Arrogantes e prepotentes, Cesar Tralli e Renata Vasconcelos adotam uma postura de debater com os candidatos ao invés de sabatiná-los, como é a proposta original da atração dentro do JN
As sabatinas promovidas pelo Jornal Nacional com os candidatos à Presidência da República cumprem uma função importante no processo eleitoral.
É uma oportunidade para que milhões de brasileiros conheçam propostas, confrontem posições e observem como aqueles que pretendem governar o país respondem a perguntas difíceis.
Perguntas difíceis, aliás, são indispensáveis.
O que não deveria ser indispensável é transformar uma entrevista em duelo.
Nas sabatinas realizadas até agora, César Tralli e Renata Vasconcellos têm adotado uma postura que, em determinados momentos, ultrapassa aquilo que se espera de entrevistadores rigorosos e aproxima-se perigosamente do protagonismo.
Interrupções sucessivas, contestações durante as respostas, insistências acompanhadas de um tom por vezes excessivamente incisivo e tentativas de estabelecer réplicas e tréplicas acabam produzindo uma dinâmica mais próxima de um debate.
Mas há uma diferença elementar.
O candidato foi ao estúdio para ser sabatinado pelos jornalistas, não para disputar um debate com eles.
Isso não significa que o entrevistador deva ser passivo.
Muito pelo contrário.
Se o candidato não responde, cabe insistir.
Se apresenta uma afirmação objetivamente incorreta, cabe confrontá-la.
Se tenta fugir do assunto, cabe trazê-lo novamente à pergunta.
Se contradiz uma declaração anterior, cabe apontar a contradição.
O problema começa quando o confronto necessário parece transformar-se numa disputa sobre quem terá a última palavra.
Nesse momento, o entrevistador deixa de funcionar apenas como representante das dúvidas do público e passa a ocupar espaço demais na própria entrevista.
Seu papel é muito mais importante: perguntar aquilo que o eleitor gostaria de perguntar e exigir respostas suficientemente claras para que esse mesmo eleitor possa formar sua própria opinião.
Quem deve julgar a resposta é o público.
Quando um candidato responde mal, deixa isso evidente.
Quando tergiversa, o eleitor percebe.
Quando mente, cabe ao jornalismo checar e demonstrar.
Quando não possui resposta, o silêncio ou a evasiva podem ser mais reveladores do que cinco interrupções do entrevistador.
Existe também uma questão de equilíbrio.
O mesmo rigor precisa ser aplicado a todos.
A mesma disposição para interromper.
O mesmo tempo para responder.
A mesma cobrança diante de evasivas.
A mesma tolerância — ou intolerância — para explicações mais longas.
Porque numa eleição presidencial até a percepção de tratamento desigual pode comprometer aquilo que uma sabatina jornalística possui de mais valioso: credibilidade.
Etcetera
por Ricardo Leal
Publicitário, radialista, poeta e escritor. Carioca, radicado em Alagoas desde 2002, trabalhou em diversas campanhas eleitorais no estado. Foi diretor da Organização Arnon de Melo (OAM) e do Instituto Zumbi dos Palmares (IZP). Atualmente CEO - Press Comunicações, Diretor/Editor - Revista Painel Alagoas e Editor - Coluna Etcetera (impressa e digital)