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24/08/2026 às 11h00

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O debate que não houve

O primeiro encontro presidencial de 2026 terminou deixando uma imagem difícil de esquecer: três candidatos discutindo o futuro do país entre três púlpitos vazios

Divulgação Band


O primeiro debate presidencial de 2026 deveria marcar o momento em que a campanha finalmente deixaria os vídeos produzidos, as redes sociais e os discursos protegidos para colocar os candidatos frente a frente.

Não aconteceu.

A Band preparou o palco. Os jornalistas estavam presentes. As regras foram estabelecidas. Os candidatos foram convidados.

Mas metade dos presidenciáveis decidiu não comparecer.

E, entre os ausentes, estavam justamente Lula e Flávio Bolsonaro, os dois candidatos que lideram as principais pesquisas nacionais. Romeu Zema também preferiu ficar fora do encontro.

Restaram Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury.

Os três compareceram, apresentaram propostas, trocaram críticas e discutiram assuntos relevantes como segurança pública, educação, economia, jornada de trabalho e violência contra a mulher. Houve conteúdo — e algumas declarações inclusive exigiram posterior checagem.

Mas havia um problema impossível de esconder.

As cadeiras vazias eram politicamente maiores do que os candidatos presentes.

O debate acabou transformado numa discussão sobre quem não estava ali.

Caiado criticou os ausentes. Renan Santos fez o mesmo. Augusto Cury chegou a ameaçar abandonar o encontro em protesto pela ausência dos principais adversários.

Era previsível.

Como discutir seriamente alternativas para o Brasil quando os dois candidatos que hoje concentram grande parte das intenções de voto decidiram não participar?

Lula e Flávio fizeram uma escolha politicamente compreensível — mas democraticamente discutível.

Quem lidera pesquisas normalmente possui mais a perder do que ganhar num debate.

Uma frase equivocada, uma resposta mal formulada ou uma provocação bem executada pelo adversário pode produzir dias de repercussão negativa.

A ausência, portanto, pode ser resultado de cálculo.

A própria análise publicada pela CNN após o encontro apontou essa lógica: os líderes preferiram absorver o desgaste das cadeiras vazias a correr o risco de cometer erros diante das câmeras.

Mas existe uma diferença fundamental entre aquilo que é conveniente para uma campanha e aquilo que é saudável para uma democracia.

Debate não existe para beneficiar candidato. Existe para informar eleitor.

O eleitor tem o direito de assistir a quem pretende governar o país sendo confrontado.

Tem direito de comparar respostas.

Tem direito de observar como um candidato reage quando não conhece antecipadamente a pergunta.

Tem direito de perceber contradições.

E, principalmente, tem direito de assistir aos principais concorrentes discutindo diretamente suas diferenças.

Quando os favoritos descobrem que podem disputar uma eleição sem se confrontar, alguma coisa se perde.

E o pior cenário seria transformar a ausência em estratégia permanente.

Lula não deveria aceitar debates apenas quando considerar conveniente.

Flávio Bolsonaro também não.

Nenhum candidato deveria.

Quem pretende ocupar a Presidência da República precisa aceitar também o desconforto inerente a uma eleição presidencial.

Ontem, porém, aconteceu algo ainda mais preocupante.

A polarização mostrou que pode prescindir do próprio debate.

Lula e Flávio não precisaram estar no estúdio para permanecer no centro dele.

Foram citados, atacados e lembrados durante praticamente todo o encontro. A CNN observou justamente que os três presentes tiveram dificuldade para deslocar o protagonismo dos dois ausentes.

É uma demonstração extraordinária da força que a polarização adquiriu.

Até ausentes, os favoritos dominaram o debate.

E talvez aí esteja o verdadeiro fiasco da noite.

Não foi da Band, que realizou o encontro e colocou sua estrutura à disposição do confronto democrático.

Também não foi necessariamente dos três candidatos que compareceram.

Foi do modelo de campanha que começa a surgir.

Uma campanha na qual candidatos podem preferir vídeos controlados a perguntas imprevisíveis, redes sociais a contraditório e comunicação com seus próprios seguidores ao confronto com adversários.

Se isso prevalecer, teremos muitos discursos durante os próximos meses.

Muitos vídeos.

Muitas postagens.

Muitas acusações.

Mas poucos debates verdadeiros.

O primeiro encontro presidencial de 2026 terminou deixando uma imagem difícil de esquecer: três candidatos discutindo o futuro do país enquanto três púlpitos vazios lembravam ao eleitor quem havia decidido não discutir.

A Band realizou seu debate.

Os principais candidatos é que decidiram não realizá-lo.

E quem perdeu a oportunidade de confrontá-los foi o eleitor.


Etcetera por Ricardo Leal

Publicitário, radialista, poeta e escritor. Carioca, radicado em Alagoas desde 2002, trabalhou em diversas campanhas eleitorais no estado. Foi diretor da Organização Arnon de Melo (OAM) e do Instituto Zumbi dos Palmares (IZP). Atualmente  CEO - Press Comunicações, Diretor/Editor - Revista Painel Alagoas e  Editor - Coluna Etcetera (impressa e digital)

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