Erika Freire*
Escrever sobre a maternidade solo no Brasil é dar voz a uma multidão que muitas vezes grita em silêncio. No país, milhões de lares são chefiados exclusivamente por mulheres que transformam a escassez em milagre cotidiano.
Ser mãe solo no Brasil não é um "estado civil". É uma estrutura de sobrevivência imposta, um malabarismo diário sobre um abismo que a sociedade insiste em ignorar. É carregar o mundo nas costas enquanto o Estado fecha as portas e a sociedade olha para o lado. Milhões de brasileiras conhecem a matemática cruel de subtrair o próprio prato para somar na mamadeira do filho, uma conta que nunca fecha, onde o resto é sempre o cansaço, a privação e o silêncio.
A invisibilidade dessas famílias não é um acidente; é um projeto de omissão. Vivemos em um país onde a ausência de políticas públicas eficazes empurra a mulher para a vulnerabilidade extrema. Faltam creches com horários que respeitem a jornada de quem precisa trabalhar e falta o amparo legal que não apenas cobre a pensão, mas que puna o abandono afetivo e material, que hoje é a regra, não a exceção.
Essa omissão estatal reflete diretamente no bolso. O impacto financeiro não é apenas sobre "ter pouco dinheiro", mas sobre uma penalização sistemática. Dados de 2026, do IBGE, confirmam que mães solo ganham, em média, 40% menos do que pais casados. Em regiões como o Nordeste, a renda per capita dessas famílias muitas vezes não chega a meio salário mínimo, transformando o direito básico à alimentação em um luxo alcançado com sacrifício.
O mercado de trabalho opera como um tribunal silencioso. Existe um viés discriminatório que enxerga a mãe solo como um "risco", empurrando 22% dessas mulheres para a informalidade ou para o serviço doméstico, segundo o IBGE. Sem FGTS, sem férias e sem segurança previdenciária, elas vivem o presente no limite e o futuro sem garantia. Quando o poder público e as empresas falham, eles dizem a essa mulher que a sobrevivência de uma criança é um problema individual dela, e não uma prioridade da nação.
A sociedade, por sua vez, romantiza essa exaustão. Chamam-na de "guerreira" para não terem que chamá-la de "sobrecarregada". Chamam de "dom" o que na verdade é falta de opção. A criação de uma criança deveria ser um pacto coletivo, mas o que vemos é a cumplicidade do silêncio que protege o pai ausente e julga a mãe que luta.
Dentro deste universo de solidão, há um isolamento ainda mais severo: o das mães atípicas. Para quem cuida de filhos com deficiência ou neurodivergências, a jornada solo é uma maratona sem linha de chegada e com custos multiplicados. Medicamentos, terapias e adaptações consomem fatias desproporcionais de orçamentos já escassos.
Para a mãe atípica, a renúncia é total. Muitas são impedidas de ter um emprego fixo pela falha do Estado em prover educação inclusiva e suporte terapêutico. Elas se tornam enfermeiras, advogadas e escudos em tempo integral, vivendo no limite do esgotamento físico e financeiro. Se a mãe solo é invisibilizada, a mãe atípica é, por vezes, apagada da engrenagem social.
Nesse cenário de abandonos, a rede de apoio que permite a essas mulheres sustentar seus lares e transformar escassez em dignidade não vem de políticas estruturadas, mas de outras mãos femininas. Quem cuida dos filhos das mães solo são, majoritariamente, as avós, muitas vezes também solo e exaustas, ou as vizinhas, em um pacto silencioso de solidariedade periférica. É essa corrente invisível de mulheres que permite à mãe solo sair para trabalhar, enquanto outra mulher assume a missão de educar e proteger. No Brasil, o cuidado é um fardo partilhado apenas entre quem sente a mesma dor, evidenciando que a rede de apoio não é um sistema de suporte, mas um remendo heróico para cobrir a ausência de um Estado omisso e de uma sociedade que se recusa a co-responsabilizar-se.
A realidade é que criar um filho no Brasil pode custar mais do que se pode pagar, e a mãe solo arca com isso enquanto abre mão de sua própria evolução profissional e saúde mental. Sem capacidade de poupança, qualquer imprevisto, uma doença ou um conserto torna-se uma catástrofe financeira.
É a jovem que teve que virar gigante aos 16 anos; é a mulher que escolhe entre o leite do filho ou o próprio almoço; é a mãe que carrega o laudo do filho debaixo do braço implorando por dignidade. O Brasil é sustentado por essas mãos que criam sozinhas. Ser mãe solo é o maior ato de resistência deste país, mas já passou da hora de deixarmos de ser resistência para sermos, finalmente, assistidas, respeitadas e ouvidas. Não somos "heroínas" de uma tragédia; somos cidadãs exigindo o direito de não sermos as únicas a segurar o céu.
*Mãe de uma menina, Presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB/AL, advogada, palestrante, defensora dos direitos das mulheres e da família, estrategista política, coproprietária do podcast “ Gabinete Secreto”, sócia do MBA Eleições 360°, Membro das associações AMADA, ABMCJ, AMJA, apoiadora do projeto Medida Preventiva.
Texto publicado na edição 102 da revista Painel Alagoas
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