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20/08/2017 às 00h01

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Entrevistando um coronel em "off"

Interior da Catedral Metropolitana de Belém/Reprodução Internet

Em minhas andanças pelo jornalismo, certa feita em Belém do Pará entrevistei “em off” um coronel do exército, a quem denominei em meu texto de “Comandante A”. A pauta era tortura nas prisões do governo militar e o contato foi feito por um jornalista comunista, Augusto Barata, do jornal O Liberal.

Pra começar, o local da nossa conversa, escolhido pelo Coronel, foi extremamente inusitado.

Ainda na ativa, em 1985, ele temia todo tipo de represália e marcou comigo na Catedral Metropolitana da cidade, na Praça Dom Pedro II.

Ele estava de calça jeans, camiseta branca, tênis preto e um boné azul, e eu o encontrei ajoelhado e me parecia em prece. Ajoelhei-me ao lado dele, esperei alguns segundos, e quase cochichando me apresentei. Sentamos naquela igreja imensa, vazia de pessoas, e ele olhou para a minha bolsa, antes de perguntar.

- Você sabe que não pode gravar essa conversa e nem me identificar.

- Sei sim, não se preocupe. Só preciso das informações e me garantiram que elas serão fiéis aos fatos.

- Mesmo assim, abra a sua bolsa para eu ver que não tem nenhum gravador.

Abri a bolsa, ele olhou e me pediu desculpas, mas disse que no “meio deles”, qualquer desconfiança significa prevenção. Eu disse que tudo bem, que eu entendia, mas que eu gostaria de começar por alguns casos, algumas lideranças de esquerda do Pará que morreram ou desapareceram das prisões da ditadura naquele estado.

Passei pra ele uma lista com três nomes e antes de ler cada um deles, o coronel me perguntou:

- Você não é do Pará, de onde você é?

- Isso importa, coronel? Mas sou de Alagoas, houve algum preso político de Alagoas aqui no estado que o senhor tenha conhecido?

- Não, não é que importe, é que não me disseram que a jornalista era de outro estado. E a gente precisa saber com quem está tratando.

-Vamos às informações, coronel?

- Mas a matéria vai sair só aqui, não é? No Pará? Porque aqui eu sei que minha identidade será protegida, tenho amigos lá em O  Liberal, mas em outro lugar...

- Coronel, a minha matéria só vai ser publicada pelo jornal O Liberal, não precisa se preocupar. Então, sobre essas três pessoas, o senhor as viu presas? Uma delas morreu na prisão, o senhor sabe como foi? Quem estava lá quando essa pessoa morreu? O senhor estava na hora?

Ele tirou o boné da cabeça, olhou ao redor, demorou alguns segundos e aí começou a me dar  informações numa fala pausada e tão baixa que, por várias vezes, eu pedi para ele repetir enquanto eu fazia as anotações.

Ficamos ali, meia hora, 40 minutos, e a coleta foi fantástica. Ele tinha muita segurança no que falava, apontava nomes, datas, descrevia cenas e o que ia me contando batia com as informações já conseguidas junto a outras pessoas.  Quando acabamos, ele olhou para o meu bloquinho de notas e me questionou:

- Tudo o que eu disse coube aí?

- Sim Coronel.

- E como vou ser citado no seu texto?

- Vou lhe dar um codinome.

- Deus me livre, não sou subversivo pra ter codinome.

E eu, com toda paciência do mundo:

- Que nome o senhor quer que lhe dê?

- Tenho mesmo que ser citado?

- Vou ter que dizer que tive essas informações de alguma fonte...

Pela primeira vez, durante todo o tempo em que conversamos, ele sorriu:

- Então, me dê um codinome à minha altura, Comandante.

Como o primeiro nome era Alberto, assim foi feito: Comandante A.

A matéria ganhou Capa do domingo com destaque, ocupou a importantíssima página 3 do primeiro caderno, repercutiu nas edições dos próximos dias, virou pauta de outros veículos de comunicação, e recebi da minha fonte um telefonema na segunda-feira:

- Gostei muito da matéria, mas precisava ter revelado que conversamos numa igreja católica?

- Foi só para enriquecer o texto, gosto dos detalhes... Mas por que o senhor não gostou?

- Sou evangélico.

Enfim, mais uma das minhas tantas histórias em quase 38 anos como jornalista, pra mostrar que na minha profissão a paciência também é uma ferramenta importante (risos).


Em Pauta por Eliane Aquino

Jornalista, com formação em Direito, já passou por redações de várias empresas de Comunicação em Alagoas e em outros estados brasileiros, onde ocupou cargos de repórter à editora geral e funções públicas; especializou-se (no batente) em jornalismo político e tem prestado assessoria e consultoria na área de comunicação.É editora geral do jornal Painel Alagoas.

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