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25/04/2022 às 09h40

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Entre cães e gatos

*Tânia Fusco

João, gato, é o decano – 14 anos de vida, 14 anos de dedicada e independente parceria. Com ele discuto assuntos relativos à família, angústias, alegrias, revoltas com a situação política (e outras mais) do país, que ele acompanha atentamente desde 2008. É particularmente inconformado com o golpe contra a Dilma. Não perdoa os coxas, não gosta de minions. É o comunista da família. Mas não divide o bifinho diário, nem o colo da dona. Ninguém é perfeito! 

Aliás, em tempos de mudanças de nominações para adequação ao politicamente correto, não se diz mais “dona”, mas “cuidadora”. Aceito, mas sob protestos. Quem cuida de mim é o João, não o contrário. Cuida tão bem que, se fico doente, cola em mim. Só sai de perto, depois da alta médica. 

Mano, com seus quatro anos de vida, é gato soberbo e também de esquerda. Rajado de amarelo e marrom, olhos esverdeados, sabe que é lindo e tira proveito disso exibindo-se nas janelas, nos sofás, no telhado. 

Com ele o assunto tem sido as desditas deste momento do mundo. Eu reclamo, eu protesto, eu xingo e ele, impoluto, mexe as orelhas quando concorda, pisca os olhos quando discorda. Acha absurdo, numa família de esquerda, tantos bens de consumo acumulados. Sempre que pode, manifesta a discórdia bagunçando gavetas e armários. 

Não faz amizade com os cachorros, também não trata como inimigo – mantém distancia regular, mas com simpatia. Assim garante a possiblidade de consenso ou acordo tático em favor de uma causa maior – tipo um bom pedaço de frango roubado, uma costelinha ainda carnuda esquecida num prato e/ou assemelhados. 

Mano, grande companheiro de bate-panelas fora-bozo, odeia jornais e novelas de TV. Só ocupa espaço na sala quando rola um filme, uma série. Entendo que acha os jornais parciais demais da conta e as novelas arrastadas. 

Quindim, gato malhado de cinza, com peito e patinhas brancas, foi batizado pela antiga “cuidadora”, arquiteta, como Galdi. Não emplacou. Desconhecendo a distinção do nome, a criança da casa trocou o Galdi pelo doce tradicional, que nada tem de cinza ou branco. Entre dois parceiros amarelos, o cinza é que é o Quindim. Coisas da vida.

Gato paulistano, seis anos de vida – quatro deles em apartamento -, Quindim foi deportado para o DF por contingências da pandemia. Fez a troca sem traumas, aturou a rejeição dos colegas gatos já estabelecidos na casa, fez respeitosa amizade com os novos compas cachorros e, sem cerimônia, desfruta do mundo novo – mais livre, com grama, árvores e muros, janelas sem tela e rua livre. 

Claro que, com tanta andança, perdeu peso. Longas paradas em frente aos espelhos, não deixam dúvidas que gosta do shape up to date – mais fitness, tipo “chassi de grilo” muito desejado nas academias. 

Quindim é o isentão da família. Veio de Sampa, pátria do PSDB, e trouxe no sangue o prazer de estar sempre no muro. Se a bateção de panela tá forte, ele encontra posição estratégica para apreciar e até miar alto. Como se aprovasse. Mas se vê algum vizinho desfraldando, orgulhoso, uma bandeira do Brasil em frente da casa, também vai lá. Se não for escorraçado, senta e desfruta da cena, como se concordasse com o enfeite, que expressa – sem dúvidas – a condição de minion. 

Falsinho. Não tá nem ai pra uns ou outros, desde que não lhe falte ração, sachê de bifinho e um leitinho morno no pires. 

Joaquim Pedro, mais conhecido como Joaquim, é um jovem e digno representante da raça Leão-da-Rodésia (Rhodesian Ridgeback). Cães de grande porte, pelo curto, avermelhado, e crista a lá moicano nas costas. Belos e dóceis. 

Com seu ano e dez meses de vida, e seus 70 cm de altura, Joaquim deveria ser o chefe da tribo quarentemada. Longe disso. 

Gentil, manso e medroso, Joaquim virou obediente súdito do decano gato João, a quem trata com respeito, paciência e lambidas. 

Joaquim adora uma prosa. É debatedor ideal para assuntos de difíceis. Presta uma atenção danada, mas não contradiz o interlocutor. Se digo que ele é lulista, segue empertigado em concordância tácita. Se disser o contrário, também não manifesta discordância. 

Quando brigo aos gritos com o noticiário da TV, Joaquim põe-se em pé e alerta, como que reforçando minha justa indignação. Sinto que pensa: melhor não contrariar! 

Carente profissional, como são todos os cachorros, quando bebê, Joaquim exigia atenção permanente. Coisa que nem o cativeiro da quarentena permite a nenhum cui-da-dor. Solução? Joaquim ganhou um cachorro pra chamar de seu – Cássio, vira-lata preto e branco, pequeno e atrevido, chegou bebê. (Na família de Corintianos, o nome, claro, é homenagem ao goleiro gigante do Timão). 

Formou parceria perfeita com Joaquim. Inseparáveis e, não tenho dúvidas, são intrinsicamente anarquistas – contrários a todo tipo de hierarquia e dominação. Rejeitam o Estado, o capitalismo, as instituições religiosas, o racismo e o patriarcado. Ai incluídos adestradores. 

Demonstram essa ideologia com eloquência e precisão. Devoram, rasgam, comem, destroçam todos os signos de poder, posse e dinheiro – plantas e gramados bem cuidados, objetos raros, livros, roupas, sapatos e óculos caros, cartões de crédito… 

Nas noites de lua cheia, baixa na dupla canina espirito de lobisomem, um quê de milícia. Com a ajuda do gato João, caçador nato, sem alarde, saem perseguindo, encurralando e matando saurês, coelhos, corujinhas desavisadas. Sempre os menores e mais fracos. Aos costumes. 

Fazer o que? Chorar. Sentir muito. Rezar para que os assassinatos não se repitam. 

Enquanto as portas seguem fechadas para a vida normal, sigo aliviando tensões e medos na companhia solidária da trupe, que soma cães e gatos – rivais históricos convertidos em parceiros. 

E ouso dizer. Poucos de nossos amores são capazes de, na alegria e na tristeza, expressar – sem submissão e só com olhar – tão sinceras juras de amor e de fidelidade eternos. Espantam solidão e lágrimas. São ótimos ouvintes. 

Com lugar comum. Sorry. Fazem a vida mais divertida, mais leve.

*É jornalista

*Publicado na edição 57 da revista Painel Alagoas


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