04 de setembro de 2026
min. 23º máx. 32º Maceió
chuva rápida
Agora no Painel Caixa passa a oferecer modalidade de Pix parcelado
02/09/2026 às 18h20

Blogs

Protagonismo Feminino: Como as Mulheres Estão Redefinindo o Empreendedorismo No Nordeste

Divulgação


Basta caminhar pelas ruas de Maceió para perceber: uma loja de beleza no Pontal da Barra, um ateliê de costura no Benedito Bentes, uma papelaria criativa na Ponta Verde, um pequeno comércio de alimentos na Cidade Universitária. Atrás de muitas dessas portas, há uma mulher que decidiu empreender, muitas vezes sem plano de negócios, sem capital inicial, sem rede de apoio. Apenas com a certeza de que precisava fazer acontecer. E o que parece um movimento isolado é, na verdade, uma das maiores transformações econômicas em curso no Nordeste: a ascensão silenciosa das mulheres à frente dos negócios.

E isso vai muito além da abertura de CNPJs. É uma transformação cultural profunda, que redefine o papel da mulher na economia regional, desafia estruturas tradicionais e cria novas formas de empreender, muitas vezes em setores onde a presença feminina era rara ou subestimada.

Não é por acaso que o Nordeste se tornou um dos palcos mais vivos desse movimento. A região carrega uma história de resistência, de adaptação, de fazer muito com pouco. E é exatamente nesse terreno fértil que o empreendedorismo feminino encontra sua força.

Os dados nacionais ajudam a enxergar o tamanho do que está acontecendo. Segundo o Panorama do Empreendedorismo Feminino no Brasil, produzido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em parceria com o Ministério da Indústria e Comércio, o Nordeste concentra cerca de 23% de todas as mulheres empreendedoras do país. É a segunda região com maior presença feminina à frente de negócios, atrás apenas do Sudeste. Quando olhamos para o Brasil inteiro, o cenário impressiona ainda mais: o Sebrae registrou, no fim de 2024, mais de 10,35 milhões de mulheres donas de negócio — o maior número da série histórica. E o ritmo não parou por aí. Só em 2025, foram mais de 2 milhões de novos pequenos negócios liderados por mulheres, um recorde que superou em 320 mil o resultado do ano anterior.

Mas é quando a gente aproxima o olhar para Alagoas que o fenômeno ganha contornos ainda mais reveladores. Segundo dados da Junta Comercial do Estado de Alagoas (Juceal), divulgados em março de 2026, o estado possui 105.699 empresas lideradas por mulheres — um crescimento de 9,21% em relação ao ano anterior. Dessas, quase 60 mil são microempreendedoras individuais, mais de 35 mil são microempresas e outras 6 mil são empresas de pequeno porte. Ao todo, são mais de 100 mil mulheres gerindo esses negócios, seja como empresárias, sócias, administradoras ou representantes legais. Um ano antes, em março de 2025, a Juceal já havia registrado 96.787 empresas femininas — um salto de quase 16% em relação a 2024. Ou seja, o crescimento não é um evento isolado. É uma tendência consolidada.

E é em Maceió que essa história se concentra com mais intensidade. A capital alagoana lidera com folga o ranking de cidades com mais negócios comandados por mulheres: são 49.394 empresas femininas apenas na capital — mais da metade de todo o estado. Arapiraca aparece em segundo lugar, com 8.253, e Rio Largo em terceiro, com 2.867. Os números mostram que Maceió não é apenas o coração econômico de Alagoas — é também o epicentro do empreendedorismo feminino no estado.

O que esses números revelam não é apenas crescimento quantitativo, mas também uma mudança qualitativa na forma de empreender. Mulheres alagoanas estão abrindo negócios em setores que vão muito além do estereótipo. Sim, beleza, alimentação e serviços ainda concentram boa parte da atividade. Mas há uma presença crescente em áreas como design, papelaria criativa, moda autoral, tecnologia, consultoria e até exportação. São negócios que nascem da observação atenta do mercado, da capacidade de transformar limitações em diferencial competitivo e de uma habilidade quase natural de criar redes de apoio onde antes havia apenas competição.

Essa nova geração de empreendedoras também carrega consigo uma característica marcante: a maioria é chefe de família. O empreendedorismo, para essas mulheres, não é apenas uma forma de realização pessoal, é a principal fonte de sustento da casa. É elas quem pagam as contas, criam os filhos, cuidam dos pais idosos e, ainda assim, encontram tempo para estudar, se capacitar e buscar crédito. Essa dupla — ou tripla — jornada não é romantizada nos dados, mas está implícita em cada número.

E é justamente aí que entra um dos pontos mais interessantes dessa transformação: a formalização como estratégia de crescimento. O número de mulheres formalizadas como MEI mais que dobrou em dez anos, chegando a 5,6 milhões em 2024 — o que representa 46,1% do total de MEIs no país. Isso não é apenas burocracia. É a escolha de sair da invisibilidade, de ter acesso a políticas públicas, de tratar o negócio como negócio, não como bico. Iniciativas como o “Sebrae Delas” e a “Caravana Sebrae Delas” — que desembarcou em Maceió durante o Alagoas Summit, reunindo mais de 12 mil inscritos — têm sido fundamentais nesse processo de capacitação, conexão e acesso ao mercado.

Talvez a lição mais profunda desse movimento não esteja nos números, mas no que eles representam. Cada mulher que abre um negócio em Maceió, no Pontal da Barra, no Benedito Bentes, na Cidade Universitária ou em qualquer canto de Alagoas está fazendo mais do que gerar renda para a própria família. Está quebrando um ciclo, desafiando uma expectativa e abrindo caminho para que outras venham atrás. Está mostrando que empreender não é privilégio de quem tem capital, conexão ou formação em escola de negócios — é uma habilidade que se constrói na prática, na tentativa e erro, na resiliência diária de quem recusa a imobilidade.

Essa é a revolução que ninguém anuncia nos jornais, mas que acontece todos os dias, cedo, enquanto a maioria ainda dorme. É a revolução da necessidade que vira oportunidade, do improviso que vira método, do medo que vira coragem. Uma revolução silenciosa, feita de pequenas vitórias diárias, que aos poucos está mudando a cara do empreendedorismo alagoano — e, por consequência, do Nordeste e do Brasil. E o melhor de tudo é que ela está apenas começando.

FONTES:

AGÊNCIA SEBRAE ALAGOAS. Donas de negócios: o crescimento do empreendedorismo informal entre mulheres em Alagoas. 16 jul. 2025. Disponível em: https://al.agenciasebrae.com.br/cultura-empreendedora/donas-de-negocios-o-crescimento-do-empreendedorismo-informal-entre-mulheres-em-alagoas/.

AGÊNCIA SEBRAE ALAGOAS. Empreendedorismo feminino cresce em Alagoas, mas desafios persistem. 17 mar. 2025. Disponível em: https://al.agenciasebrae.com.br/cultura-empreendedora/empreendedorismo-feminino-cresce-em-alagoas-mas-desafios-persistem/.

AGÊNCIA SEBRAE DE NOTÍCIAS. Abertura de pequenos negócios por mulheres bate recorde em 2025. 26 mar. 2026. Disponível em: https://agenciasebrae.com.br/dados/abertura-de-pequenos-negocios-por-mulheres-bate-recorde-em-2025/.

ALAGOAS possui 105.699 empresas lideradas por mulheres. Cotidiano Alagoas, 7 mar. 2026. Disponível em: https://cotidianoalagoas.com/alagoas-possui-105-699-empresas-lideradas-por-mulheres-diz-juceal/.

CENTO E DOZE MIL mulheres são donas do próprio negócio em Alagoas, mas desafios persistem. Jornal do Brás, 24 mar. 2025. Disponível em: https://jornaldobras.com.br/noticia/60783/112-mil-mulheres-sao-donas-do-proprio-negocio-em-alagoas-mas-desafios-persistem.

EM ALAGOAS, Caravana Sebrae Delas destaca a importância da formalização dos negócios de mulheres. Exame, 10 jun. 2025. Disponível em: https://exame.com/negocios/em-alagoas-caravana-sebrae-delas-destaca-a-importancia-da-formalizacao-dos-negocios-de-mulheres/.

MICROEMPREENDEDORES que estão mudando a realidade econômica dos bairros de Maceió. Tribuna Hoje, 10 jun. 2026. Disponível em: https://tribunahoje.com/noticias/economia/2026/06/10/186842-microempreendedores-que-estao-mudando-a-realidade-economica-dos-bairros-de-maceio.

NÚMERO de empresas comandadas por mulheres cresce quase 16% em Alagoas. Alagoas Notícia Boa, 9 mar. 2025. Disponível em: https://alnb.com.br/alagoas/numero-de-empresas-comandadas-por-mulheres-cresce-quase-16-em-alagoas/.

PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO; MINISTÉRIO DA INDÚSTRIA E COMÉRCIO. Panorama do Empreendedorismo Feminino no Brasil. 2024. Disponível em: https://movimentoeconomico.com.br/geral/redacao/2024/11/19/empreendedorismo-feminino-ne/.

SEBRAE NACIONAL. Enciclopédia do Empreendedorismo Feminino: um panorama atual. dez. 2024. Disponível em: https://sebraepr.com.br/impulsiona/enciclopedia-do-empreendedorismo-feminino-um-panorama-atual/.

SEBRAE NACIONAL. Relatório técnico: Empreendedorismo Feminino no Brasil. DataSebrae, 4. trim. 2024. Disponível em: https://datasebrae.com.br/empreendedorismo-feminino-2025/.


Negócios & Economia por Antonio Siqueira

Antonio Siqueira é alagoano, natural de Água Branca. Graduado em Administração de Empresas (UNIT) com especialização em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria, possui formação técnica em Gestão da Qualidade e em Gestão de Ativos e Investimentos para Empreendedores.

Atuando com gestão financeira há mais de10 anos, seu objetivo como Consultor é elevar os resultados financeiros a um patamar de excelência para empresas que buscam não apenas sobreviver, mas prosperar em ambientes desafiadores.

Todos os direitos reservados
- 2009-2026 Press Comunicações S/S
[email protected]