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17/09/2017 às 00h01

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No norte do país, tensão, protesto e “Aisó” na pauta

Índios Cinta Larga, nos dias de hoje - Reprodução/Facebook

Em 1987, uma turma de jornalistas viajou a Cacoal, Rondônia, a convite da Funai. A intenção do governo federal era mostrar que a política indígena no país estava humanizada e que o tratamento ao índio era de total respeito aos seus direitos constitucionais.

Fazia pouco tempo que eu tinha chegado a Brasília e estava trabalhando no jornal Correio do Brasil, que ficava em Taguatinga. A pauta me animou e viajei com a recomendação de olhar além dela e de trazer algo diferenciado do que fora buscar. Topei na hora e antes de viajar fui até a uma banca de revistas, na Rodoviária em frente ao Conjunto Nacional, para comprar jornais de Porto Velho. Queria saber mais sobre Rondônia.

Mais ou menos familiarizada com o estado, lá fui eu vôo a fora em busca de aventura.

Instalados no hotel, bem acomodados e alimentados, era, enfim, hora de irmos até a área indígena dos Cinta Larga. Embarcamos numa aeronave da FAB, cerca de sete a oito jornalistas, entre repórteres e fotógrafos e um cinegrafista da TV afiliada da Globo em Rondônia, e mais uma vez voamos sobre o Norte do país, cheios de expectativa.

Ao começarmos a descer, avistei um grupo de homens e mulheres, talvez uns vinte ao todo, caras e corpos pintados, armados com arco e flecha, a se movimentarem como numa dança frenética. Balançavam muito as cabeças e batiam com os pés no chão de terra batida onde pousamos.

Pra mim e meus colegas, era uma recepção festiva, até aplaudimos.

Desembarcamos rindo, os fotógrafos com as máquinas em punho, já prontas para captar as imagens, eu já querendo saber com quem falar para me explicar qual o significado de tudo aquilo, as cores, os batuques, a dança...

Aí o representante da Funai na região nos pediu para não fotografar, chamou Gabriel Guerreiro, assessor da presidência da fundação que nos acompanhava, a um canto, cochicharam um pouco e nos pediram para retornar à aeronave.

Ora, pois. Imagine apenas nos pedir para recuar, sem explicação.

Ficamos ali e fotografamos sim. Foi então que Guerreiro nos informou que era perigoso para nós, que eles estavam realizando exatamente um protesto contra a Funai e que, na tensão, não seriam capazes de distinguir jornalistas, convidados e representantes do órgão.

Atendemos ao apelo e ficamos de butuca nas poucas janelas do avião disponibilizado para a nossa viagem. Houve momento de maior acirramento, mas de repente percebemos que os ânimos iam se acalmando e eu desci da aeronave silenciosamente. Comecei a caminhar para onde estava o restante dos índios, havia muitas mulheres e crianças.

Uma índia, velha, seios descobertos, vestindo uma saia de um tecido amarelado, não sei se era tintura apenas ou um pano encardido, pernas pintadas com tinta vermelha, feita à base de jenipapo (descobri e acompanhei a feitura dessa tinta lá mesmo, depois que o clima normalizou-se), aproximou-se de mim, desconfiada.

 Queria saber se eu era da Funai, tocou meus cabelos, minha mochila presa às costas, minhas pulseiras de arcos dourados e me disse, baixinho: “Aisó”. Eu, sem entender, no mesmo tom baixo de voz, indaguei: “O que isso significa?” E ela, insistindo, com um sorriso no canto dos lábios: “você é uma aisó”.

Bem, voltei a minha atenção à pauta.

Fomos levados a uma grande cabana coberta com palhas, onde um índio, que todos tratavam por “Abaçai”, contou-nos, enfim, as queixas da tribo. E me garantiu que o ritual de protesto na nossa chegada não tinha nada de perigoso (Graças a Deus!). Segundo ele, aquela era a linguagem encontrada para o governo saber que não havia mais uma relação amistosa entre eles.

Mas acabaram chegando a um acordo e a viagem não foi em vão.

A Funai conseguiu nos apontar um projeto do órgão na agricultura e na saúde em benefícios dos indígenas e acabamos também conhecendo a história, os mistérios e as lendas em torno dos Cinta Larga. De Cacoal, mandamos texto e imagens para Brasília por um aparelho de fax existente na prefeitura do município.

E só bem mais tarde, já no retorno a Brasília, é que fui informada sobre o que significa “Aisó”: moça formosa.

 Mas, além de algumas palavras aprendidas com essa tribo, voltei à redação com uma matéria a mais da pauta, trouxe ao jornal uma entrevista exclusiva com “Abaçai” sobre a luta dos indígenas em resistir aos costumes do “homem branco”.


Em Pauta por Eliane Aquino

Jornalista, com formação em Direito, já passou por redações de várias empresas de Comunicação em Alagoas e em outros estados brasileiros, onde ocupou cargos de repórter à editora geral e funções públicas; especializou-se (no batente) em jornalismo político e tem prestado assessoria e consultoria na área de comunicação.É editora geral do jornal Painel Alagoas.

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