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18/08/2026 às 18h40

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Laura Cardoso e Glória Menezes: quando duas atrizes se tornam parte da memória de um país

A morte de Laura Cardoso, aos 98 anos, e de Glória Menezes, aos 91, com poucas horas de diferença, encerra dois dos mais extraordinários percursos da dramaturgia nacional

AssessorIA


Há dias em que a cultura brasileira parece perder mais do que artistas.
Perde referências, testemunhas e personagens de sua própria história.
A morte de Laura Cardoso, aos 98 anos, e de Glória Menezes, aos 91, com poucas horas de diferença, encerra dois dos mais extraordinários percursos da dramaturgia nacional. Laura morreu na noite de segunda-feira, 17 de agosto, e Glória nesta terça-feira, 18.

Não eram apenas duas atrizes veteranas.
E talvez seja justamente essa a dimensão que o tempo permitirá compreender melhor.

Laura e Glória pertenciam a uma geração que ajudou a transformar a televisão brasileira em parte fundamental da identidade cultural do país. Antes da televisão ocupar definitivamente as salas das famílias brasileiras, Laura Cardoso já fazia rádio. Começou ainda adolescente e esteve entre os pioneiros da TV Tupi, participando dos primeiros tempos de uma televisão que ainda descobria sua própria linguagem. Sua trajetória atravessaria mais de oito décadas, mais de 60 novelas, teatro e cinema.

Pouquíssimos artistas brasileiros puderam observar de dentro uma transformação semelhante.

Laura viu a dramaturgia passar do rádio para o teleteatro ao vivo, do preto e branco para a cor, dos estúdios rudimentares para as grandes produções e, finalmente, para a era digital. E permaneceu relevante durante praticamente todas essas fases.

Sua grande virtude talvez estivesse justamente em jamais parecer uma atriz pertencente ao passado.

Em Mulheres de Areia, A Viagem, Chocolate com Pimenta, Caminho das Índias, O Outro Lado do Paraíso e tantos outros trabalhos, Laura conseguia algo raro: transformar personagens secundários em figuras das quais o público se lembrava.

Não precisava necessariamente ocupar o centro da história para ocupar a memória do espectador.

Havia em sua interpretação uma espécie de verdade brasileira — a mulher simples, a matriarca, a personagem dura, a avó, a trabalhadora, a figura popular — sempre construída sem condescendência. Laura Cardoso parecia compreender que não existem personagens pequenos quando existe uma grande atriz.

Glória Menezes construiu outro tipo de trajetória, igualmente monumental.

Sua presença coincide com o nascimento da própria telenovela brasileira moderna. Em 1963, protagonizou ao lado de Tarcísio Meira 2-5499 Ocupado, considerada a primeira telenovela diária da televisão brasileira.

Antes disso, porém, o cinema já havia reservado a ela um lugar histórico.

Glória participou de O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962 — feito que permanece único para um longa-metragem brasileiro.

Depois veio uma sucessão impressionante de personagens.

De Irmãos Coragem a Pai Herói, de Guerra dos Sexos a Brega & Chique, de Rainha da Sucata a A Próxima Vítima, Torre de Babel, Senhora do Destino, A Favorita e Totalmente Demais, Glória atravessou épocas, autores e estilos sem se transformar numa caricatura de si mesma.

E isso talvez seja uma das maiores provas de talento para um artista longevo.

Durante décadas, sua história também esteve associada à de Tarcísio Meira. Foram parceiros na televisão, no teatro e na vida por quase seis décadas. Tornaram-se provavelmente o casal mais emblemático da dramaturgia brasileira, mas seria injusto reduzir Glória a essa parceria.

Ela possuía carreira, personalidade artística e grandeza próprias.

Laura Cardoso e Glória Menezes também representam uma época na qual atores construíam carreiras longas diante do público. Nós os víamos envelhecer. Mudavam os personagens, mudavam as novelas, mudava o Brasil — e aquelas figuras continuavam entrando em nossas casas.

Por isso determinadas mortes provocam uma sensação diferente.

Não estamos nos despedindo apenas de pessoas que admirávamos.

Estamos nos despedindo de pedaços da nossa própria memória.

Em algum momento, Laura foi a personagem que assistíamos ao lado de nossos pais. Glória foi a protagonista que nossos avós acompanhavam. Depois foram vistas pelos filhos e, posteriormente, pelos netos daqueles primeiros espectadores.

Pouquíssimas carreiras conseguem atravessar tantas gerações.

O desaparecimento quase simultâneo das duas atrizes também simboliza o encerramento progressivo de uma geração extraordinária de intérpretes que participou da construção da televisão brasileira quando praticamente tudo ainda estava por ser inventado.

Elas não encontraram uma indústria pronta.

Ajudaram a construí-la.

E talvez esteja aí a principal diferença entre celebridade e legado.

Celebridade pertence ao presente.
Legado pertence ao futuro.

Daqui a muitos anos, quando alguém quiser compreender como a dramaturgia brasileira se tornou uma das manifestações culturais mais populares do país, inevitavelmente encontrará Laura Cardoso e Glória Menezes nesse percurso.

Encontrará duas mulheres que fizeram da interpretação um ofício exercido com disciplina, permanência e respeito pelo público.

A morte encerra suas trajetórias pessoais, mas não consegue retirar aquilo que ambas conquistaram.

Laura Cardoso e Glória Menezes agora pertencem definitivamente à história cultural brasileira.

E artistas assim possuem um privilégio reservado a poucos:

saem de cena, mas permanecem no palco da memória de um país.


Etcetera por Ricardo Leal

Publicitário, radialista, poeta e escritor. Carioca, radicado em Alagoas desde 2002, trabalhou em diversas campanhas eleitorais no estado. Foi diretor da Organização Arnon de Melo (OAM) e do Instituto Zumbi dos Palmares (IZP). Atualmente  CEO - Press Comunicações, Diretor/Editor - Revista Painel Alagoas e  Editor - Coluna Etcetera (impressa e digital)

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