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Luto na comunicação: TV Brasil deixa de ser uma emissora pública

23.09.2016 às 16:08

Emissora deixa de ser gerida com a participação da sociedade, prestando serviços a comunicação pública ( como previsto na constituição) para se transformar num mero veículo a favor do governo


Não dá para acreditar, mas a TV Brasil, com o aval de Temer & Cia., deixa de ser uma televisão pública. Com o presidente da EBC exonerado, com o Conselho Curador extinto e o fim das garantias de independência, a emissora deixa de ser pública e vira governamental (ou estatal). Traduzindo em miúdos, a emissora deixa de ser gerida com a participação da sociedade, prestando serviços a comunicação pública ( como previsto na constituição) para se transformar num mero veículo a favor do governo.

Nos últimos oito anos, a TV Brasil construiu uma rede com emissoras educativas estaduais e independentes. Os contratos de rede foram revogados. Produziu conteúdos que alimentaram sua grade e a das emissoras parceiras. Licenciou conteúdos de qualidade, dos produtores nacionais independentes e de emissoras públicas internacionais. Tem um riquíssimo banco de conteúdos, alguns próprios, outros em parceira com  produtores brasileiros. Tem acervo e tem equipamentos modernos para continuar produzindo. Mas produzir para quê? . A nova direção já iniciou negociações com a Tv Cultura de São Paulo para retransmitir sua programação. 

A parceria com a emissora paulista não foi  totalmente ruim e teve início na gestão de Tereza Cruvinel. Naquela gestão foi firmado um acordo  que garantiu o abrigo dos transmissores do canal paulista da TV Brasil na torre do Sumaré. Em troca, a EBC forneceu à TV Cultura seu primeiro transmissor digital. Além desse acordo aconteceram outros, inclusive  de coproduções; mas trocar a totalidade da grade de programação pela de outra emissora é uma verdadeira operação “de desmonte”.

A luta pela comunicação pública não acaba com o desmonte da EBC. Será retomada, à luz da Constituição. Enquanto isso seria recomendável que Temer e seu governo assumissem, sem manobras ou falsos pretextos, que estão desconstruindo a maior experiência de comunicação pública que o país já teve.

As chances de restauração da Lei 11652/2008 são remotas,  e enquanto não acontece fica difícil chamar a TV Brasil de pública, ou até mesmo de estatal ... está mais para TV Temer.


*Com informações da Ascom/EBC e blog da Tereza Cruvinel


Postado por Etc & Tal

Rádio Nacional: 80 anos

13.09.2016 às 02:33
A apresentação do grupo Época de Ouro emocionou a todos nas comemorações dos 80 anos da Rádio Nacional do Rio de Janeiro - Foto: Vladimir Platonow/Agência Brasil

Nas comemorações dos 80 anos da Rádio Nacional, artistas e funcionários pedem manutenção da sede da  emissora no edifício "A Noite"


Os 80 anos da Rádio Nacional foram comemorados nesta segunda-feira (12) em um show na região portuária do Rio, com a presença de artistas contemporâneos e outros que fazem sucesso há muitas décadas. A apresentação do grupo Época de Ouro emocionou a todos, que puderam participar da comemoração, aberta ao público, no auditório da Casa Brasil, no Boulevard Olímpico.

Em comum, todos defenderam a permanência da Nacional em parte do prédio do Edifício A Noite, na Praça Mauá, 7, onde a rádio começou, em 1936. Pelos corredores, estúdios e, principalmente o auditório, passaram os maiores artistas, cantores, músicos e jornalistas do rádio brasileiro, muito antes da invenção da televisão e quando o Brasil era ligado, de ponta a ponta, pelas ondas radiofônicas. Em 2004, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva reinaugurou o auditório e os novos estúdios, no 21º andar, ao custo de R$ 1,7 milhão.

Para a jornalista e apresentadora Daisy Lúcidi, que comanda o seu Alô Daisy há mais de quatro décadas, é preciso manter a presença da Nacional no Edifício A Noite, que deverá ser vendido em breve para um grupo imobiliário, que ali poderá fazer um hotel, um prédio comercial ou até residencial. Atualmente, o edifício está desocupado desde 2012, pois precisa de reformas, mas, com a valorização do entorno depois das obras de revitalização da região portuária, o imóvel ganhou interesse da iniciativa privada. A Rádio Nacional, juntamente com a Agência Brasil, se mudaram para prédios da TV Brasil, na Lapa.

“O Edifício A Noite era a nossa casa. A gente tem muita saudade. É a minha vida que foi dedicada lá. A Nacional foi uma verdadeira universidade do rádio. Tudo que se fez foi lá: os grandes programas de radioteatro, que tinham mais de 100 artistas, as grandes orquestras, que nós tínhamos cinco, e os cantores todos estavam na Nacional. Foi uma fase áurea do rádio. Tem que manter lá. A Nacional é um patrimônio do Brasil. Tudo o que foi feito em rádio, as grandes transformações, aconteceram lá”, disse Daisy Lúcidi.

Referência

A cantora Ellen de Lima, que começou sua carreira na Nacional, em 1950, e depois emplacou grandes sucessos musicais, também fez uma defesa veemente da permanência da Nacional na Praça Mauá, considerada por ela um dos berços do rádio brasileiro.

“A Rádio Nacional ali naquele prédio é uma referência. Muita gente tem a vida ligada a grandes momentos que a Nacional proporcionou, com seus músicos e um elenco maravilhoso. A rádio, de jeito nenhum, pode sair dali. Um pertence ao outro. Quando se fala em Rádio Nacional, se lembra do Edifício A Noite, e vice-versa. É um marco da radiofonia brasileira. A história do rádio está ali na Rádio Nacional”, disse Ellen de Lima.

No grupo dos radioatores, figurou durante muitos anos Gerdal dos Santos, que atuou ao lado dos maiores nomes da época e ainda hoje continua na ativa, com seu programa Onde Canta o Sabiá, trazendo músicas de todos os tempos.

“Quando a Nacional foi inaugurada, em 12 de setembro de 1936, foi um momento grandioso para o rádio brasileiro. Às 21 h, o locutor Celso Guimarães entrou para dizer: 'Alô rádio ouvintes, alô Brasil, está no ar a Rádio Nacional do Rio de Janeiro.' Há uma necessidade histórica e educacional de se manter ali a Nacional, que, por ser pioneira, faz parte da história e da cultura do Rio de Janeiro e do Brasil”, disso Gerdal.

Licitação

Em nota, a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) informou que, juntamente com o Ministério do Planejamento e os coproprietários do prédio, está sendo feita a formatação da licitação para venda do edifício A Noite. Segundo a SPU, são coproprietários a União, o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) e a Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

“O processo licitatório, previsto para ser lançado em novembro de 2016, será público e aberto a qualquer interessado. De acordo com o secretário do Patrimônio da União, Guilherme Estrada Rodrigues, todos aspectos tombados do Edifício A Noite deverão ser preservados e a licitação será realizada na modalidade permuta por área construída", destacou a nota.

De acordo com a SPU, o Edifício A Noite pertence à União. “Em 1986 foi firmado um contrato de cessão com o INPI, sob o regime de aforamento, contemplando do subsolo ao 18º andar do prédio. O restante do edifício – do 19º andar à cobertura – ainda está em nome da União, mas está em andamento o processo de aforamento desses andares em nome da EBC.

Segundo a secretaria, “o aforamento é um contrato por meio do qual a União atribui a outrem 83% do domínio útil de um imóvel da União e mantém a posse dos 17% restantes. Esse instrumento é utilizado nas situações em que coexistem a conveniência de destinar o imóvel e, ao mesmo tempo, manter o vínculo da propriedade”.

Entre as propostas dos que defendem a permanência da Nacional pelo menos no 21º andar, está a de tornar o local um centro cultural, integrado ao entorno da Praça Mauá, podendo realizar show musicais populares, pois o auditório principal comporta cerca de 200 pessoas, ou recitais menores, em um outro auditório menor, para 50 espectadores, dedicado mais à música instrumental e clássica.


*Com informações Ascom/EBC e Agência Brasil



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Rede Nacional de Comunicação Pública declara apoio à continuidade da TV Brasil

13.08.2016 às 01:11
Divulgação

 Descontinuidade da TV Brasil coloca em risco toda a estrutura da comunicação pública no país; em nota pública RNPC manifesta apoio à emissora


A Rede Nacional de Comunicação Pública, que reúne 16 emissoras públicas estaduais de TV, publicou uma nota pública manifestando apoio da entidade à continuidade da TV Brasil, emissora pública da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). A decisão de escrever a nota foi tomada durante uma reunião mensal que as emissoras fazem para falar de programação e tratar da troca de conteúdos.

A EBC é uma empresa pública que, além da TV Brasil, é gestora da TV Brasil Internacional, da NBR, de oito emissoras de rádio, da Agência Brasil e da Radioagência.

A  Rede Nacional de Comunicação Pública diz que a “ameaça de suspensão da TV Brasil é gravíssima”. "A hipótese de descontinuidade da TV Brasil prejudicaria diretamente toda estrutura de comunicação pública no país, na medida em que boa parte da programação das emissoras regionais é fornecida dela", diz a nota.

Segue a íntegra da nota pública da  Rede Nacional de Comunicação Pública

Por uma comunicação pública forte, comprometida com o cidadão e a democracia

Reunidas em Brasília, as emissoras públicas estaduais de TV que compõem a Rede Nacional de Comunicação Pública manifestam seu total apoio à continuidade da operação da TV Brasil, fundamental para o cumprimento do princípio de complementariedade de sistemas de televisão definido pela Constituição Federal. A ameaça de suspensão das atividades da TV Brasil é gravíssima. Configuraria um duro ataque à liberdade de imprensa e de expressão e uma violação a um dos direitos humanos fundamentais reconhecidos pelas Nações Unidas.

A Empresa Brasil de Comunicação (EBC), nave-mãe da TV Brasil, da TV Brasil Internacional, da NBR, de oito emissoras de rádio e uma agência de notícias, foi inaugurada em 2007 com a missão de avançar na concretização dos artigos da Constituição relativos à comunicação --que seguem sem regulamentação, na sua quase totalidade, 28 anos depois de promulgada a Carta Magna.

A hipótese de descontinuidade da TV Brasil prejudicaria diretamente toda estrutura de comunicação pública no país, na medida em que boa parte da programação das emissoras regionais provém dela. Na prática, a rede pública de televisão é o único meio de circulação de informação gratuita qualificada sobre fatos ocorridos para além do eixo Rio-São Paulo, onde se concentram as grandes redes de TV comerciais. É por meio da rede pública, a partir da TV Brasil, que a sociedade brasileira enxerga melhor a diversidade de temas, personagens, realidades e culturas regionais --o que demarca com clareza os diferentes papéis da TV pública e da TV comercial.

Da mesma forma, é importante acentuar a distinção entre uma TV pública como a TV Brasil e um canal estatal --caso da NBR, responsável pela comunicação governamental do Poder Executivo Federal. Essenciais para a defesa de uma democracia saudável, TV Brasil e NBR precisam demarcar com cada vez mais clareza seus diferentes papéis, que serão melhor cumpridos quanto maior for a separação de estruturas. equipes e conteúdos.

A lei que cria a TV Brasil oferece também um importante mecanismo de fomento à radiodifusão pública, por meio da única fonte de financiamento existente para o setor. A Contribuição para o Fomento à Radiodifusão Pública precisa ser regulamentada urgentemente, para que se possa escoar os R$ 2,7 bilhões arrecadados desde 2009 entre as TVs e as rádios do campo público.

As emissoras abaixo assinadas reafirmam, portanto, a importância da preservação do caráter público da TV Brasil e do fortalecimento da Rede Nacional de Comunicação Pública, essenciais para a garantia dos direitos à informação, à comunicação e à liberdade de expressão. O que se constitui como instrumento indispensável para a afirmação de uma comunicação voltada aos interesses do cidadão, que contribua para a consolidação da jovem democracia brasileira.

TV Aldeia (Acre)

TV Antares (Piauí)

TV Aperipê (Sergipe)

TV Ceará

TV Cultura do Amazonas

TV Pernambuco

TV UFB (Paraíba)

TV UFSC

TV UFG (Goiás)

TV Universitária do Recife

TV Universitária (Rio Grande do Norte)

TVE Alagoas

TVE Bahia

TVE Tocantins

TVT (São Paulo)

Rede Minas


*Com Ascom/EBC

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Festival Latinidades discute o papel da mulher negra na comunicação

25.07.2016 às 23:16
Fotos: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Na abertura da 9ª edição do Festival Latinidades, maior diálogo e intercâmbio cultural de mulheres negras na América Latina sobre a temática afro


A ocupação de parte da Rodoviária do Plano Piloto, no centro de Brasília, marcou hoje (25) o início do Festival Latinidades. Com balões, música e cerimônia religiosa, o evento celebrou também o Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha. A comunicação, com foco no marketing, jornalismo e nas redes sociais, é o tema da nona edição do evento.

Este ano, o festival vai destacar o protagonismo das mulheres negras e o enfrentamento ao racismo nesses meios. O Latinidades vai  até o dia 31 de julho, com atividades concentradas no Museu Nacional, na Esplanada dos Ministérios. A programação,disponível no site www.afrolatinas.com.br , inclui debates, conferências, lançamentos de livros, oficinas, cinema, feiras e shows, entre outras atividades.


“A ideia é pensar como os meios de comunicação podem ser usados no combate ao racismo e dar visibilidade à produção intelectual, cultural e jurídica dos negros em geral, especialmente das mulheres negras”, explicou a coordenadora de atividades formativas do Latinidades, Bruna Pereira. A expectativa da organização é receber 2 mil pessoas de todo o país durante o evento.

Para a publicitária baiana Larissa Santiago, do coletivo Blogueiras Negras, o evento é uma oportunidade para divulgar “como cada elemento do povo negro é comunicado à sociedade”. “A música, a religião, a forma de escrever e até mesmo o silêncio é uma forma de comunicar”, destacou.

O Latinidades também coloca em pauta a sororidade, termo usado para expressar empatia e companheirismo entre as mulheres, que tem ganhado força nas redes sociais e entre as militantes pela igualdade de gênero. “O termo é novo para uma prática antiga, que é irmandade, a solidariedade. É ter tempo de se ajudar, de olhar para o outro e ver o que nos une mais do que o que nos afasta”, ressaltou Larissa.


Programação

Nesta terça-feira (26), às 19h30, haverá debate no festival sobre a atual estrutura do sistema de comunicação brasileiro e a luta pela construção de um espaço público midiático plural e voltado à promoção da justiça social. Duas jornalistas da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) participarão do debate: Juliana Cézar Nunes (secretária-executiva do Conselho Curador da EBC) e Luciana Barreto (âncora do Repórter Brasil Tarde). Os outros debatedores serão o fundador da Casa de Cultura Tainã e da Rede Mocambos (que atuam para a apropriação de softwares livres por comunidades quilombolas, indígenas e periféricas), Mestre TC (SP), e o produtor cultural do Rio de Janeiro Dom Filó, um dos mentores, na década de 1970, do Movimento Black Rio.

A mídia tradicional e a falta de diversidade de vozes da sociedade brasileira serão tema da mesa de discussão da quarta-feira (27), às 10h. O debate vai mostrar como grupos marginalizados têm resistido à invisibilidade e aos estereótipos com projetos colaborativos, tecem redes, propõem outras formas de comunicar, e fazem soar as vozes das periferias. O feminismo negro e o empoderamento das mulheres negras nos meios de comunicação, por ferramentas digitais e redes é o tema do #ELLASDebatem, também na quarta, a partir das 17h30.

Na quinta-feira (28), às 15h, estarão em pauta arte e cultura como instrumentos de troca, denúncia e reinvenção. A artista visutal Renata Felinto, a advogada Eliane Dias, a escritora Jarid Arraes e a jornalista Sueide Kintê discutirão como imagens, palavras e ritmos falam de vivências, ao mesmo tempo em que desafiam desigualdades e injustiças, contestam certezas e articulam mudanças.

Na sexta-feira (29), às 19h30, haverá uma conferência com a escritora norte-americana Kimberlé Crenshaw sobre interseccionalidade, conceito que influenciou a elaboração da cláusula sobre equidade na Constituição sul-africana. Refêrencia em Direitos Civis, na Teoria Feminista Negra no Direito e no tema de raça, racismo e direito, Kimberlé Crenshaw é professora da Universidade da Califórnia e na Universidade de Columbia.

O festival traz ainda uma exposição de fotos que retrata quilombolas de várias regiões do país e de diferentes faixas etárias que, em 18 de novembro de 2015, participaram, em Brasília, da Marcha das Mulheres Negras – Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem-Viver, evento que reuniu representantes das mais de 3 mil comunidades quilombolas.

Na programação musical do Latinidades estão as artistas Tati Quebra Barraco, MC Carol, Pretas Sonoras e DJs da festa Batekoo, de Salvador. Também estão entre os destaques a saxofonista norte-americana Hope Clayburn e a cantora nigeriana Veronny Okwei Odili. O festival também tem atrações para crianças no Espaço Infantil, com brincadeiras, roda de conversa e bailinho.

Organizado pelo Instituto Afrolatinas, o evento deste ano tem a parceria das Nações Unidas no Brasil e patrocínio do governo do Distrito Federal.


*Com informações da Agência Brasil 

Postado por Etc & Tal

A imparcialidade nas empresas de comunicação

08.07.2016 às 20:32

Pesquisa CUT/Vox Populi revela que nunca as empresas de comunicação foram tão mal avaliadas no quesito imparcialidade 


A mais recente pesquisa CUT/Vox Populi mostra que entre os mortos e feridos pela crise política a dita grande mídia é uma das vítimas . Nos últimos 50 anos, sua imagem de isenção e imparcialidade nunca esteve tão em baixa. 

Realizada entre os dias 7 e 9 de junho, a pesquisa caracterizou atitudes e sentimentos da opinião pública um mês após a posse de Michel Temer. Permite, portanto, identificar como a população compara a Presidência de Dilma Rousseff com a situação atual. 

A respeito da mídia, havia duas perguntas. A primeira solicitava uma avaliação do modo como emissoras de televisão, jornais e revistas discutiram o governo Dilma: se foi “com imparcialidade, apenas relatando fatos”, se a trataram de forma “crítica demais” ou “favorável demais”. A segunda, quanto ao governo Temer, era igual.  

Em relação a nenhum dos dois, a proporção daqueles que dizem que a mídia foi ou tem sido “imparcial” é majoritária. Apenas 43% acham que Dilma Rousseff foi retratada com neutralidade, enquanto 49% afirmam que Temer é assim apresentado.   

Desde quando se fazem pesquisas sobre a imagem dos meios de comunicação, nunca vimos números tão ruins: mal chega à metade a parcela da população que a considera equânime a propósito do último ou do atual governo. 

A pesquisa não revela somente seu mau desempenho nos atributos “isenção” e “apartidarismo”. O problema é maior.

A respeito do governo Dilma, 44% dos entrevistados consideram que os veículos de comunicação foram críticos “demais”, enquanto apenas 14% têm a mesma percepção do comportamento da mídia em relação ao governo de Michel Temer. Inversamente, 25% dos entrevistados afirmaram que os meios são favoráveis “demais” ao peemedebista, proporção que cai para 6% quando se trata da petista. 

Isso nada tem a ver com as características “objetivas” do noticiário. Não custa lembrar que o levantamento foi realizado quando o foco havia saído dos percalços do governo Dilma e se concentrava nas crises do interino. Ainda assim, os entrevistados mostraram-se capazes de identificar o “lado” da mídia: “Crítica demais” à petista e “favorável demais” ao pemedebista. 

Não é, portanto, a quantidade de notícias negativas contra Temer (que era abundante) ou Dilma (que era menor nos dias de realização da pesquisa) a definir o “lado” enxergado pelos entrevistados. A identificação vem da percepção de um “excesso”, a favor ou contra, traduzido no advérbio de intensidade.  

O sentimento de que emissoras de televisão, jornais e revistas têm um viés negativo sistemático é especialmente intenso em alguns segmentos da sociedade, como se constata nas variações regionais e socioeconômicas das respostas relativas a Dilma. No Nordeste, apenas 37% dos entrevistados afirmam que a mídia foi justa com ela, enquanto 57% a consideram “crítica demais”. Entre as mulheres, as proporções são de 39% e 46%, com clara vantagem da percepção de facciosidade, quase exatamente os mesmos números registrados entre os jovens (39% e 45%) e os cidadãos com menor escolaridade (39% e 46%).

Só existe um segmentoda população que parece acreditar na imparcialidade dos meios de comunicação em relação a Dilma : os antipetistas. Entre os 27% que rejeitam o PT, 63% têm essa opinião. Isso também significa que, até entre esse grupo, 22% não consideram os veículos isentos. 

Constatar ser esta a imagem da autointitulada “grande imprensa” é relevante no momento em que o governo interino anuncia a intenção de suspender os investimentos nos veículos desvinculados dos oligopólios de comunicação e acena com o fechamento da EBC, única inciativa pública de expressão no setor.  

O argumento de serem mídias “políticas”, enquanto os oligopólios seriam “neutros”, é pueril. A população não acredita nessa versão. É minoritária a parcela daqueles que consideram “apartidários” os meios de comunicação. Em alguns segmentos, é amplamente majoritária a percepção da cobertura enviesada.   

Esse dado importa pouco, porém. O governo interino apenas paga uma das muitas contas que precisa acertar com quem o viabilizou. Mesmo com a imagem arranhada, a mídia tradicional quer ser única. 


*Carta Capital

Postado por Etc & Tal

Crise na EBC - uma questão "conceitual"

24.06.2016 às 11:40
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Em audiência pública, realizada na Câmara Federal, representantes da área e parlamentares protagonizaram um debate sobre  a situação da EBC, revelando profundas divergências sobre o significado e objetivos da comunicação pública no país 

 

A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) foi tema de uma audiência pública realizada na tarde da última terça-feira (21) na Câmara Federal, em Brasília. A instituição é responsável pela gestão de 13 veículos, como emissoras de TV, rádios, portais e agências de notícias. Desde a posse do governo interino de Michel Temer a EBC esteve no centro de notícias polêmicas em função de possíveis interferências políticas gerando especulações até sobre o futuro da instituição.

Os debates se concentraram na questão do conceito de comunicação pública. Não é incomum tal conceito ser  confundido como “projeto de governo”. A comunicação pública está prevista na Constituição e não pode ser entendida, como parece estar sendo no atual governo, como um “braço” do governo anterior que deve ser amputado.

Segundo Bia Barbosa, representante da Frente em defesa da EBC e da Comunicação Pública “quando se faz um enxugamento, no sentido de atacar os mecanismos de autonomia da comunicação pública, estamos tratando não somente do ataque ao setor em si, mas da violação de um direito fundamental, que é o direito humano à comunicação".

A audiência contou com a participação de alguns deputados que protagonizaram as principais diferenças de visão sobre os obejtivos da comunicação pública no país e o papel da EBC nesse contexto.

Para o deputado Chico D’Ângelo (PT-RJ), presidente da Comissão de Cultura da Câmara, “a EBC é uma política de Estado e não de governo. Ela nasceu no bojo do processo democrático brasileiro e todos os países democráticos têm uma comunicação pública de qualidade, que se diferencia do setor privado”.


Contraponto e vaias

Já o deputado Arthur Maia (PPS-BA) afirmou que  “se ela fosse bancada pela iniciativa privada, certamente já teria falido porque não dá lucro e não tem eficiência. A EBC acaba sendo, na verdade, muito chapa-branca”. As afirmações de Maia receberam apoio do deputado Júlio Lopes (PP-RJ) que acrescentou que o governo Temer pretende dar um novo momento ao Brasil, o que inclui rever as precárias condições de operação do sistema EBC”. Ambos foram vaiados durante as suas exposições.

Para Tereza Cruvinel, ex-presidente da instituição, “não se trata de questionar a audiência. A questão é que todo governo autoritário quer calar a divergência, por isso a ofensiva contra a EBC é simbólica”.

O atual presidente , Ricardo Melo, destacou a relevância da EBC atuando como contraponto ao padrão de comunicação vigente no país. "O modelo brasileiro de comunicação foi montado com base no monopólio da produção e da opinião, e é isso que precisa ser questionado. Considerando o trabalho que a EBC apresenta à sociedade, enfraquecê-la seria um retrocesso", disse. 

Segundo dados apresentados por defensores  da EBC  a produção da TV Brasil,  chega a alcançar 32 milhões de pessoas.  Presente em quatro praças (São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Maranhão), a EBC, além dos 13 veículos próprios, possui  mais de 40 emissoras parceiras no País.  


Governo Temer

A EBC virou motivo de polêmica nas últimas semanas após Temer demitir, no dia 17 de maio, o presidente, Ricardo Melo. Ele havia sido empossado pela presidenta Dilma Rousseff poucos dias antes do afastamento dela. No lugar dele, o governo nomeou o jornalista Laerte Rimoli. 

A decisão provocou a reação de diversos segmentos da sociedade civil organizada pelo fato de a lei de criação da empresa garantir a autonomia do mandato, que é de quatro anos e não coincide com a gestão do chefe do Executivo federal. Esse entendimento dialoga, por exemplo, com a jurisprudência da Corte Europeia de Direitos Humanos (CEDH) e da Unesco. Ela indica que os mandatos de dirigentes do sistema público de radiodifusão não podem ficar reféns da arena política governamental. 

A disputa envolvendo a EBC se estendeu à seara judicial e, no dia 1º deste mês, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, expediu uma liminar garantindo o retorno de Melo ao cargo. “O mandato do presidente não pode ser colocado em xeque por interesses circunstanciais de um governo específico. A legislação nos assegura isso e somente o Conselho Curador tem o poder de destituir o gestor. Nós não podemos negociar essas prerrogativas”, ressaltou a presidenta do colegiado, Rita Freitas.

Ela frisou que o Conselho representa a voz da sociedade porque conta com  representantes dos funcionários da EBC, do Governo Federal, do Congresso Nacional e da sociedade civil organizada, escolhidos por meio de consulta pública. 

Tanto Rita quanto Ricardo Melo ressaltaram ainda que o colegiado é apenas um dos mecanismos dos quais a EBC dispõe para estabelecer uma vigilância sobre os conteúdos produzidos pelos veículos públicos e evitar possíveis inclinações político-partidárias. “Nós temos ouvidoria, diversos comitês e outras instâncias de controle como nenhuma outra empresa estatal já teve no Brasil”, assinalou Melo. 


*Com informações de Ascom/EBC e site Brasil de Fato

Postado por Etc & Tal

Relembrando Zózimo Barrozo do Amaral

16.06.2016 às 11:50
Estátua em homenagem a Zózimo erguida em 2001, no final do Leblon

Mesmo "ausente" há quase 20 anos, Zózimo Barrozo do Amaral(teria completado 75 anos em 28 de maio) ainda é lembrado e reverenciado como exemplo de profissionalismo e credibilidade na arte de “colunar”


No dia 18 de novembro de 1997 o jornalismo perdia um de seus mais notáveis expoentes:morria Zózimo Barrozo do Amaral.Griffe do colunismo social desde os anos 60, Zózimo transcendeu a arte de produzir colunas.Foi antes de tudo um inovador.Mudou a maneira de escrever, de diagramar, diversificou seu cardápio de informações , introduzindo esportes, beleza e saúde, entre outros assuntos, até então inéditos naquele formato de coluna.

De família rica(filho do banqueiro Boy Zózimo)herdou uma pequena fortuna ainda jovem.Abandona a faculdade de Direito e passa um tempo em Paris.De volta ao Rio de Janeiro,em 1963,arruma emprego no jornal O Globo, primeiro como correspondente esportivo, depois colaborando na coluna de Carlos Swann, tornando-se o titular da mesma em 1965.

Em fevereiro de 1969 resolve aceitar o convite do Jornal do Brasil(naquela época o maior jornal do Rio de Janeiro)para comandar uma coluna com o próprio nome.Diz a lenda que Roberto Marinho ao saber de sua saída chamou-o e vaticinou: “Meu filho você vai fazer a maior besteira de sua vida.Todo mundo sabe quem é Carlos Swann, mas ninguém sabe quem é Zózimo”. Cheio de certeza e irredutível na decisão que tomara ,Zózimo disparou: “Doutor Roberto o senhor só está reforçando meus argumentos, porque agora está na hora das pessoas saberem quem é Zózimo Barrozo do Amaral”

E logo todos ficariam sabendo.Já na sua estréia o JB estampava, em primeira página, o orgulho de ter em seu cast o jovem, porém já experiente,jornalista(naquela época com 27 anos de idade).Zózimo por sua vez previa novidades.Despia-se do rótulo de colunista social e prometia dinamismo e diversificação em seus textos.

A diversificação as vezes era tanta que gerava situações inesperadas.Ao noticiar um empurrão sofrido pelo então ministro do exército Lyra Tavares numa cerimônia militar,foi convidado a passar uns dias na prisão.Diz a lenda que ao chegar na cela começou a ser encarado sob olhos incrédulos de outros detentos que perguntaram: “Você não é o Zózimo, colunista do JB?” “Sou eu mesmo” respondeu.Depois de um rápido silêncio, uma gargalhada geral e a conclusão dos colegas: “Os militares endoidaram de vez.Estão prendendo até eles mesmos”.

Ninguém jamais ousou definir as “ideologias barrozianas”,mas a favor do regime ele nunca pareceu estar.Um de seus raros engajamentos políticos explícitos , lá pelos idos de 1984, foi manter sob fogo cruzado a candidatura ,armada no tapetão, de Paulo Maluf para presidente.

Seu estilo era inconfundível, mas o furo jornalístico foi uma de suas marcas principais naqueles tempos de JB.Noticiou em primeira mão,por exemplo,uma plástica que a Duquesa de Windsor faria com Ivo Pitanguy antes mesmo do próprio saber.

Criou jargões que marcaram época na memória de seus leitores.Foi autor do termo “esticada”que era uma espécie de segundo tempo das noitadas.Depois de um jantar regado a uísque ou champagne, encerrava-se à noite nos bares com chopp ou cerveja, muitas vezes à espera do nascer do sol.Algumas de suas frases ficaram famosas:”Brega é perguntar o que é chique.Chique é não responder”. “O problema de Brasília é o tráfego de influência, já no Rio de Janeiro o problema é a influência do tráfico”. “Quem não deve não treme”.

Muita gente não lembra que Zózimo também brilhou na telinha. Produziu para sua empresa,Press Vídeo(onde nos conhecemos e trabalhamos juntos) e veiculou pela Rede Bandeirantes, interessantíssimas entrevistas, entre elas, uma feita em Paris sobre a Maison Moet & Chandon, mostrando todo o processo de produção dos melhores vinhos e champagnes franceses.

Em 1993 aceitou levar sua coluna para O Globo, segundo ele mesmo, por  não poder resistir a excepcional proposta oferecida.

Sua seriedade profissional,e descontração social, o transformou numa griffe do jornalismo com credibilidade entre socialites,empresários, políticos e jornalistas.Dizia aos amigos mais íntimos que vivia como podia e, principalmente, como queria.Entre as muitas noitadas e as quase 200.000 colunas que escreveu, em 34 anos de carreira, começou a ter problemas com o fumo e o álcool ,mas seu bom humor de sempre deixava transparecer que tirava tudo “de letra.”

Depois de várias internações, já livre da bebida e do cigarro,entre idas e vindas de Miami, uma forte dor de cabeça prenunciou uma metástase .Sem perder o humor, Zózimo se preocupou apenas em não preocupar os que o amavam.Num de seus últimos momentos de lucidez reservou todo seu talento à Dorita, sua segunda esposa e companheira inseparável naqueles sofridos dias.Registrou com competência e elegância seu último ato de amor: “Não sofra. Está ruim viver. Não me segure aqui. Boa viagem”.

Laconicamente, com todo o poder de síntese que sempre exerceu com maestria em suas colunas, Zózimo, aos 56 anos, partia em 18 de novembro de 1997.

Em 2001, devido a identificação do seu nome com a zona sul da cidade, foi homenageado com a criação de  um espaço no final do calçadão do Leblon, no  início da subida da Avenida Niemeyer. No local uma estátua hiper-realista, reproduzindo Zózimo em tamanho natural, (1,80m), inspirada na imagem que ele tinha por volta dos seus 40 anos de idade.


*RL(Ampliado e republicado)



Postado por Etc & Tal

Momentos de uma rápida e inesquecível convivência com Edécio Lopes

09.06.2016 às 17:36
Sendo entrevistado por Edécio, em 16.09.2007, nas comemorações dos 59 anos da rádio Difusora. Foto:Arquivo pessoal

Quando comecei a trabalhar no IZP, em janeiro de 2007, passei a sintonizar a Educativa FM no rádio do meu carro, enquanto percorria o meu trajeto casa-trabalho. Era o horário de Edécio no ar. Não resisti  por muito tempo a tentação de conhecê-lo pessoalmente, e passei a circular nos corredores da “107,7”. Pouco tempo depois pedi a Afrânio Godói que o levasse até a minha sala para uma conversa.
 
O encontro foi rápido, mas suficiente para me impressionar com a “figura” de Edécio. Simples, simpático e seguro  nas exposições das idéias geradas pela situação daqueles dias.
 
Pouco tempo depois, numa outra sintonizada no “Manhãs Brasileiras” escutei um ouvinte questionar Edécio sobre tipos de instrumentos utilizados nas baterias das escolas de samba. Ao perceber sua empolgação na resposta resolvi presenteá-lo , no dia seguinte, com um CD que eu tinha das escolas do Rio de Janeiro, que era exatamente sobre o assunto. Após o programa daquela manhã, ficamos um bom tempo conversando sobre percussão e samba,  e comecei a perceber que naquele momento poderia nascer uma inesperada amizade.
 
Mesmo quando deixou a Educativa FM, contra à sua vontade, nosso relacionamento se manteve em altíssimo padrão de cordialidade e respeito. Estivemos, por algum tempo em lados opostos, devido a ações administrativas aplicadas nos veículos do IZP,  mas nunca permitimos que essa situação atrapalhasse nossa convivência.
 
Depois de muitas conversas que geralmente começavam com lamúrias e lamentações, mas que acabavam, na maioria das vezes, em boas risadas, Edécio concordou em voltar para o IZP  pelas ondas da  Rádio Difusora. Tal retorno foi um dos momentos mais emocionantes que presenciei nos estúdios da "Pioneira". Muitos convidados lotaram as dependências da emissora para cumprimentar e abraçar Edécio, pela volta do programa Manhãs Brasileiras ao rádio alagoano.  Num inesperado momento daquela transmissão histórica, Edécio  fez questão de me entrevistar e , no ar, expressou seu agradecimento pelo meu empenho para que sua volta se concretizasse. Fiquei alguns minutos "desprevenido" com a atitude e as palavras; demorei a entrar no pique da entrevista, mas consegui, como representante do  diretor presidente do IZP naquela ocasião, lhe dar as boas vindas.
 
Edécio fez questão de me entrevistar também na comemoração dos 59 anos da Rádio Difusora, em setembro de 2007. O programa “Manhãs Brasileiras” foi transmitido diretamente do restaurante “Bodega do Sertão”, regado a  café da manhã para servidores e convidados. O evento contou com a presença do governador, do vice e de boa parte do secretariado estadual, além de radialistas, jornalistas e ex-funcionários da Difusora.
 
Em julho de 2008 chamei Edécio na minha sala para uma conversa e perguntei se ele ainda tinha interesse em voltar para a Educativa FM. Inicialmente deu uma lamuriada sobre  cansaço, o peso da idade, mas não deixou de demonstrar  um ar de felicidade com a possibilidade desse retorno. Prometi que conversaria com o novo diretor presidente do IZP  e ficamos de marcar uma nova reunião para discutirmos o assunto.
 
Infelizmente essa reunião nunca aconteceu. Pouco tempo depois Edécio sofreria um AVC, nos deixando definitivamente na saudade em janeiro de 2009.


*RL(Ampliado e republicado)

Postado por Etc & Tal

Fragmentos de uma noite inesquecível na companhia de Hermeto Pascoal

05.06.2016 às 23:59
Com Hermeto Pascoal e Aline Morena (Arquivo pessoal)

A genialidade de Hermeto se confunde com a sua naturalidade no trato de "ser famoso" . Sua simplicidade é, com certeza, uma das fontes da sua gigantesca criatividade. 


Quando eu soube que Hermeto Pascoal seria um dos agraciados,com a Medalha do Mérito da República Marechal Deodoro da Fonseca, fiquei ansioso para comparecer ao evento.Minha ansiedade era consequência de uma curiosidade particular.Já tinha presenciado algumas de suas maravilhosas performances em espetáculos no Rio de Janeiro, mas como seria o mago do som fora dos palcos?

Como pensaria hoje esse jovem senhor, que saiu em 1958 da desconhecida Lagoa da Canoa para conquistar o Brasil e o mundo?O mundo sim, sem nenhum exagero.Airto Moreira,ao apresentá-lo, nos Estados Unidos, a outro gênio da música no século XX, testemunhou a imediata consonância mental entre Hermeto e ninguém menos que Miles Davis.O encontro de ambos, em 1970, virou disco do maestro e gênio do trompete, com direito a participação e inclusão de duas músicas de Hermeto: “Igrejinha” e “Nenhum talvez”.

No ano seguinte, Airto Moreira grava uma música composta pelo pai de Hermeto: “Gaio de Roseira”.A crítica inglesa rasgou-se de elogios à composição e ao arranjo.Estava consolidada a carreira do Albino Crazy( carinhoso apelido dado à Hermeto por Miles Davis) no exterior.

A história é muito mais extensa, mas não quero me alongar nela.A minha admiração por Hermeto começou justamente ao ouvir o disco Live Evil de Miles Davis e a reverência explícita, nesta obra , a Hermeto, me estimulou a acompanhar os voos e tendências sonoras do mesmo.Isso já era o suficiente para despertar a minha vontade de ver, estar perto, enfim captar alguma energia positiva que certamente emana dessas “almas diferenciadas”.

Chego bem antes da hora e ,para minha surpresa, Hermeto já se encontra no local com sua companheira: a jovem e simpática(e também instrumentista)Aline Morena.Com toda a minha emoção contida cumprimento o casal e passo a acompanhar a entrevista de Hermeto para a Rádio Gazeta.Eufórico e com excelente humor quase não deixa o repórter perguntar nada; fala, graceja e até ensaia com a companheira uns interessantes “embolados sonoros” .Quando o repórter Warner Oliveira insinua uma despedida Hermeto intervém: “Peraí meu filho,eu ainda não falei quase nada”. Em meio aos risos dos que assistiam a cena, a entrevista continua. Ao terminarem peço para tirar uma foto com o casal, e sou prontamente atendido.

Os demais homenageados e as autoridades organizadoras do evento vão chegando à sala vip, mas permaneço “grudado ao casal”. Ele agora conta que num repentino momento daquela tarde ,ao olhar pela janela , começou a cantarolar e acabou escrevendo no “bloquinho do hotel “ uma música que acabara de batizar de suíte alagoana. Sua companheira abre a bolsa e mostra as folhas do bloquinho cuidadosamente enroladas e amarradas,em forma de canudo, com um laço prateado. “Quero fazer uma surpresa para o governador.Vou presenteá-lo com os originais da minha mais nova criação”.

No início da cerimônia sentamos na mesma mesa.Ao ser chamado para receber a sua honraria Hermeto já se diferencia dos anteriores pois encaminha-se para o palco dançando e gesticulando, tirando e colocando seu chapéu várias vezes sobre sua vasta cabeleira branca.Intensificam-se os aplausos.

Ao se dirigir ao púlpito para fazer uso da palavra Hermeto desmonta a apresentadora Gilka Mafra ao recusar um aperto de mão e exigir da mesma “um cheiro”.Exigência atendida e formalidades quebradas, Hermeto pede para que o governador se aproxime pois trouxera alguns presentes.Entrega-lhe, então, um DVD, um CD e, ele mesmo, desenrola os papéis do “bloquinho do hotel” ,entregando folha por folha ao governador, fazendo com que o mesmo repetisse os números: “Folha um, folha dois etc…” Ao governador, meio sem entender do que se tratava, Hermeto finalmente explica que naquelas folhas(num total de sete) estavam os rascunhos da sua mais recente composição: “Suíte Alagoana”. Aplausos!

Em seu longo discurso de encerramento o governador Teotônio Vilela Filho exalta as qualidades e o merecimento de cada um dos agraciados com aquela homenagem.Ao chegar na parte de Hermeto o governador diz não saber exatamente o que a sua genialidade representava, quando é abruptamente interrompido por um sonoro “Nem eu!” do próprio. Risos e muitos aplausos.Mais uma vez Hermeto quebrava a monotonia protocolar da cerimônia.Ao final da fala do governador ,todos os homenageados se reúnem para a foto histórica.

O evento se aproximava do fim, mas muita gente ainda queria tirar uma foto, ter uma rápida conversa com Hermeto e Aline.O casal, sempre atencioso, atendia as solicitações de todos.Procuro o motorista para levá-los de volta ao hotel.Antes de sair, Hermeto faz questão de ir até o palco e cumprimentar os músicos que tocavam naquele já fim de noite.Os mesmos param para reverenciá-lo em sinal de agradecimento.Antes de encerrar , uma última surpresa:voltaríamos no mesmo carro. 

No rápido caminho de volta ,Aline conta que estão com a agenda cheia pelos próximos quatro meses.Hermeto lamenta que não “rolou” cerveja no coquetel pois é a bebida que mais gosta e faz uma revelação inusitada. Quando voltar à Alagoas cobrará do governador os presentes que pediu:um jumento e duas galinhas.

Depois desses agradáveis momentos fico me perguntando como são criados os mitos?O que eles têm de diferente da maioria das pessoas?Praticamente nada.No caso de Hermeto sua genialidade se confunde com a sua simplicidade.Penso que sua naturalidade é o segredo de sua gigantesca criatividade.

Simples assim…


*RL(Atualizado e republicado)

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Decolar é preciso...

23.05.2016 às 16:55
Romero Jucá Foto:Antônio Cruz/Agência Brasil

Ao ser flagrado numa conversa telefônica com o ex-presidente da Transpetro (sério candidato a "delator premiado") Romero Jucá, um dos homens fortes do governo interino, ficou numa posisção nada confortável, praticamente insustentável

 

Ao montar seu ministério Michel Temer abriu mão de convidar notáveis e optou pelo velho caminho da composição política.Essa atitude o desvinculou de seu discurso lançando um ar de desânimo e desesperança na parcela da população que sonhava com novos tempos na política do País. 

Ao ser flagrado numa conversa telefônica com o ex-presidente da Transpetro (sério candidato a "delator premiado") insinuando deter a operação Lava Jato, Romero Jucá, um dos homens fortes do governo interino, ficou numa posição nada confortável, praticamente insustentável. Em entrevista coletiva, na manhã de hoje, o ministro afirmou que não fez nada de errado, desvirtuou o significado de suas falas na gravação, tentando justificar o injustificável (só faltou acusar a Folha de imprensa golpista) e afirmou, com a arrogância e sem vergonhice habitual dos políticos que são pegos com a "boca na botija", que não teme as investigações que o cercam e que não renuncia.

Pode até não renunciar e é bem provável que não o faça, mas Temer tem obrigação de retirá-lo do cargo o mais rápido possível. Se demorar, vai fomentar uma crise que coloca em risco a já debilitada credibilidade de sua equipe, e retarda perigosamente a " decolagem" de seu governo.


*RL 

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Etc & Tal por Ricardo Leal

Carioca, publicitário, poeta e escritor. Radicado em Alagoas desde 2002, trabalhou em diversas campanhas eleitorais no estado. Foi  diretor da Organização Arnon de Melo (OAM) e do Instituto Zumbi dos Palmares (IZP). É diretor executivo da Press Comunicações e titular do blog Etc & Tal veiculado no portal Painel Notícias, desde 2010.

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