Se alguém tentar compreender a política alagoana utilizando apenas as tradicionais divisões entre situação e oposição, direita e esquerda, governistas e adversários, provavelmente terminará mais confuso do que começou.
Alagoas desenvolveu ao longo dos anos uma peculiar geografia política na qual fronteiras existem, mas nem sempre são intransponíveis. Adversários podem dividir palanques, aliados podem apoiar candidatos concorrentes e uma mesma liderança pode escolher nomes pertencentes a grupos que, teoricamente, deveriam estar em campos opostos.
O mais recente exemplo veio do deputado federal Daniel Barbosa.
Ele anunciou apoio a Renan Filho para o Governo de Alagoas e, ao mesmo tempo, declarou seus dois votos para o Senado: Arthur Lira e Renan Calheiros.
É uma composição extraordinariamente didática.
Renan Filho e Renan Calheiros representam o grupo político que hoje controla o Governo de Alagoas. Arthur Lira, por sua vez, construiu nos últimos anos uma estrutura própria de poder e mantém uma aliança importante com JHC, justamente o principal adversário de Renan Filho na disputa pelo governo.
Pela lógica convencional, seria natural imaginar dois lados claramente definidos.
De um, Renan Filho e Renan Calheiros.
Do outro, JHC e Arthur Lira.
A realidade alagoana, entretanto, decidiu mais uma vez ser um pouco mais complicada.
Daniel Barbosa não é necessariamente uma exceção. Seu posicionamento apenas torna explícita uma característica histórica da política estadual: as alianças locais frequentemente obedecem muito mais às relações pessoais, bases municipais, interesses regionais e compromissos construídos ao longo dos anos do que às fronteiras ideológicas ou partidárias.
E há uma razão objetiva para que isso se torne ainda mais visível nesta eleição.
O eleitor alagoano terá dois votos para senador.
Essa particularidade abre espaço para composições que dificilmente existiriam numa eleição de vaga única. Um candidato não precisa necessariamente convencer seu eleitor a rejeitar todos os demais. Pode buscar o primeiro voto de alguém que reservará o segundo justamente para um adversário pertencente a outro agrupamento político.
Arthur Lira e Renan Calheiros podem disputar posições, influência e protagonismo em Brasília e, ainda assim, aparecer juntos na escolha de determinados grupos e lideranças.
A matemática eleitoral permite.
A política alagoana facilita.
O fenômeno também mostra os limites das etiquetas nacionais quando transportadas para a realidade estadual.
Brasília gosta de organizar a política entre governo e oposição. As eleições presidenciais reforçam ainda mais essa tendência, atualmente marcada pela polarização. Nos municípios e nos estados, entretanto, a realidade costuma ser muito menos disciplinada.
Em Alagoas, essa flexibilidade parece atingir outro patamar.
Prefeitos precisam manter relações com deputados de diferentes partidos. Deputados dependem de bases eleitorais espalhadas pelos municípios. Grupos municipais fazem suas próprias composições. Lideranças estaduais procuram preservar canais com Brasília independentemente de quem esteja no Palácio do Planalto.
Forma-se, assim, uma enorme rede de relações cruzadas.
Isso ajuda a explicar por que determinadas alianças que parecem absolutamente improváveis quando observadas de fora se tornam perfeitamente compreensíveis para quem acompanha o cotidiano da política alagoana.
Há, evidentemente, um aspecto positivo nisso.
A política não precisa ser uma guerra permanente. A capacidade de dialogar com adversários, construir convergências e ultrapassar fronteiras partidárias pode ser saudável para qualquer democracia.
Mas existe também uma pergunta incômoda.
Até que ponto essa flexibilidade representa capacidade de articulação e a partir de que momento começa a representar ausência de identidade política?
Se praticamente qualquer combinação eleitoral é possível, torna-se mais difícil para o eleitor compreender exatamente quais projetos políticos estão em disputa.
E essa é uma questão que merece atenção.
Alianças são legítimas. Composições fazem parte da política. Apoios não precisam obedecer cegamente às determinações partidárias.
Mas eleições também deveriam oferecer ao cidadão alguma clareza sobre os projetos que cada grupo pretende representar.
A campanha de 2026 começa mostrando que, em Alagoas, essa clareza talvez tenha novamente de ser procurada com lupa.
O anúncio de Daniel Barbosa é apenas o exemplo mais recente.
Renan Filho para governador. Arthur Lira e Renan Calheiros para o Senado.
Para quem observa de longe, pode parecer uma contradição.
Para quem conhece a política alagoana, talvez seja simplesmente Alagoas sendo Alagoas.
Etcetera
por Ricardo Leal
Publicitário, radialista, poeta e escritor. Carioca, radicado em Alagoas desde 2002, trabalhou em diversas campanhas eleitorais no estado. Foi diretor da Organização Arnon de Melo (OAM) e do Instituto Zumbi dos Palmares (IZP). Atualmente CEO - Press Comunicações, Diretor/Editor - Revista Painel Alagoas e Editor - Coluna Etcetera (impressa e digital)