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10/09/2017 às 02h54

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Quando a ousadia supera a pauta

Romeu Tuma- Arquivo/Agência Brasil

Estava na reportagem do jornal A Crítica, em Manaus, no ano de 1986, cobrindo o caso do Colarinho verde.  Essa era uma investigação da Polícia Federal sobre possíveis fraudes nas cotas de importação liberadas pela Suframa.

Era tempo de muita competitividade na imprensa local por conta desse assunto. Não era para menos, envolvia empresários e políticos e na época havia seis jornais diários na cidade, além de emissoras de rádios e TVs.

Aí eu soube por meio de minhas fontes que o diretor geral da Polícia Federal, delegado Romeu Tuma, tinha desembarcado em Manaus, logo cedo da manhã, e se dirigira ao Comando Militar da Amazônia para uma conversa com o comandante sobre o caso em investigação.

O que danado tinha a ver o Comando Militar da Amazônia com esquema de corrupção na Suframa?

Com o meu parceiro de trabalho, o fotógrafo João Rodrigues, nosso Pinduca, decidi no mínimo bisbilhotar o local. O veículo de A Crítica parou nas imediações do Comando Militar da Amazônia e deixei Pinduca a postos, com uma determinação: ele fotografar qualquer carro que saísse pelo portão principal, mirando a placa. Eu iria tentar entrar.

O motorista e Pinduca tentaram me fazer desistir. Ali era área de segurança militar e eu poderia ser presa, passar algum constrangimento, mas, segura dos meus impulsos, fui em frente.

Já no portão, deparei-me com dois militares fazendo a guarda.

- Bom dia, eu sou da assessoria do delegado Romeu Tuma. Ele já entrou? Eu posso aguardar lá dentro? 


- Um momento,senhora, me disse um dos militares.


Através de um rádio, ele se comunicou com alguém que perguntou o meu nome.


Eu, morrendo de medo e cheia da ousadia:

 “Fui orientada a não revelar o meu nome, essa é uma reunião secreta. Se eu não fosse da assessoria dele, como saberia que ele estava aqui?”

- Um momento senhora, voltou a repetir o militar e voltou a falar com alguém pelo rádio.


Segundos depois, um militar veio até a porta. 


- O Dr. Tuma não trouxe assessoria. Ele já está em reunião com o comandante.

Ante o olhar raivoso do primeiro militar com quem falei, aumentei minha dose de ousadia:


- Claro que ele não trouxe, eu trabalho para a Polícia Federal aqui em Manaus.

 Preciso aguardar por ele, posso esperar lá dentro? Diga a ele que a assessora dele já chegou.


E quem era doido de entrar numa reunião secreta do comandante com o diretor geral da PF? Eu apostei, nisso, evidentemente.


Depois de muitos vai e vem, o sargento Pontes (era esse o nome dele) me levou para a antessala do gabinete do comandante. Tomei café, água, e meu pensamento era um só: “Vou ser presa”!

Uma hora e meia depois Tuma saiu acompanhado do comandante e se assustou ao meu ver.


- Menina (eu era mesmo uma menina, tinha 25 anos de idade!!!!), o que você está fazendo aqui?

Maravilha! Ele tinha um sorriso no rosto de susto.


- Esperando o senhor.


E o Tuma, para o comandante:


- Essa jornalista não tem fonte, tem bola de cristal. Todo dia me liga pelo menos umas quatro vezes para “confirmar” as informações dela. 


Os dois riram, e eu sosseguei, pra lá de aliviada. Estava livre da prisão, enfim!

 Sentamos ali mesmo e Tuma me deu o furo o qual eu fui buscar. Um dos laranjas do caso, Nicolas Gamarra, já tinha sido localizado e dado depoimento, em La Paz, a oficiais do exército que trabalhavam na fronteira do Brasil com a Bolívia. Deixei a sede do CMA no carro que transportava Tuma e Pinduca fez a foto de Capa do delegado federal descendo para abrir a porta para mim.


Evidente que eu não saí na foto publicada na primeira página de A Crítica, no dia seguinte. Jornalista não é notícia, ele escreve a notícia. A foto do talentoso Pinduca foi Tuma na frente da sede do comando Militar da Amazônia.

Ganhamos a pauta!

E eu não perdi nem a fonte, nem a liberdade.


Em Pauta por Eliane Aquino

Jornalista, com formação em Direito, já passou por redações de várias empresas de Comunicação em Alagoas e em outros estados brasileiros, onde ocupou cargos de repórter à editora geral e funções públicas; especializou-se (no batente) em jornalismo político e tem prestado assessoria e consultoria na área de comunicação.É editora geral do jornal Painel Alagoas.

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