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19/11/2018 às 12h46

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É hora de começar a limpar nossa própria sujeira


Milena Andrade*

Quem aí já parou para ver de perto a empregada doméstica de casa ou diarista trabalhando? Geralmente, quem precisa — ou acha que precisa — pagar por essa mão de obra, ou trabalha fora ou vai cuidar de coisas “mais importantes” en­quanto o serviço é feito.

Pois bem. Na semana passada, tive a chance de presenciar a diarista finalizando a limpeza da casa ao chegar um pouco mais cedo do trabalho. Eram cinco horas da tarde. Ela tinha começado a fazer a faxina de manhã cedo e continuava. Pedi para ela ir tomar um banho e ir pra casa, afinal de contas, já estava tudo ok e ela devia estar exausta. Como resposta ouvi “não gosto de fazer nada mal feito, a casa tava muito empoeirada”. Insisti, mas não adiantou.


Fui tomada por um mal estar gigantesco. É justo que essa mulher negra, de quase 50 anos, mãe solteira, que tomou conta de meu filho desde bebê, por quem eu tenho tanto afeto, seja obrigada a se sustentar fazendo o trabalho que ninguém quer fazer? Não, não é justo.
Por que nesses doze anos que a conheço eu não a encorajei ou a ajudei a aprender um outro ofício?
Por que só agora percebo que um salário mínimo ou R$ 100 por faxina nunca pagarão o que ela dá a cada dia de trabalho, que exige dela muito mais do que apenas limpar e arrumar?


Qualquer pessoa que já se lançou nos serviços domésticos sabe do que estou falando. Limpar a própria sujeira é incômodo, chato, cansativo. Arrumar a própria bagunça idem. Se preocupar com o que vai ter na mesa amanhã também. Passar as roupas, lavar os pratos, tirar o limo que se acumula nos cantos do banheiro, quem quer “perder” tempo com tudo isso?


Não é por não termos tempo que contratamos empregas domésticas, é por não querer enfiar a mão nessa sujeira toda listada aí acima. É por acharmos que isso não é trabalho nosso. Não é à toa que, sem pensar muito, costumamos dizer ‘hoje estou no tronco’ ao cantarolar o ‘lerê, lerê’ da Escrava Isaura toda vez que ‘temos que’ encarar uma faxina básica. “Vida de negro” é difícil mesmo.


Essa crença tem raízes longínquas. Lá na formação do nosso país. Ela se construiu em cima da exploração de pessoas, no machismo e na misoginia. Cito aqui texto do blog Servir ao Povo de Todo o Coração sobre escravidão doméstica:
“Mesmo com o fim da escravidão decretado por lei de forma tardia em 13 de maio de 1888, a relação entre a dona da casa e a escrava se disfarçou na relação entre dona de casa e empregada, os que eram escravos agora estão — em teoria — libertos, e deverão ser incorporados como mão de obra no mundo do trabalho assalariado; para as mulheres negras isso se deu majoritariamente na continuidade do trabalho doméstico anteriormente desempenhado, mantendo quase as mesmas relações de trabalho entre senhores e escravas, desta vez a partir de novos arranjos sociais, o trabalho doméstico assume características muito próximas da estrutura escravista anterior”.
Nem precisa desenhar pra entender com o que a gente ainda segue compactuando.


É claro, para mim, que isso precisa ter fim. Não é ético, não tem coerência nos valermos dessa exploração e subordinação a outra pessoa para nos livrarmos daquilo que não queremos fazer, por preguiça, alienação ou nojo. Está na hora de sermos responsáveis por nossa própria sujeira, pelo fim dessa e de qualquer tipo de mão de obra que tenha que se sujeitar a situações de degradação e humilhação. Para aquele que pensa que sua empregada doméstica é tratada como uma pessoa da família digo que pare de se enganar. Você não deixaria para sua mãe a limpeza da latrina ou daquela panela cheia de fungo que esqueceu na geladeira.Exploração não é empatia. A ruptura necessária está nas nossas mãos. Vamos lá?


*É superintendente de jornalismo da Secretaria de Comunicação do Estado de Alagoas

*Publicado originalmente na edição 22 da revista Painel Alagoas


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