A mudança que estamos vivendo no sistema tributário brasileiro não é apenas uma alteração de normas, mas uma reescrita completa das regras de sobrevivência para qualquer negócio: Estamos deixando para trás um modelo baseado em cinco impostos principais para abraçar o conceito do IVA Dual, que se divide entre a CBS e o IBS.
A CBS, ou Contribuição sobre Bens e Serviços, chega para unificar os tributos federais PIS e COFINS, enquanto o IBS, o Imposto sobre Bens e Serviços, assume o lugar das taxas estaduais e municipais, ICMS e ISS. Essa nova tributação passa a ser explícita, padronizada, e com potencial de crédito tributário, o que pode ser ótimo para quem souber utilizar.
Nesse novo modelo, o imposto passa a ser não cumulativo, ou seja, o que você paga de imposto em uma etapa pode virar crédito para ser compensado na etapa seguinte. Na teoria, isso parece simples. Na prática, exige controle, organização e visão financeira que muitas empresas ainda não têm.
Funciona assim: a sua empresa gera débitos de imposto quando vende/emite nota fiscal e créditos de imposto quando compra insumos, contrata serviços ou paga determinados custos vinculados à atividade. No fim do período, o imposto a pagar não é o valor cheio da venda, mas a diferença entre débitos e créditos. Se essa conta não for bem controlada, o empresário perde crédito, paga mais imposto do que deveria e nem percebe.
Resumindo: você pagará o imposto sobre o que vende, mas poderá abater integralmente o imposto que foi pago pelas compras realizadas em seus fornecedores.
Essa simplificação parece positiva no papel, mas para o empresário, ela exige uma mudança de mentalidade que começa muito antes da primeira guia ser paga. O impacto para as micro e pequenas empresas é, talvez, o ponto que mais exige reflexão e cautela nesta nova fase: a forma como essas empresas se relacionam com o mercado vai mudar drasticamente.
Além disso, essa dinâmica exige que o fluxo de caixa seja monitorado em tempo real, pois juntamente com isso o governo irá implementar o chamado “split payment”. Nessa modalidade, o imposto é retido no exato momento da transação financeira, impedindo que o dinheiro do tributo passe pela mão da empresa.
Para o setor financeiro, isso representa uma revolução, pois o controle de liquidez precisará ser muito mais rigoroso e tecnológico. A precificação, por sua vez, precisará ser reconstruída do zero, pois as margens de lucro não serão calculadas da mesma maneira.
Hoje, os impostos costumam estar "embutidos" no preço. Com o novo modelo, o preço do produto ou serviço deverá ser visto de forma líquida, com o imposto sendo adicionado de forma clara e transparente. Se você não recalcular seus custos considerando a nova regra, corre o risco de ficar com um preço fora da realidade do mercado.
Além disso, o seu departamento financeiro precisa de sistemas de gestão que falem a linguagem dessa nova era e que consigam lidar com dois sistemas tributários ao mesmo tempo durante a transição.
Uma coisa é certa: se isso for tratado como “mais um imposto a pagar”, o resultado será um encaixe de custos no preço e que vai esmagar sua margem sem você perceber.
A transição para esse novo mundo não será imediata, o que nos dá um tempo precioso, mas que não pode ser desperdiçado com inércia.
· Agora em 2026, teremos o primeiro contato real com as novas alíquotas, funcionando como um período de teste com valores simbólicos de 0,9% para a CBS e 0,1% para o IBS;
· É a partir de 2027 que a CBS assume seu papel definitivo, extinguindo de vez o PIS e a Cofins que conhecemos hoje;
· O IBS terá uma caminhada mais longa, com uma substituição gradual do ICMS e do ISS entre os anos de 2029 e 2032;
· Somente em 2033 o sistema antigo será totalmente desligado, mas quem esperar até lá para se adaptar chegará ao final da corrida sem fôlego.
Mais do que nunca, a contabilidade e o financeiro deixarão de ser apenas entregas de obrigações e execução de pagamentos para se tornar áreas estratégicas vitais. A simplicidade prometida pela reforma virá, mas o preço dessa clareza é uma adaptação profunda e um olhar atento aos detalhes operacionais.
Quem entender este movimento como oportunidade pode ganhar vantagem competitiva real. Projetar fluxo de caixa com esses tributos em mente permitirá:
· tomar decisões estratégicas antecipadas;
· ajustar preços de forma inteligente;
· reduzir custos de insumos com maior eficiência tributária;
· proteger margem mesmo em mercados competitivos;
· transformar o imposto em crédito tributário legítimo em vez de custo escondido.
Já estamos em 2026 e a nova tributação já está em vigor, na “fase de testes”. Quem trata preço como chute, imposto como detalhe e gestão financeira como algo secundário sofrerá em seus resultados.
Por outro lado, quem entender a lógica de créditos e débitos tributários, projetar o impacto no caixa e ajustar a precificação com estratégia conseguirá proteger margem e até ganhar competitividade.
Então fica a pergunta: seu FINANCEIRO já está alinhado com a CONTABILIDADE para essa nova realidade? Sugiro que seu negócio se atualize o mais rápido possível, pra não ficar pra trás – e ter prejuízos “reais”.
Negócios & Economia
por Antonio Siqueira
Antonio Siqueira é alagoano, natural de Água Branca. Graduado em Administração de Empresas (UNIT) com especialização em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria, possui formação técnica em Gestão da Qualidade e em Gestão de Ativos e Investimentos para Empreendedores.
Atuando com gestão financeira há mais de10 anos, seu objetivo como Consultor é elevar os resultados financeiros a um patamar de excelência para empresas que buscam não apenas sobreviver, mas prosperar em ambientes desafiadores.