minuto do jornalista Carlos Melo,  em 31 de maio de 2015. Mas penso que sempre vale a pena relembrar um dos fatos mais inusitados do jornalismo alagoano, e cá está o texto.

Tal qual se procedeu naqueles tempos.

Estávamos em janeiro de 1992.

Em Alagoas, dois assuntos eram pauta da imprensa: eleição municipal e o jornal do empresário Paulo César Farias, pivô da briga entre os irmãos Collor, Pedro e Fernando. O primeiro, responsável no estado pelo complexo de Comunicação da família, a Organização Arnon de Mello, o segundo, presidente do Brasil.

Pedro botou na cabeça que a Tribuna de Alagoas, reeditada por PC Farias, era projeto bancado pelo irmão presidente, o que fragilizaria comercialmente as empresas da Organização Arnon de Mello: uma emissora de TV, um jornal impresso, duas rádios na capital e uma rádio no interior, em Arapiraca, Agreste de Alagoas.

O jornal de Paulo César Farias estava em andamento. Prédio arrumado, equipado, a equipe sendo formada, e os projetos gráfico e editorial definidos. A oferta salarial alta impactou o mercado.

Eu fui convidada pelo jornalista Anivaldo Miranda para ser subeditora do Caderno Alagoas (política e economia), que ele iria conduzir. Fui conhecer o empreendimento e fiquei encantada. O editor-geral era o jornalista Stefani Brito.

Para nos acompanhar na editoria, foram contratados os competentes repórteres Rachel Rocha e Hélder Bayma.

Havia muitos jornalistas notáveis, como Gabriel Mousinho, Bernardino Souto Maior, Manoel da Nóbrega, Luiz Pompe, Plínio Lins, Vladimir Calheiros, entre tantos outros, igualmente dos melhores.

Equipe completa, a ordem era fazer o melhor.

Trabalhávamos normalmente, no ritmo comum a qualquer redação, cobrindo os eventos factuais, fazendo reportagens especiais, buscando no fechamento das edições as melhores fotos, as manchetes mais calorosas.

Tínhamos, naquela redação, um espírito de competitividade contagiante. Todas as editorias se esforçavam para assegurar a manchete de Capa, a foto do dia.

Havia um cronograma de horário de fechamento que era rigorosamente cumprido. A gráfica trabalhava a todo vapor para que, nas primeiríssimas horas do dia, o jornal já pudesse estar pronto para ir às ruas.

E aí é que existia o nó.

O jornal não ia às ruas. Não saia daquele prédio, por nada nesse mundo.

Chegava um ou dois exemplares na redação para avaliarmos, compararmos, e até darmos seguimento a um ou outro caso no decorrer do dia. As máquinas rodavam pouco mais que oito ou dez exemplares diariamente. Nada mais que isso.

Muitos vezes, éramos quatro, cinco, jornalistas a manusear minuciosamente um exemplar.

Olhávamos e tratávamos aquela edição como um tesouro, ansiosos de que pudéssemos compartilhar o nosso trabalho, lá fora, com os leitores, com a sociedade. Em muitas edições, demos “furo” nos demais jornais diários (Jornal de Alagoas, Diário de Alagoas, Gazeta de Alagoas).

E vibrávamos, festejávamos o feito, como se ele também estivesse em bancas de venda, na casa de assinantes.

E mesmo sem o jornal ir às bancas, ninguém se negava a nos dar entrevistas, a falar em off, a fazer denúncias.

Vivíamos uma gestação, uma feliz gestação, onde estávamos sempre aguardando a hora de parir.

Foi um momento ímpar no jornalismo alagoano.

A Tribuna de Alagoas não saia do prédio para não colocar mais lenha na fogueira da discórdia entre Pedro e Fernando Collor.

Pedro não admitia a concorrência, diziam os diretores do jornal de PC. À imprensa nacional, Pedro ameaçava balançar o governo do irmão e levar, junto, Paulo César Farias.

Fizemos o jornal de fevereiro até final de maio, de 1992, quando, finalmente, Pedro Collor venceu. A Tribuna de Alagoas estava sendo fechada, sem nunca, de fato, ter sido aberta. A direção negociou as nossas demissões com o sindicato dos jornalistas, à época presidido por Joaldo Cavalcante.

Em cada um de nós, ficou a sensação de ter vivido um sonho no jornalismo alagoano.

O fato é que, o fechamento da Tribuna de Alagoas não resolveu a pendenga entre Pedro Collor e o irmão Fernando. A coisa tomou um rumo que acabou no impeachment do presidente da República, em várias ações penais contra ele e outros membros do governo, além da prisão de Paulo César Farias acusado de corrupção.

Em 1996, PC retomou o projeto do jornal, porém bem mais modesto nos custos. A Tribuna de Alagoas estava prevista para ser lançada em junho, mas isso só aconteceu em agosto. Em junho, Paulo César Farias foi assassinado. Também, dessa vez, ele não viu o seu jornal nascer.

Com o jornalista Gabriel Mousinho na direção de jornalismo, eu fui editora-geral da Tribuna de Alagoas, de 1996 a 1998, sob a gestão empresarial dos irmãos de Paulo César Farias.

Experiência a ser contada em outros escritos, com certeza.

Postado por Em Pauta

Entrevistando um coronel em "off"

20.08.2017 às 00:01
Interior da Catedral Metropolitana de Belém/Reprodução Internet

Em minhas andanças pelo jornalismo, certa feita em Belém do Pará entrevistei “em off” um coronel do exército, a quem denominei em meu texto de “Comandante A”. A pauta era tortura nas prisões do governo militar e o contato foi feito por um jornalista comunista, Augusto Barata, do jornal O Liberal.

Pra começar, o local da nossa conversa, escolhido pelo Coronel, foi extremamente inusitado.

Ainda na ativa, em 1985, ele temia todo tipo de represália e marcou comigo na Catedral Metropolitana da cidade, na Praça Dom Pedro II.

Ele estava de calça jeans, camiseta branca, tênis preto e um boné azul, e eu o encontrei ajoelhado e me parecia em prece. Ajoelhei-me ao lado dele, esperei alguns segundos, e quase cochichando me apresentei. Sentamos naquela igreja imensa, vazia de pessoas, e ele olhou para a minha bolsa, antes de perguntar.

- Você sabe que não pode gravar essa conversa e nem me identificar.

- Sei sim, não se preocupe. Só preciso das informações e me garantiram que elas serão fiéis aos fatos.

- Mesmo assim, abra a sua bolsa para eu ver que não tem nenhum gravador.

Abri a bolsa, ele olhou e me pediu desculpas, mas disse que no “meio deles”, qualquer desconfiança significa prevenção. Eu disse que tudo bem, que eu entendia, mas que eu gostaria de começar por alguns casos, algumas lideranças de esquerda do Pará que morreram ou desapareceram das prisões da ditadura naquele estado.

Passei pra ele uma lista com três nomes e antes de ler cada um deles, o coronel me perguntou:

- Você não é do Pará, de onde você é?

- Isso importa, coronel? Mas sou de Alagoas, houve algum preso político de Alagoas aqui no estado que o senhor tenha conhecido?

- Não, não é que importe, é que não me disseram que a jornalista era de outro estado. E a gente precisa saber com quem está tratando.

-Vamos às informações, coronel?

- Mas a matéria vai sair só aqui, não é? No Pará? Porque aqui eu sei que minha identidade será protegida, tenho amigos lá em O  Liberal, mas em outro lugar...

- Coronel, a minha matéria só vai ser publicada pelo jornal O Liberal, não precisa se preocupar. Então, sobre essas três pessoas, o senhor as viu presas? Uma delas morreu na prisão, o senhor sabe como foi? Quem estava lá quando essa pessoa morreu? O senhor estava na hora?

Ele tirou o boné da cabeça, olhou ao redor, demorou alguns segundos e aí começou a me dar  informações numa fala pausada e tão baixa que, por várias vezes, eu pedi para ele repetir enquanto eu fazia as anotações.

Ficamos ali, meia hora, 40 minutos, e a coleta foi fantástica. Ele tinha muita segurança no que falava, apontava nomes, datas, descrevia cenas e o que ia me contando batia com as informações já conseguidas junto a outras pessoas.  Quando acabamos, ele olhou para o meu bloquinho de notas e me questionou:

- Tudo o que eu disse coube aí?

- Sim Coronel.

- E como vou ser citado no seu texto?

- Vou lhe dar um codinome.

- Deus me livre, não sou subversivo pra ter codinome.

E eu, com toda paciência do mundo:

- Que nome o senhor quer que lhe dê?

- Tenho mesmo que ser citado?

- Vou ter que dizer que tive essas informações de alguma fonte...

Pela primeira vez, durante todo o tempo em que conversamos, ele sorriu:

- Então, me dê um codinome à minha altura, Comandante.

Como o primeiro nome era Alberto, assim foi feito: Comandante A.

A matéria ganhou Capa do domingo com destaque, ocupou a importantíssima página 3 do primeiro caderno, repercutiu nas edições dos próximos dias, virou pauta de outros veículos de comunicação, e recebi da minha fonte um telefonema na segunda-feira:

- Gostei muito da matéria, mas precisava ter revelado que conversamos numa igreja católica?

- Foi só para enriquecer o texto, gosto dos detalhes... Mas por que o senhor não gostou?

- Sou evangélico.

Enfim, mais uma das minhas tantas histórias em quase 38 anos como jornalista, pra mostrar que na minha profissão a paciência também é uma ferramenta importante (risos).

Postado por Em Pauta

Manaus me habita

13.08.2017 às 00:01
Encontro ds águas dos rios Negro e Solimões - Reprodução

Encantou-me, sobremaneira, a imensidão daquele rio de cor negra. Quanto mais o navio aproximava-se de suas águas, mais eu me sentia parte do cenário.

O sol forte fazia brilhar gotas de prata por todo lado, e o verde da mata nas margens tinha em seu todo um tom forte, uma imponência sem igual. Tomei meu filho pequeno nos braços, nossos olhos brilhavam de expectativa.

Era, de fato, mais do que um lugar novo. Sentíamos, ambos, que era um mundo novo, um novo tempo em nossas vidas. Estávamos chegando, pela primeira vez, ao Amazonas, em julho de 1985.

Já avistávamos, de forma tênue, a terra à frente. Era o cais do porto de Manaus.

Pisei em terra firme, olhei ao horizonte, enxerguei uma paz indescritível.

Depois de praticamente seis dias navegando por vários rios amazônicos, podia sentir claramente o chão sob os meus pés. Mas, o mais importante, era o sentimento que me tomava, um sentimento de reconhecimento a um lugar onde nunca estive, nem em sonhos. Era como se eu fosse dali, tivesse nascido ali, e estivesse, simplesmente, de volta.

Havia, sim, um pertencimento desde o início de que, o Amazonas, era, igualmente a Alagoas, a minha Pátria.

Não precisei de muito tempo para tornar meu, dentro de mim, verso de Anibal Beça, poeta e escritor amazonense, sobre Manaus:

"Toda cidade se habita 
como lugar de viver. 
Só Manaus é diferente 
pois em vez de habitá-la 
é ela quem me habita". 

Percorri, em minha estadia em Manaus, várias histórias dessa cidade e do Amazonas fazendo jornalismo. Lá, enfrentei medos pessoais e profissionais e descobri paixão e coragem na minha pauta profissional.

Cresci como pessoa e como jornalista, mas, sobretudo, aprendi a ser no coração e na alma uma amazonense de fé, uma “mana” dos tantos amigos e colegas que me acolheram.

Essa postagem é, sim, um agradecimento ao Amazonas por tudo e por tanto que vivi, aprendi e senti por lá. E costumo me dizer, sempre, que no jornalismo que faço, é em Manaus dos anos 80 que busco as melhores referências de um tempo onde ser jornalista era ter compromisso com a informação, era ter honestidade na notícia, era ter lisura e caráter na opinião.

Em tempo: minhas reverências a grandes jornalistas alagoanos que sempre me incentivaram na ética, na ousadia e no amor ao jornalismo.

Postado por Em Pauta

Vamos usar media training?

06.08.2017 às 10:45


Penso que media training é uma ferramenta importante em qualquer assessoria de imprensa.

Lembro-me bem que certa feita, ao sugerir a um assessorado a convocação de uma coletiva à imprensa, ele me confessou que não se sentia preparado para encarar ao vivo jornalistas, câmeras e perguntas de toda ordem, vindas praticamente numa mesma velocidade. Apesar de eu o ter tranquilizado de que ele não seria jogado aos leões, que seria bem preparado e as peguntas organizadas, ainda assim a fala dele nesse caso saiu através de nota oficial.

Não basta o assessorado dominar o assunto e esse é o preceito básico para qualquer contato com a mídia, mas, sobretudo, além do conhecimento, ele deve apresentar segurança pessoal e convencimento dos argumentos expostos. Numa entrevista a uma emissora de televisão, principalmente ao vivo, deve-se levar em conta respostas curtas, objetivas, claras e satisfatórias aos questionamentos.

Há quem diga que numa entrevista ao vivo, o entrevistado pode dizer o que quer, ignorar a pergunta e fazer seu discurso. Não é verdade, passa arrogância, desagrada ao jornalista e não responde à pauta. Essa tática de enrolar o público não deixa ninguém confortável, muito menos o entrevistado, por isso que o assessorado deve ser treinado para falar com a imprensa apenas por profissionais de comunicação.

Na prática, uma coisa é a tese de que todo mundo entende um pouco de comunicação, outra, é que só profissionais de comunicação entendem de imprensa.

Mas, enfim, vamos detalhar o que é media training.

Para se relacionar com a mídia é imprescindível conhecer e entender como ela funciona, a dinâmica de produção e os aspectos inerentes ao jornalismo. Nem sempre esse contato é fácil ou o assessorado ou seu porta-voz estão preparados para lidar com a imprensa. Mais do que dominar o assunto a ser falado, o entrevistado deve saber técnicas para uma entrevista e o dia a dia da imprensa para facilitar o seu contato com a mídia.

O primeiro passo para entender essa técnica é observar que não é qualquer pessoa que pode responder em nome do assessorado, seja em entrevistas rotineiras e, ainda pior, em momentos de crise. É preciso selecionar previamente porta-vozes para representá-lo e prepará-los igualmente para o relacionamento com a imprensa. E esta preparação só se faz com o treinamento prévio, que engloba vários aspectos da comunicação e oferece maior conhecimento de como funciona o jornalismo, as artimanhas dos repórteres, as características de cada veículo, as técnicas para conceder uma boa entrevista.

Há aqui em Alagoas várias empresas de comunicação que oferecem com qualidade esse serviço e é bom que as assessorias de imprensa o levem em consideração. Afinal, o desempenho na mídia de um assessorado mostra muito de sua assessoria. 

Em tempo: o meu assessorado que temia o contato com a imprensa vive hoje em rádio, TV e redes sociais, falando com muita competência e conhecimento de causa, no estado dele onde exerce mandato político, depois que conheceu media training e tomou gosto pelo uso do jornalismo na hora certa. 

Uma semana de bem para todos nós.

Postado por Em Pauta

Na pauta da imprensa, as eleições de 2018

Tudo como dantes no Quartel de Abrantes?

30.07.2017 às 01:36
Reprodução

Com um país cambaleante politicamente, a proximidade da disputa eleitoral de 2018 é a pauta que mais movimenta a imprensa nesse momento. As pesquisas de opinião pública, as especulações, as avaliações e até os passos aqui e acolá de partidos e prováveis candidatos fomentam os debates mais acirrados nas redes sociais e no jornalismo.

Não é diferente do cenário geral do país, o que vemos na mídia alagoana.

Pesquisas de intenções de votos pipocam aqui em todas as regiões do estado e já mostram nomes na preferência popular para o governo de Alagoas, senado e as proporcionais para a Assembleia Legislativa e a Câmara Federal.

O que nos chama a atenção?

A população, de uma forma geral, tem rejeitado a corrupção e, claro, políticos corruptos. Uns foram às ruas exigir o impeachment de Dilma, outros estão nas ruas pelo “fora Temer”, muitos condenam as reformas do trabalho e da previdência, assim como o aumento de impostos enfiados goela abaixo do brasileiro, mas, no frigir dos ovos, em geral aparecem como favoritos para a próxima eleição, os mesmos envolvidos e responsáveis pelo mar de lama que envolve o país.

Pela primeira vez na história do País temos um pré-candidato a presidente, Lula, já condenado pela Justiça em primeira instância, por corrupção passiva, assim como temos na presidência da Nação um investigado igualmente por crime de corrupção, Michel Temer (PMDB).

E, sim, Lula tem a preferência das intenções de votos do povo brasileiro e, em Alagoas, para onde vem agora em agosto, deverá receber da universidade estadual o título de Doutor Honoris Causa.

Em nosso estado, dois senadores que provavelmente disputarão a renovação do mandato, Renan Calheiros (PMDB) e Benedito de Lira (PP) respondem inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF), também por corrupção.

E ambos pontuam bem na eleição de 2018.

Para a Assembleia Legislativa ou para a Câmara Federal, os prováveis votos para o ano que vem devem reeleger a maioria deles.

Em resumo, pelo andar da carruagem, 2018 será tudo como dantes no quartel de Abrantes, a diferenciar apenas que, agora, o eleitor terá a consciência sobre quem está dando seu voto.

Isso, para o bem e para o mal.

Já a imprensa, tomara que, pelo menos onde se faz jornalismo com honestidade, ela continue a resistir na indignação para, quem sabe, num futuro próximo, a pauta seja de fato a faxina ética na política brasileira.

Postado por Em Pauta

O jornalismo, como fiel da balança. Será?

23.07.2017 às 00:01


O fato de um jornalista ser partidário de uma causa, não deve torná-lo adversário de outras. Não profissionalmente. É disso que falo quando defendo a honestidade no jornalismo, ou seja, a publicação de todas ou da maioria das versões de um fato e até mesmo o uso delas na avaliação para a expressão opinativa.

Em tempos de redes sociais e de um país dividido pela intolerância e, por vezes, pelo ódio preconceituoso, seja referente à política, raça, cor, religião, orientação sexual e outras questões que expõem publicamente na polêmica os lados  de quem são a favor ou não, a imprensa deveria ser o diferencial na informação.

É certo que a linha editorial da grande maioria da mídia brasileira sempre levou gosto e dinheiro na proteção de alguns lados, sobretudo no que se refere ao poder político. Mas, nós, jornalistas, que já sofremos censura nas redações, que vimos tantas e tantas vezes nossa pauta morrer antes mesmo de nascer, devemos seguir esse rumo?

Hoje, muitos de nós temos blogs, sites e até impressos, e nossa opinião no mundo virtual segue em igual importância.

Devemos nos comportar como jornalistas que somos ou como militantes, de quais causas sejam? Ou como alguns dos nossos patrões de ontem, cuja régua que media o jornalismo era  a mesma que media as peças publicitárias que chegavam ao comercial, ou seus interesses pessoais junto ao poder político?

Claro que essa régua e patrões assim ainda existem.

Mas esse deve ser o nosso exemplo quando conquistamos a soberania de fazer jornalismo?

Lembro que em 1989, na eleição presidencial, participei em Brasília de uma coletiva à imprensa de Fernando Collor, candidato já no segundo turno com Lula. No local havia muitos jornalistas, a grande maioria ostentando no peito a estrela do PT. Foram entrevistar Collor como eleitores de Lula e não como profissionais de comunicação.

O constrangimento foi geral para quem estava ali como profissional do jornalismo e não como militante, e para o candidato, evidentemente.

Lamentei lá atrás e lamento hoje, quando vejo gente da imprensa postando em suas mídias sociais agressões a quem elegeu como adversário, seja na política ou não, compartilhando falsas informações, desde que beneficie quem está em seu palanque ou prejudique quem está fora dele. E, aí, penso: quando esse profissional vai entrevistar essa pessoa a qual qualifica em suas redes de “bandido”, “irresponsável”, “ladrão”, e por aí vai, tem capacidade para lidar com isso e ser jornalista honestamente?

A intolerância exposta por esses profissionais em suas redes sociais é capaz de não interferir quando o entrevistado for exatamente o alvo desses ataques?

Há quem diga que sim, não duvido até que possa.

Mas, para mim, perde credibilidade o entrevistador, perde força a entrevista.

Todo caso, essa é apenas uma reflexão pessoal para esse domingo. Há entre nós jornalistas, no país inteiro, quem ouse, serenamente, responsavelmente, tomar partido, defender bandeira, e não comprometer sua trajetória profissional, seu nome e sua ética no jornalismo.

Os que se perdem no ódio, não são a regra, graças a Deus.

Postado por Em Pauta

O 17 de Julho, contado 20 anos depois

16.07.2017 às 00:01
Foto: Adailson Calheiros

Com 221 páginas, 16 capítulos e 160 personagens, o jornalista Joaldo Cavalcante reconstitui em seu livro “17 de julho – a gameleira, as lembranças e a história decidida à bala”, um dos dias mais significativos para o jornalismo político alagoano desde 1997.

Na época, eu era editora-geral do jornal Tribuna de Alagoas e lembro que, desde o dia anterior, 16, os jornalistas acompanhavam, apreensivos, a tensão na Assembleia Legislativa e no Palácio do Governo. O diretor de redação, Gabriel Mousinho, e eu, decidimos manter uma equipe dia e noite dentro da Casa Tavares Bastos.

Era previsível que toda a pressão de salários atrasados há meses no estado, falência de gestão e acuamento do próprio  governador Divaldo Suruagy, fosse estourar a qualquer momento.

Estourou exatamente em 17 de julho.

Tiroteio, parlamentares sitiados no Poder Legislativo, praça tomada pelo povo, medo, correria, e um governador obrigado a deixar seu mandato à força dos acontecimentos.

Na redação da Tribuna de Alagoas, deslocamos os repórteres de outras editorias para a cobertura geral desse momento. Montamos um QG dentro de um dos nossos carros o mais perto que podíamos chegar da Assembleia Legislativa no auge da confusão. De lá, por comunicação de rádio, orientávamos o nosso pessoal e tínhamos a informação mais próxima do que acontecia do lado de fora.

Lá dentro, já havia uma equipe junto aos deputados.

Dia 18, a Tribuna de Alagoas foi às ruas com uma das melhores coberturas do caso, fotos inéditas, bastidores de dentro da Assembleia e do Palácio do Governo. Praticamente viramos a noite nesta edição.

Um dia inesquecível para os jornalistas que tiveram esse dia como pauta.

O autor da obra não fugiu à regra, esteve, também, como outros atores de sua história, vivenciando esse momento. Ele conseguiu fugir do tiroteio e refugiou-se no tronco de uma gameleira, na praça em frente à Assembleia Legislativa.

E para contar tal enredo, Joaldo, com seu brilhante texto e mente aguçada de repórter investigativo, mergulhou nos arquivos antigos de jornais e na gravação de depoimentos de pessoas que vivenciaram os acontecimentos que culminaram no fogo cruzado entre policiais civis e militares do Estado e os recrutas do Exército. Revela o autor: "Foram quase quinze horas de gravação e algumas centenas de páginas, entre recortes de jornais, textos transcritos de áudios e documentos, como  o IPM do Exército".

Quem já leu outras obras de Joaldo Cavalcante, sabe que nesta nos espera uma reportagem bem contada, com dados e versões bem detalhadas. Que o diga o jornalista Vannildo Mendes, que a prefaciou.

A obra será lançada amanhã, dia 17, a partir das 19 horas, no restaurante Anamá, na Ponta Verde.

Postado por Em Pauta


Em Pauta por Eliane Aquino

Jornalista, com formação em Direito, já passou por redações de várias empresas de Comunicação em Alagoas e em outros estados brasileiros, onde ocupou cargos de repórter à editora geral e funções públicas; especializou-se (no batente) em jornalismo político e tem prestado assessoria e consultoria na área de comunicação.É editora geral do jornal Painel Alagoas.

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