Dólar com. R$ 3,19
IBovespa +0,14%
22 de outubro de 2017
min. 24º máx. 27º Maceió
chuva rápida
Agora no Painel Temer quer que deputados não compareçam à votação de denúncia
27/08/2017 às 00h01

Blogs

O sigiloso jornal de PC Farias

Jornalista Stefani Lins comunica à redação o fim do projeto - Arquivo/Tribuna de Alagoas

Um jornal que nunca foi às bancas.

Essa é uma história recontada. Ela já foi publicada no meu blog, no  Cada Minuto do jornalista Carlos Melo,  em 31 de maio de 2015. Mas penso que sempre vale a pena relembrar um dos fatos mais inusitados do jornalismo alagoano, e cá está o texto.

Tal qual se procedeu naqueles tempos.

Estávamos em janeiro de 1992.

Em Alagoas, dois assuntos eram pauta da imprensa: eleição municipal e o jornal do empresário Paulo César Farias, pivô da briga entre os irmãos Collor, Pedro e Fernando. O primeiro, responsável no estado pelo complexo de Comunicação da família, a Organização Arnon de Mello, o segundo, presidente do Brasil.

Pedro botou na cabeça que a Tribuna de Alagoas, reeditada por PC Farias, era projeto bancado pelo irmão presidente, o que fragilizaria comercialmente as empresas da Organização Arnon de Mello: uma emissora de TV, um jornal impresso, duas rádios na capital e uma rádio no interior, em Arapiraca, Agreste de Alagoas.

O jornal de Paulo César Farias estava em andamento. Prédio arrumado, equipado, a equipe sendo formada, e os projetos gráfico e editorial definidos. A oferta salarial alta impactou o mercado.

Eu fui convidada pelo jornalista Anivaldo Miranda para ser subeditora do Caderno Alagoas (política e economia), que ele iria conduzir. Fui conhecer o empreendimento e fiquei encantada. O editor-geral era o jornalista Stefani Brito.

Para nos acompanhar na editoria, foram contratados os competentes repórteres Rachel Rocha e Hélder Bayma.

Havia muitos jornalistas notáveis, como Gabriel Mousinho, Bernardino Souto Maior, Manoel da Nóbrega, Luiz Pompe, Plínio Lins, Vladimir Calheiros, entre tantos outros, igualmente dos melhores.

Equipe completa, a ordem era fazer o melhor.

Trabalhávamos normalmente, no ritmo comum a qualquer redação, cobrindo os eventos factuais, fazendo reportagens especiais, buscando no fechamento das edições as melhores fotos, as manchetes mais calorosas.

Tínhamos, naquela redação, um espírito de competitividade contagiante. Todas as editorias se esforçavam para assegurar a manchete de Capa, a foto do dia.

Havia um cronograma de horário de fechamento que era rigorosamente cumprido. A gráfica trabalhava a todo vapor para que, nas primeiríssimas horas do dia, o jornal já pudesse estar pronto para ir às ruas.

E aí é que existia o nó.

O jornal não ia às ruas. Não saia daquele prédio, por nada nesse mundo.

Chegava um ou dois exemplares na redação para avaliarmos, compararmos, e até darmos seguimento a um ou outro caso no decorrer do dia. As máquinas rodavam pouco mais que oito ou dez exemplares diariamente. Nada mais que isso.

Muitos vezes, éramos quatro, cinco, jornalistas a manusear minuciosamente um exemplar.

Olhávamos e tratávamos aquela edição como um tesouro, ansiosos de que pudéssemos compartilhar o nosso trabalho, lá fora, com os leitores, com a sociedade. Em muitas edições, demos “furo” nos demais jornais diários (Jornal de Alagoas, Diário de Alagoas, Gazeta de Alagoas).

E vibrávamos, festejávamos o feito, como se ele também estivesse em bancas de venda, na casa de assinantes.

E mesmo sem o jornal ir às bancas, ninguém se negava a nos dar entrevistas, a falar em off, a fazer denúncias.

Vivíamos uma gestação, uma feliz gestação, onde estávamos sempre aguardando a hora de parir.

Foi um momento ímpar no jornalismo alagoano.

A Tribuna de Alagoas não saia do prédio para não colocar mais lenha na fogueira da discórdia entre Pedro e Fernando Collor.

Pedro não admitia a concorrência, diziam os diretores do jornal de PC. À imprensa nacional, Pedro ameaçava balançar o governo do irmão e levar, junto, Paulo César Farias.

Fizemos o jornal de fevereiro até final de maio, de 1992, quando, finalmente, Pedro Collor venceu. A Tribuna de Alagoas estava sendo fechada, sem nunca, de fato, ter sido aberta. A direção negociou as nossas demissões com o sindicato dos jornalistas, à época presidido por Joaldo Cavalcante.

Em cada um de nós, ficou a sensação de ter vivido um sonho no jornalismo alagoano.

O fato é que, o fechamento da Tribuna de Alagoas não resolveu a pendenga entre Pedro Collor e o irmão Fernando. A coisa tomou um rumo que acabou no impeachment do presidente da República, em várias ações penais contra ele e outros membros do governo, além da prisão de Paulo César Farias acusado de corrupção.

Em 1996, PC retomou o projeto do jornal, porém bem mais modesto nos custos. A Tribuna de Alagoas estava prevista para ser lançada em junho, mas isso só aconteceu em agosto. Em junho, Paulo César Farias foi assassinado. Também, dessa vez, ele não viu o seu jornal nascer.

Com o jornalista Gabriel Mousinho na direção de jornalismo, eu fui editora-geral da Tribuna de Alagoas, de 1996 a 1998, sob a gestão empresarial dos irmãos de Paulo César Farias.

Experiência a ser contada em outros escritos, com certeza.


Em Pauta por Eliane Aquino

Jornalista, com formação em Direito, já passou por redações de várias empresas de Comunicação em Alagoas e em outros estados brasileiros, onde ocupou cargos de repórter à editora geral e funções públicas; especializou-se (no batente) em jornalismo político e tem prestado assessoria e consultoria na área de comunicação.É editora geral do jornal Painel Alagoas.

Todos os direitos reservados
- 2009-2017 Press Comunicações S/S
Avenida Hamilton de Barros Soutinho, 1866 - Jatiúca - Maceió-AL
Tel: (82) 3313-7566
[email protected]