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Alina Amaral: quando o Sertão de Alagoas encontra Milão

“Avesso do Céu” transforma bordados, memórias e paisagens sertanejas em uma coleção que mostra como a identidade regional pode falar a linguagem da moda contemporânea

Fotos Divulgação/Instagram


Milão está acostumada a receber o mundo. Desta vez, recebeu um pedaço de Alagoas.

No último dia 22 de setembro, a estilista alagoana Alina Amaral apresentou a coleção “Avesso do Céu” no Brazilian Sustainable Fashion in Milan, no histórico Chiostri di San Barnaba.

Era a segunda vez que Alina participava da iniciativa em Milão. Mas havia algo especialmente simbólico nesta nova passagem pela capital italiana da moda.

Alina não levou apenas roupas. Levou território. Natural de Santana do Ipanema, a estilista buscou justamente no Sertão alagoano a matéria emocional de sua coleção.

O céu, as estrelas, a expectativa da chuva, as árvores, os caminhos e as lembranças de uma paisagem marcada simultaneamente pela dureza e pela beleza aparecem reinterpretados nos tecidos.

Depois do desfile, novas imagens divulgadas pela própria estilista permitiram observar melhor alguns desses detalhes.

No Vestido Livia, por exemplo, estrelas irregulares bordadas sobre o linho formam uma espécie de constelação imaginária. Cristais e linhas ajudam a desenhar esse céu particular criado por Alina.

Mas “Avesso do Céu” guarda algo ainda mais importante. Por trás das peças existem 22 bordadeiras. São mãos alagoanas trabalhando técnicas que carregam história, memória e conhecimento transmitido através de gerações.

O Filé e a Renda Singeleza aparecem inseridos nessa construção não como elementos decorativos destinados simplesmente a conferir uma aparência regional à coleção. Eles fazem parte de sua linguagem. E isso muda tudo.

Durante muito tempo, a moda brasileira pareceu acreditar que conquistar espaço internacional significava suavizar sua própria identidade para se aproximar dos códigos estabelecidos pelas grandes capitais europeias.

Trabalhos como o de Alina apontam para outra direção. Talvez o caminho esteja justamente em fazer o contrário.

Quanto mais global se torna a moda, maior pode ser o valor daquilo que possui origem reconhecível.

Artesanato, território, memória, sustentabilidade e trabalho manual deixaram de ocupar uma posição periférica no debate internacional da moda. Tornaram-se elementos cada vez mais presentes na própria discussão sobre o futuro do luxo.

É nesse cenário que a presença de “Avesso do Céu” em Milão ganha significado. A coleção não procura transformar Alagoas em cenário exótico para uma passarela europeia. Procura mostrar que uma linguagem contemporânea pode nascer justamente dali.

Depois do desfile, a participação brasileira prosseguiu com showroom destinado a compradores e profissionais internacionais, acrescentando à exposição cultural uma dimensão também comercial.

Porque chegar a Milão é importante., mas conseguir transformar essa visibilidade em mercado talvez seja o passo seguinte — e mais difícil — para marcas autorais brasileiras. Alina Amaral já conseguiu algo fundamental: atravessou o Atlântico sem deixar sua origem para trás. Pelo contrário. Levou consigo o Sertão, suas bordadeiras, suas rendas, suas memórias e até seu céu. E mostrou em Milão que, algumas vezes, para uma marca brasileira conquistar o mundo não é preciso parecer mais internacional. É preciso ser ainda mais brasileira.




Painel Fashion por Redação

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