Há conquistas que valem pelo troféu. Outras valem pelo que representam. A premiação de “Não Estamos Sonhando”, longa do alagoano Ulisses Arthur, no Festival do Rio, pertence certamente ao segundo grupo.
Não porque vencer um festival dessa dimensão seja pouco — muito pelo contrário. Mas porque, para quem produz cinema longe dos grandes centros, chegar já costuma ser uma vitória. Ser reconhecido é atravessar uma fronteira que durante décadas pareceu reservada aos mesmos lugares, às mesmas estruturas e, muitas vezes, às mesmas vozes.
O cinema brasileiro sempre teve uma curiosa relação com o Nordeste. Durante muito tempo, nossas paisagens, nossos sotaques e nossas contradições serviram de matéria-prima para histórias concebidas ou legitimadas longe daqui.
É por isso que existe uma diferença enorme entre Alagoas aparecer no cinema e Alagoas fazer cinema.
“Não Estamos Sonhando” ajuda a reafirmar justamente essa segunda possibilidade.
É uma obra que nasce daqui, encontra seus personagens aqui, mobiliza profissionais daqui e consegue transformar uma experiência essencialmente alagoana em linguagem capaz de atravessar fronteiras. E talvez esteja aí a parte mais importante dessa história.
Quando Ulisses Arthur recebe o reconhecimento por seu longa e Pedro Leão tem sua interpretação premiada, não são apenas duas trajetórias individuais que avançam. Abre-se simbolicamente uma porta para muita gente que trabalha nos bastidores, escreve roteiros, segura câmeras, monta filmes, produz, ilumina, interpreta e insiste em permanecer fazendo audiovisual em Alagoas.Porque talento nunca foi exatamente o nosso problema.O problema quase sempre esteve nas oportunidades.
Cinema custa caro. Exige estrutura, continuidade, formação, financiamento e, principalmente, a compreensão de que cultura não pode sobreviver apenas da obstinação de seus criadores. Por isso, uma premiação como essa deveria provocar algo além dos aplausos protocolares. Deveria fazer Alagoas olhar para seu próprio audiovisual e perguntar quanto talento ainda permanece invisível simplesmente porque nunca encontrou as condições necessárias para chegar à tela.Temos histórias.Temos personagens.Temos identidade.Temos paisagens extraordinárias, mas precisamos superar a ideia de que nossa principal vocação cinematográfica seja oferecer belas locações para produções realizadas por outros.
Podemos ser muito mais que cenário.E talvez seja exatamente isso que a trajetória de “Não Estamos Sonhando” esteja dizendo.
Um filme alagoano atravessa fronteiras, encontra público, circula por festivais e recebe reconhecimento em uma das mais importantes vitrines do cinema brasileiro. Não há nisso qualquer favor regional ou concessão à periferia cultural do país.
Há cinema.E cinema bom não precisa pedir licença geográfica.
O mais interessante é que conquistas assim possuem um efeito que nenhum troféu consegue medir. Em algum lugar de Maceió, talvez exista hoje um jovem escrevendo seu primeiro roteiro. Outro experimentando uma câmera. Uma atriz esperando sua primeira oportunidade. Um diretor imaginando um filme que ainda não sabe como financiar.
Quando um dos nossos chega, todos eles passam a enxergar a distância de outra maneira.O impossível fica um pouco menos impossível.
O audiovisual alagoano não nasceu agora e tampouco começou com essa premiação. Há uma história construída por muita gente antes dela. O que vitórias como essa fazem é iluminar uma estrada que já existia — e mostrar que ela pode levar muito mais longe.
Cabe agora não transformar o momento apenas em fotografia, discurso e parabéns nas redes sociais.Reconhecimento cultural só produz legado quando encontra continuidade.Alagoas precisa acreditar em seus realizadores antes que eles sejam premiados fora daqui.
Porque talvez essa seja a maior mensagem deixada por “Não Estamos Sonhando”:quando oferecemos condições para que nossos talentos contem suas próprias histórias, Alagoas deixa de ser apenas o lugar onde o filme acontece e passa a ser o lugar de onde o cinema acontece.
E isso, mais do que qualquer estatueta, merece ser comemorado.
Etcetera
por Ricardo Leal
Publicitário, radialista, poeta e escritor. Carioca, radicado em Alagoas desde 2002, trabalhou em diversas campanhas eleitorais no estado. Foi diretor da Organização Arnon de Melo (OAM) e do Instituto Zumbi dos Palmares (IZP). Atualmente CEO - Press Comunicações, Diretor/Editor - Revista Painel Alagoas e Editor - Coluna Etcetera (impressa e digital)