Por Direção
A campanha eleitoral começou oficialmente neste domingo e, com ela, entrou em campo um personagem que promete ocupar espaço inédito na disputa pelo voto: a inteligência artificial.
Não se trata apenas de uma nova ferramenta de comunicação. A facilidade com que hoje é possível produzir imagens, reproduzir vozes, modificar vídeos e criar situações inteiramente fictícias coloca a eleição brasileira diante de um desafio que provavelmente não encontra precedente na história recente do processo eleitoral.
A Justiça Eleitoral estabeleceu regras. Conteúdos sintéticos ou manipulados precisam observar exigências de transparência, e o uso de deepfakes destinado a favorecer ou prejudicar candidaturas encontra restrições expressas na regulamentação eleitoral. O problema é que estabelecer uma norma é apenas a primeira parte da tarefa.
A segunda — e certamente mais difícil — será fazê-la funcionar.
A inteligência artificial tornou-se acessível, rápida e extraordinariamente convincente. Aquilo que poucos anos atrás exigia conhecimento técnico, equipamentos sofisticados e muitas horas de trabalho pode hoje ser produzido em poucos minutos.
E distribuído para milhões de pessoas em segundos.
É justamente nessa diferença de velocidade que reside o maior problema.
Uma falsificação eleitoral não precisa permanecer disponível durante dias para atingir seu objetivo. Dependendo do conteúdo, algumas horas — ou mesmo minutos — podem ser suficientes para provocar repercussão, alimentar redes sociais, chegar aos aplicativos de mensagens e influenciar a percepção de milhares de eleitores.
Quando a Justiça determinar sua retirada, o estrago eventualmente já poderá estar feito.
O desafio, portanto, não será simplesmente identificar aquilo que foi produzido por inteligência artificial. Será distinguir rapidamente criação legítima, sátira, edição convencional e fraude deliberadamente concebida para enganar o eleitor.
Essa diferença é fundamental.
Transformar a inteligência artificial numa espécie de inimiga das eleições seria um erro. Campanhas sempre incorporaram novas tecnologias. O rádio modificou a política. A televisão modificou a política. A internet e as redes sociais fizeram o mesmo. A inteligência artificial será apenas o próximo capítulo dessa transformação.
Ela poderá ser utilizada legitimamente na produção de peças gráficas, tratamento de imagens, organização de informações, tradução, acessibilidade, edição audiovisual e inúmeras outras atividades relacionadas à comunicação eleitoral.
O limite deve estar na fraude.
Criar uma imagem ilustrativa e identificá-la como tal é uma coisa. Fabricar um vídeo aparentemente verdadeiro mostrando um candidato dizendo aquilo que jamais disse é outra completamente diferente.
É nessa fronteira que a Justiça Eleitoral terá de atuar.
Há ainda uma responsabilidade que não pode ser atribuída exclusivamente ao TSE. Partidos, candidatos, plataformas digitais, veículos de comunicação e os próprios eleitores precisarão desenvolver uma postura muito mais criteriosa diante daquilo que recebem e compartilham.
A tecnologia tornou possível fabricar uma mentira extremamente convincente.
Mas são pessoas que decidem colocá-la em circulação.
Também será necessário cuidado para que o combate à desinformação não produza efeito inverso. Regras excessivamente abertas ou interpretações demasiadamente abrangentes podem criar conflitos com a liberdade de expressão e transformar instrumentos destinados a combater fraudes em mecanismos de intervenção sobre o debate político legítimo.
Esse equilíbrio será tão importante quanto o combate aos deepfakes.
A eleição presidencial de 2026 será, nesse sentido, um gigantesco teste institucional.
Pela primeira vez, o Brasil realizará uma campanha presidencial num ambiente em que qualquer cidadão com acesso às ferramentas adequadas poderá produzir imagens e vozes artificiais com grau de realismo suficiente para confundir uma parcela considerável do público.
Não existe regulamentação capaz de fazer essa tecnologia desaparecer.
Existe, sim, a possibilidade de criar mecanismos capazes de tornar seu uso fraudulento mais difícil, sua identificação mais rápida e seus responsáveis efetivamente sujeitos às consequências previstas pela legislação.
A inteligência artificial não ameaça a democracia simplesmente porque existe.
O risco aparece quando a mentira tecnologicamente fabricada passa a competir em condições de igualdade com os fatos.
A campanha começou.
E talvez uma das maiores disputas destas eleições aconteça justamente num território que não aparece nas urnas: a preservação da diferença entre aquilo que realmente aconteceu e aquilo que uma máquina é capaz de nos convencer de que aconteceu.
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