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A ética, a fonte e o jornalismo

15.10.2017 às 14:33


Uma boa fonte no jornalismo é hoje privilégio de poucos.

Refiro-me a fontes que desejam, na informação correta, combater irregularidades, desigualdades, impunidades, soberbas e tramas de toda espécie.

 A leitura de alguns muitos escritos jornalísticos me leva a pensar, nesses últimos tempos, que interesses escusos têm sido levados mais a sérios nos espaços de divulgação, em Alagoas e no país de uma forma geral, do que a versão correta dos fatos.

Não há contraponto. É o jornalismo de uma única via.

 E é aí que me preocupa: quem está nessa direção? O faro apurado do profissional? Será? Ou alguma “fonte” que lhe dite “fatos” para favorecer uns, e desfavorecer outros? É especulação em cima de indicadores ou é um cenário forjado para atender a algum objetivo específico? E questiono: cadê o profissionalismo nessa questão?

No jornalismo político, em especial, o que mais tem é fonte pirata, aquela que aparece para inserir na informação séria, a desinformação. Como o profissional pode distinguir a fonte do bem da fonte do mal?

É fácil, vai mais do caráter do que mesmo da maturidade do jornalista.

E lendo nesta manhã o Código de Ética  dos Jornalistas, indago: serve pra que mesmo???!!!

Temo imensamente pelo “day after” do jornalismo brasileiro.

Em tempo, artigo 4º, capítulo II da Conduta Profissional do Jornalista: "O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, deve pautar seu trabalho na precisa apuração dos acontecimentos e na sua correta divulgação". 

Postado por Em Pauta

Suporte técnico no jornalismo, quem nunca precisou?

08.10.2017 às 11:07
Reprodução

 Tipo, o computador deu “pau”. Perdi as anotações. Que palavra é essa que eu escrevi????!!! Como começar o texto... ? Onde coloco essa informação? PQP, eu deveria ter perguntado sobre isso!!!! O cara me disse 200 mil reais ou 200 milhões de reais? Sim, porque em tempo de lava jato só se fala em milhões...

Enfim, quer saber como sair de algumas dessas situações?

Olha aí o que Duda Rangel, o fictício jornalista, nos ensina. Vamos entrar na pauta do riso, com as tacadas engraçadas dos irmãos jornalistas Anderson e Emerson Couto, criadores do personagem.

É bem a nossa rotina, da forma espirituosa que ela existe em quaisquer redações. Vamos lá:

Se você não faz ideia de como começar o seu texto, digite “leia mais porque isso vai ajudar você a escrever melhor”.

Se você não aguenta mais receber ligação de assessor enquanto não faz ideia de como começar o seu texto, digite “mande seu release para o meu e-mail que depois eu leio com calma”.

Se você tem dúvidas de Português, digite “deixe de preguiça e dê uma olhada no dicionário”.

Se você não sabe como encaixar o "quem" e o "como" no seu lead, digite “Kama Sutra, mil e uma posições para o seu lead”.

Se você não entende a sua letra no bloquinho, digite “consulte um farmacêutico”.

Se você precisa escrever uma página, mas não tem tanta informação para tanto espaço vazio, digite “punhetação jornalística sem culpa”.

Se o seu computador deu pau e você não salvou o texto, digite “se ferrou, mané”.

Para reclamar da pauta ou do café aguado da redação, digite “alguém topa ir ao bar tomar uma cerveja e ouvir minhas lamentações?”.

Para cancelar sua matéria, digite “editor, o senhor tem um minutinho, por favor?”.

Ou aguarde para ser atendido. No momento, todos os nossos editores estão ocupados com o fechamento.


Postado por Em Pauta

Boato é informação?

01.10.2017 às 19:52
Reprodução


Essa coisa de boataria, em especial na política, não deveria pautar como fonte a informação da imprensa.

Não produz fatos, não ajuda a democracia, enfraquece o jornalismo e sequer traduz sinais de verdade. No máximo, vira intriga. Nada além disso, que, certamente, é o que se propõe o boato quando se espalha no boca-a-boca e, nos últimos tempos, na mídia, a prevalecer a tese de que “onde há fumaça, há fogo”.

Mas, enfim, houve mesmo “fumaça”?

Convenhamos.

Parece que nos dias de hoje, o que o jornalista menos faz é checar o que lhe chega. Em particular, o boato travestido de notícia. Se o que lhe trazem parece conveniente para a pauta do dia, excelente, e pronto. Tá lá, em blogs, colunas, redes sociais, como se verdade fosse o fato e que, se alguém se incomoda com ele, que o desminta.

Veja, só!

Alguém espalha um boato, a imprensa toma pra si como fato, vira pauta geral sem nenhuma checagem, e é a pessoa que foi envolvida na boataria que tem que desmentir???? É assim que fazemos jornalismo?

Lamentável.

Ainda sou do tempo que mais valia uma nota verdadeira do que uma manchete falsa.

E tem jornalista com ideia fixa, acredita cegamente que tem chifre em cabeça de cavalo e por mais que o cavalo passe à sua frente, logicamente sem os tais chifres, ainda assim ele os vê na sua obsessão pelo o que só existe em sua mente.

Uma afronta total ao jornalismo, um jogo perigoso para a credibilidade da imprensa.

Em tempo: e pensar que é tão mais fácil agora checar a informação, todo mundo se comunica por celular, zap, messenger, assessorias de comunicação...

Enfim...

Insisto: lamentável

Postado por Em Pauta

Jornalista tem cada mania...

24.09.2017 às 10:53


Rebuscando temas sobre jornalistas, deparei-me um dia desses com mais um texto engraçado do personagen Duda Rangel, desta feita acerca das manias de jornalistas. E aí pensei um pouco nas manias que o jornalismo me presenteou nesses 38 de profissão, grande parte deles em redações.

Entre essas manias, a de me encher de café para ter inspiração, anotar tudo num bloquinho, mesmo que a entrevista esteja sendo gravada, olhar mil vezes para as anotações até tirar dali a primeira linha do texto, e achar sempre que a pauta cumprida gera outra pauta.

Ir aos locais e focar nos detalhes, nos mínimos detalhes.

E isso me lembra que ao entrevistar um coveiro, no cemitério Divina Pastora, em Rio Novo, há alguns anos, a minha mania de observar tudo atentamente levou meu entrevistado a me perguntar:

- Você está procurando a cova de alguém?

- Não, claro que não.

 - Então tá procurando fantasma! Não sei que mania é essa que todo mundo em cemitério acha que vai ver quem já morreu...

Pois, então!

Mereci a reclamação, não vi fantasma e nem nada além da pauta que fui cumprir, mas isso me rendeu boas risadas compartilhadas na redação.

Acho que para descontrair no domingo, vai ser bom a gente ler as manias expostas por Duda Rangel e ver nas quais a gente se identifica. Eu me encontrei em pelo menos cinco delas.

1. Mania de reclamar demais.

2. Mania de passar a madrugada na internet, mesmo depois de um dia intenso de trabalho.

3. Mania de ter opinião sobre tudo.

4. Mania de querer salvar o mundo.

5. Mania de liberdade.

6. Mania de dar carteirada.

7. Mania de comer e escrever um texto ao mesmo tempo.

8. Mania de deixar o teclado todo cheio de gordura e resto de comida.

9. Mania de ter um blog.

10. Mania de tomar café.

11. Mania de escrever um texto enorme e depois ficar cortando pra caber.

12. Mania de ir pra rua e ficar olhando pra tudo e todos, feito cachorro que vive preso em apartamento.

13. Mania de falar mal dos outros, principalmente de outros jornalistas.

14. Mania de achar que tudo pode render, pelo menos, uma nota.

15. Mania de encher o saco dos amigos na caça de bons personagens.

16. Mania de encher o texto de aspas.

17. Mania de namorar outros jornalistas.

18. Mania de achar que vai conseguir furos fuçando no Twitter.

19. Mania de ir ao bar e passar 86,7% do tempo falando só de jornalismo.

20. Mania de dizer que não tem manias.

Postado por Em Pauta

No norte do país, tensão, protesto e “Aisó” na pauta

17.09.2017 às 00:01
Índios Cinta Larga, nos dias de hoje - Reprodução/Facebook

Em 1987, uma turma de jornalistas viajou a Cacoal, Rondônia, a convite da Funai. A intenção do governo federal era mostrar que a política indígena no país estava humanizada e que o tratamento ao índio era de total respeito aos seus direitos constitucionais.

Fazia pouco tempo que eu tinha chegado a Brasília e estava trabalhando no jornal Correio do Brasil, que ficava em Taguatinga. A pauta me animou e viajei com a recomendação de olhar além dela e de trazer algo diferenciado do que fora buscar. Topei na hora e antes de viajar fui até a uma banca de revistas, na Rodoviária em frente ao Conjunto Nacional, para comprar jornais de Porto Velho. Queria saber mais sobre Rondônia.

Mais ou menos familiarizada com o estado, lá fui eu vôo a fora em busca de aventura.

Instalados no hotel, bem acomodados e alimentados, era, enfim, hora de irmos até a área indígena dos Cinta Larga. Embarcamos numa aeronave da FAB, cerca de sete a oito jornalistas, entre repórteres e fotógrafos e um cinegrafista da TV afiliada da Globo em Rondônia, e mais uma vez voamos sobre o Norte do país, cheios de expectativa.

Ao começarmos a descer, avistei um grupo de homens e mulheres, talvez uns vinte ao todo, caras e corpos pintados, armados com arco e flecha, a se movimentarem como numa dança frenética. Balançavam muito as cabeças e batiam com os pés no chão de terra batida onde pousamos.

Pra mim e meus colegas, era uma recepção festiva, até aplaudimos.

Desembarcamos rindo, os fotógrafos com as máquinas em punho, já prontas para captar as imagens, eu já querendo saber com quem falar para me explicar qual o significado de tudo aquilo, as cores, os batuques, a dança...

Aí o representante da Funai na região nos pediu para não fotografar, chamou Gabriel Guerreiro, assessor da presidência da fundação que nos acompanhava, a um canto, cochicharam um pouco e nos pediram para retornar à aeronave.

Ora, pois. Imagine apenas nos pedir para recuar, sem explicação.

Ficamos ali e fotografamos sim. Foi então que Guerreiro nos informou que era perigoso para nós, que eles estavam realizando exatamente um protesto contra a Funai e que, na tensão, não seriam capazes de distinguir jornalistas, convidados e representantes do órgão.

Atendemos ao apelo e ficamos de butuca nas poucas janelas do avião disponibilizado para a nossa viagem. Houve momento de maior acirramento, mas de repente percebemos que os ânimos iam se acalmando e eu desci da aeronave silenciosamente. Comecei a caminhar para onde estava o restante dos índios, havia muitas mulheres e crianças.

Uma índia, velha, seios descobertos, vestindo uma saia de um tecido amarelado, não sei se era tintura apenas ou um pano encardido, pernas pintadas com tinta vermelha, feita à base de jenipapo (descobri e acompanhei a feitura dessa tinta lá mesmo, depois que o clima normalizou-se), aproximou-se de mim, desconfiada.

 Queria saber se eu era da Funai, tocou meus cabelos, minha mochila presa às costas, minhas pulseiras de arcos dourados e me disse, baixinho: “Aisó”. Eu, sem entender, no mesmo tom baixo de voz, indaguei: “O que isso significa?” E ela, insistindo, com um sorriso no canto dos lábios: “você é uma aisó”.

Bem, voltei a minha atenção à pauta.

Fomos levados a uma grande cabana coberta com palhas, onde um índio, que todos tratavam por “Abaçai”, contou-nos, enfim, as queixas da tribo. E me garantiu que o ritual de protesto na nossa chegada não tinha nada de perigoso (Graças a Deus!). Segundo ele, aquela era a linguagem encontrada para o governo saber que não havia mais uma relação amistosa entre eles.

Mas acabaram chegando a um acordo e a viagem não foi em vão.

A Funai conseguiu nos apontar um projeto do órgão na agricultura e na saúde em benefícios dos indígenas e acabamos também conhecendo a história, os mistérios e as lendas em torno dos Cinta Larga. De Cacoal, mandamos texto e imagens para Brasília por um aparelho de fax existente na prefeitura do município.

E só bem mais tarde, já no retorno a Brasília, é que fui informada sobre o que significa “Aisó”: moça formosa.

 Mas, além de algumas palavras aprendidas com essa tribo, voltei à redação com uma matéria a mais da pauta, trouxe ao jornal uma entrevista exclusiva com “Abaçai” sobre a luta dos indígenas em resistir aos costumes do “homem branco”.

Postado por Em Pauta

Quando a ousadia supera a pauta

10.09.2017 às 02:54
Romeu Tuma- Arquivo/Agência Brasil

Estava na reportagem do jornal A Crítica, em Manaus, no ano de 1986, cobrindo o caso do Colarinho verde.  Essa era uma investigação da Polícia Federal sobre possíveis fraudes nas cotas de importação liberadas pela Suframa.

Era tempo de muita competitividade na imprensa local por conta desse assunto. Não era para menos, envolvia empresários e políticos e na época havia seis jornais diários na cidade, além de emissoras de rádios e TVs.

Aí eu soube por meio de minhas fontes que o diretor geral da Polícia Federal, delegado Romeu Tuma, tinha desembarcado em Manaus, logo cedo da manhã, e se dirigira ao Comando Militar da Amazônia para uma conversa com o comandante sobre o caso em investigação.

O que danado tinha a ver o Comando Militar da Amazônia com esquema de corrupção na Suframa?

Com o meu parceiro de trabalho, o fotógrafo João Rodrigues, nosso Pinduca, decidi no mínimo bisbilhotar o local. O veículo de A Crítica parou nas imediações do Comando Militar da Amazônia e deixei Pinduca a postos, com uma determinação: ele fotografar qualquer carro que saísse pelo portão principal, mirando a placa. Eu iria tentar entrar.

O motorista e Pinduca tentaram me fazer desistir. Ali era área de segurança militar e eu poderia ser presa, passar algum constrangimento, mas, segura dos meus impulsos, fui em frente.

Já no portão, deparei-me com dois militares fazendo a guarda.

- Bom dia, eu sou da assessoria do delegado Romeu Tuma. Ele já entrou? Eu posso aguardar lá dentro? 


- Um momento,senhora, me disse um dos militares.


Através de um rádio, ele se comunicou com alguém que perguntou o meu nome.


Eu, morrendo de medo e cheia da ousadia:

 “Fui orientada a não revelar o meu nome, essa é uma reunião secreta. Se eu não fosse da assessoria dele, como saberia que ele estava aqui?”

- Um momento senhora, voltou a repetir o militar e voltou a falar com alguém pelo rádio.


Segundos depois, um militar veio até a porta. 


- O Dr. Tuma não trouxe assessoria. Ele já está em reunião com o comandante.

Ante o olhar raivoso do primeiro militar com quem falei, aumentei minha dose de ousadia:


- Claro que ele não trouxe, eu trabalho para a Polícia Federal aqui em Manaus.

 Preciso aguardar por ele, posso esperar lá dentro? Diga a ele que a assessora dele já chegou.


E quem era doido de entrar numa reunião secreta do comandante com o diretor geral da PF? Eu apostei, nisso, evidentemente.


Depois de muitos vai e vem, o sargento Pontes (era esse o nome dele) me levou para a antessala do gabinete do comandante. Tomei café, água, e meu pensamento era um só: “Vou ser presa”!

Uma hora e meia depois Tuma saiu acompanhado do comandante e se assustou ao meu ver.


- Menina (eu era mesmo uma menina, tinha 25 anos de idade!!!!), o que você está fazendo aqui?

Maravilha! Ele tinha um sorriso no rosto de susto.


- Esperando o senhor.


E o Tuma, para o comandante:


- Essa jornalista não tem fonte, tem bola de cristal. Todo dia me liga pelo menos umas quatro vezes para “confirmar” as informações dela. 


Os dois riram, e eu sosseguei, pra lá de aliviada. Estava livre da prisão, enfim!

 Sentamos ali mesmo e Tuma me deu o furo o qual eu fui buscar. Um dos laranjas do caso, Nicolas Gamarra, já tinha sido localizado e dado depoimento, em La Paz, a oficiais do exército que trabalhavam na fronteira do Brasil com a Bolívia. Deixei a sede do CMA no carro que transportava Tuma e Pinduca fez a foto de Capa do delegado federal descendo para abrir a porta para mim.


Evidente que eu não saí na foto publicada na primeira página de A Crítica, no dia seguinte. Jornalista não é notícia, ele escreve a notícia. A foto do talentoso Pinduca foi Tuma na frente da sede do comando Militar da Amazônia.

Ganhamos a pauta!

E eu não perdi nem a fonte, nem a liberdade.

Postado por Em Pauta

A ousadia no jornalismo, versão impressa do Painel Notícias

03.09.2017 às 00:55
Arte e foto: Afrânio Aquino


Quando estou prestes a completar 38 anos no jornalismo, pauta mais calma em assessorias e consultorias na área de comunicação, me chega o desafio de colocar um jornal nas ruas e de editá-lo.

O convite surgiu há vários meses e durante muito tempo eu resisti a ele. Mesmo esse convite partindo de casa, do marido e do filho, sócios proprietários do Painel Notícias.

Foram muitas conversas, infinitas contas na ponta do lápis, dúvidas sobre a reação de mercado, e muita coragem numa equipe pequena, de gente apaixonada pela profissão, querendo dar cara e vida a um sonho persistente.

Não é nenhum projeto pretensioso.

É apenas o Painel Notícias, sete anos na comunicação de Alagoas, lançando sua versão impressa, na forma de um semanário focado em cidadania, política, economia e turismo e negócios.

O projeto gráfico é leve, com destaque para imagens, reportagens especiais e pautas que promovam debate e questionamentos sobre problemas e soluções para Alagoas.

O compromisso assumido é fazer, tão somente, jornalismo.

O nome é Painel Alagoas e estará semanalmente nas bancas , a partir do próximo dia 13.

E, de novo, tomo pra mim a tarefa de me reinventar e continuar aprendendo como jornalista. Ao dizer sim ao projeto, me veio à mente um poema de Mário Quintana:

“- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
- Você é louco?
- Não, sou poeta”.

Tipo: “Não sou louca, sou jornalista”.

Postado por Em Pauta

O sigiloso jornal de PC Farias

27.08.2017 às 00:01
Jornalista Stefani Lins comunica à redação o fim do projeto - Arquivo/Tribuna de Alagoas

Um jornal que nunca foi às bancas.

Essa é uma história recontada. Ela já foi publicada no meu blog, no  Cada Minuto do jornalista Carlos Melo,  em 31 de maio de 2015. Mas penso que sempre vale a pena relembrar um dos fatos mais inusitados do jornalismo alagoano, e cá está o texto.

Tal qual se procedeu naqueles tempos.

Estávamos em janeiro de 1992.

Em Alagoas, dois assuntos eram pauta da imprensa: eleição municipal e o jornal do empresário Paulo César Farias, pivô da briga entre os irmãos Collor, Pedro e Fernando. O primeiro, responsável no estado pelo complexo de Comunicação da família, a Organização Arnon de Mello, o segundo, presidente do Brasil.

Pedro botou na cabeça que a Tribuna de Alagoas, reeditada por PC Farias, era projeto bancado pelo irmão presidente, o que fragilizaria comercialmente as empresas da Organização Arnon de Mello: uma emissora de TV, um jornal impresso, duas rádios na capital e uma rádio no interior, em Arapiraca, Agreste de Alagoas.

O jornal de Paulo César Farias estava em andamento. Prédio arrumado, equipado, a equipe sendo formada, e os projetos gráfico e editorial definidos. A oferta salarial alta impactou o mercado.

Eu fui convidada pelo jornalista Anivaldo Miranda para ser subeditora do Caderno Alagoas (política e economia), que ele iria conduzir. Fui conhecer o empreendimento e fiquei encantada. O editor-geral era o jornalista Stefani Brito.

Para nos acompanhar na editoria, foram contratados os competentes repórteres Rachel Rocha e Hélder Bayma.

Havia muitos jornalistas notáveis, como Gabriel Mousinho, Bernardino Souto Maior, Manoel da Nóbrega, Luiz Pompe, Plínio Lins, Vladimir Calheiros, entre tantos outros, igualmente dos melhores.

Equipe completa, a ordem era fazer o melhor.

Trabalhávamos normalmente, no ritmo comum a qualquer redação, cobrindo os eventos factuais, fazendo reportagens especiais, buscando no fechamento das edições as melhores fotos, as manchetes mais calorosas.

Tínhamos, naquela redação, um espírito de competitividade contagiante. Todas as editorias se esforçavam para assegurar a manchete de Capa, a foto do dia.

Havia um cronograma de horário de fechamento que era rigorosamente cumprido. A gráfica trabalhava a todo vapor para que, nas primeiríssimas horas do dia, o jornal já pudesse estar pronto para ir às ruas.

E aí é que existia o nó.

O jornal não ia às ruas. Não saia daquele prédio, por nada nesse mundo.

Chegava um ou dois exemplares na redação para avaliarmos, compararmos, e até darmos seguimento a um ou outro caso no decorrer do dia. As máquinas rodavam pouco mais que oito ou dez exemplares diariamente. Nada mais que isso.

Muitos vezes, éramos quatro, cinco, jornalistas a manusear minuciosamente um exemplar.

Olhávamos e tratávamos aquela edição como um tesouro, ansiosos de que pudéssemos compartilhar o nosso trabalho, lá fora, com os leitores, com a sociedade. Em muitas edições, demos “furo” nos demais jornais diários (Jornal de Alagoas, Diário de Alagoas, Gazeta de Alagoas).

E vibrávamos, festejávamos o feito, como se ele também estivesse em bancas de venda, na casa de assinantes.

E mesmo sem o jornal ir às bancas, ninguém se negava a nos dar entrevistas, a falar em off, a fazer denúncias.

Vivíamos uma gestação, uma feliz gestação, onde estávamos sempre aguardando a hora de parir.

Foi um momento ímpar no jornalismo alagoano.

A Tribuna de Alagoas não saia do prédio para não colocar mais lenha na fogueira da discórdia entre Pedro e Fernando Collor.

Pedro não admitia a concorrência, diziam os diretores do jornal de PC. À imprensa nacional, Pedro ameaçava balançar o governo do irmão e levar, junto, Paulo César Farias.

Fizemos o jornal de fevereiro até final de maio, de 1992, quando, finalmente, Pedro Collor venceu. A Tribuna de Alagoas estava sendo fechada, sem nunca, de fato, ter sido aberta. A direção negociou as nossas demissões com o sindicato dos jornalistas, à época presidido por Joaldo Cavalcante.

Em cada um de nós, ficou a sensação de ter vivido um sonho no jornalismo alagoano.

O fato é que, o fechamento da Tribuna de Alagoas não resolveu a pendenga entre Pedro Collor e o irmão Fernando. A coisa tomou um rumo que acabou no impeachment do presidente da República, em várias ações penais contra ele e outros membros do governo, além da prisão de Paulo César Farias acusado de corrupção.

Em 1996, PC retomou o projeto do jornal, porém bem mais modesto nos custos. A Tribuna de Alagoas estava prevista para ser lançada em junho, mas isso só aconteceu em agosto. Em junho, Paulo César Farias foi assassinado. Também, dessa vez, ele não viu o seu jornal nascer.

Com o jornalista Gabriel Mousinho na direção de jornalismo, eu fui editora-geral da Tribuna de Alagoas, de 1996 a 1998, sob a gestão empresarial dos irmãos de Paulo César Farias.

Experiência a ser contada em outros escritos, com certeza.

Postado por Em Pauta

Entrevistando um coronel em "off"

20.08.2017 às 00:01
Interior da Catedral Metropolitana de Belém/Reprodução Internet

Em minhas andanças pelo jornalismo, certa feita em Belém do Pará entrevistei “em off” um coronel do exército, a quem denominei em meu texto de “Comandante A”. A pauta era tortura nas prisões do governo militar e o contato foi feito por um jornalista comunista, Augusto Barata, do jornal O Liberal.

Pra começar, o local da nossa conversa, escolhido pelo Coronel, foi extremamente inusitado.

Ainda na ativa, em 1985, ele temia todo tipo de represália e marcou comigo na Catedral Metropolitana da cidade, na Praça Dom Pedro II.

Ele estava de calça jeans, camiseta branca, tênis preto e um boné azul, e eu o encontrei ajoelhado e me parecia em prece. Ajoelhei-me ao lado dele, esperei alguns segundos, e quase cochichando me apresentei. Sentamos naquela igreja imensa, vazia de pessoas, e ele olhou para a minha bolsa, antes de perguntar.

- Você sabe que não pode gravar essa conversa e nem me identificar.

- Sei sim, não se preocupe. Só preciso das informações e me garantiram que elas serão fiéis aos fatos.

- Mesmo assim, abra a sua bolsa para eu ver que não tem nenhum gravador.

Abri a bolsa, ele olhou e me pediu desculpas, mas disse que no “meio deles”, qualquer desconfiança significa prevenção. Eu disse que tudo bem, que eu entendia, mas que eu gostaria de começar por alguns casos, algumas lideranças de esquerda do Pará que morreram ou desapareceram das prisões da ditadura naquele estado.

Passei pra ele uma lista com três nomes e antes de ler cada um deles, o coronel me perguntou:

- Você não é do Pará, de onde você é?

- Isso importa, coronel? Mas sou de Alagoas, houve algum preso político de Alagoas aqui no estado que o senhor tenha conhecido?

- Não, não é que importe, é que não me disseram que a jornalista era de outro estado. E a gente precisa saber com quem está tratando.

-Vamos às informações, coronel?

- Mas a matéria vai sair só aqui, não é? No Pará? Porque aqui eu sei que minha identidade será protegida, tenho amigos lá em O  Liberal, mas em outro lugar...

- Coronel, a minha matéria só vai ser publicada pelo jornal O Liberal, não precisa se preocupar. Então, sobre essas três pessoas, o senhor as viu presas? Uma delas morreu na prisão, o senhor sabe como foi? Quem estava lá quando essa pessoa morreu? O senhor estava na hora?

Ele tirou o boné da cabeça, olhou ao redor, demorou alguns segundos e aí começou a me dar  informações numa fala pausada e tão baixa que, por várias vezes, eu pedi para ele repetir enquanto eu fazia as anotações.

Ficamos ali, meia hora, 40 minutos, e a coleta foi fantástica. Ele tinha muita segurança no que falava, apontava nomes, datas, descrevia cenas e o que ia me contando batia com as informações já conseguidas junto a outras pessoas.  Quando acabamos, ele olhou para o meu bloquinho de notas e me questionou:

- Tudo o que eu disse coube aí?

- Sim Coronel.

- E como vou ser citado no seu texto?

- Vou lhe dar um codinome.

- Deus me livre, não sou subversivo pra ter codinome.

E eu, com toda paciência do mundo:

- Que nome o senhor quer que lhe dê?

- Tenho mesmo que ser citado?

- Vou ter que dizer que tive essas informações de alguma fonte...

Pela primeira vez, durante todo o tempo em que conversamos, ele sorriu:

- Então, me dê um codinome à minha altura, Comandante.

Como o primeiro nome era Alberto, assim foi feito: Comandante A.

A matéria ganhou Capa do domingo com destaque, ocupou a importantíssima página 3 do primeiro caderno, repercutiu nas edições dos próximos dias, virou pauta de outros veículos de comunicação, e recebi da minha fonte um telefonema na segunda-feira:

- Gostei muito da matéria, mas precisava ter revelado que conversamos numa igreja católica?

- Foi só para enriquecer o texto, gosto dos detalhes... Mas por que o senhor não gostou?

- Sou evangélico.

Enfim, mais uma das minhas tantas histórias em quase 38 anos como jornalista, pra mostrar que na minha profissão a paciência também é uma ferramenta importante (risos).

Postado por Em Pauta

Manaus me habita

13.08.2017 às 00:01
Encontro ds águas dos rios Negro e Solimões - Reprodução

Encantou-me, sobremaneira, a imensidão daquele rio de cor negra. Quanto mais o navio aproximava-se de suas águas, mais eu me sentia parte do cenário.

O sol forte fazia brilhar gotas de prata por todo lado, e o verde da mata nas margens tinha em seu todo um tom forte, uma imponência sem igual. Tomei meu filho pequeno nos braços, nossos olhos brilhavam de expectativa.

Era, de fato, mais do que um lugar novo. Sentíamos, ambos, que era um mundo novo, um novo tempo em nossas vidas. Estávamos chegando, pela primeira vez, ao Amazonas, em julho de 1985.

Já avistávamos, de forma tênue, a terra à frente. Era o cais do porto de Manaus.

Pisei em terra firme, olhei ao horizonte, enxerguei uma paz indescritível.

Depois de praticamente seis dias navegando por vários rios amazônicos, podia sentir claramente o chão sob os meus pés. Mas, o mais importante, era o sentimento que me tomava, um sentimento de reconhecimento a um lugar onde nunca estive, nem em sonhos. Era como se eu fosse dali, tivesse nascido ali, e estivesse, simplesmente, de volta.

Havia, sim, um pertencimento desde o início de que, o Amazonas, era, igualmente a Alagoas, a minha Pátria.

Não precisei de muito tempo para tornar meu, dentro de mim, verso de Anibal Beça, poeta e escritor amazonense, sobre Manaus:

"Toda cidade se habita 
como lugar de viver. 
Só Manaus é diferente 
pois em vez de habitá-la 
é ela quem me habita". 

Percorri, em minha estadia em Manaus, várias histórias dessa cidade e do Amazonas fazendo jornalismo. Lá, enfrentei medos pessoais e profissionais e descobri paixão e coragem na minha pauta profissional.

Cresci como pessoa e como jornalista, mas, sobretudo, aprendi a ser no coração e na alma uma amazonense de fé, uma “mana” dos tantos amigos e colegas que me acolheram.

Essa postagem é, sim, um agradecimento ao Amazonas por tudo e por tanto que vivi, aprendi e senti por lá. E costumo me dizer, sempre, que no jornalismo que faço, é em Manaus dos anos 80 que busco as melhores referências de um tempo onde ser jornalista era ter compromisso com a informação, era ter honestidade na notícia, era ter lisura e caráter na opinião.

Em tempo: minhas reverências a grandes jornalistas alagoanos que sempre me incentivaram na ética, na ousadia e no amor ao jornalismo.

Postado por Em Pauta


Em Pauta por Eliane Aquino

Jornalista, com formação em Direito, já passou por redações de várias empresas de Comunicação em Alagoas e em outros estados brasileiros, onde ocupou cargos de repórter à editora geral e funções públicas; especializou-se (no batente) em jornalismo político e tem prestado assessoria e consultoria na área de comunicação.É editora geral do jornal Painel Alagoas.

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