Durante muito tempo, Célia Rocha e Luciano Barbosa estiveram do mesmo lado da política de Arapiraca.
Mais do que aliados circunstanciais, construíram uma relação que atravessou eleições, governos e diferentes momentos da história política do município.
Célia não esconde, inclusive, o papel que atribui a si própria na trajetória de Luciano.
Foi justamente por isso que sua reação à decisão do prefeito de apoiar Renan Filho chamou tanta atenção.
Célia declarou estar “com muita raiva” do antigo aliado e afirmou que Luciano havia prometido que jamais ficaria contra ela caso disputasse uma eleição como candidata a vice-governadora.
Mas talvez o rompimento seja menos surpreendente do que parece.
Célia e Luciano entraram numa rota de colisão praticamente inevitável.
O ponto de partida foi a decisão de Célia de aceitar o convite para ser vice de JHC.
Ao fazê-lo, ela deixou de ser apenas uma importante liderança de Arapiraca.
Passou a integrar formalmente um dos lados da principal disputa eleitoral de Alagoas.
Luciano seguiu caminho diferente.
Depois de conversar com os dois principais candidatos ao Governo, decidiu apoiar Renan Filho — movimento coerente com sua permanência no MDB e com os interesses políticos que resolveu priorizar nesta eleição.
A partir daquele momento, a velha aliança ficou praticamente impossível de sustentar.
Porque uma coisa é permitir que aliados tenham candidatos diferentes.
Outra é ter Célia como vice de JHC e Luciano como um dos principais cabos eleitorais de Renan Filho no segundo maior colégio eleitoral do Estado.
Não havia espaço confortável entre essas duas posições.
E Renan tratou de tornar a separação ainda mais explícita ao escolher Yale Fernandes, ligado ao grupo político de Luciano e primo de Célia, para sua vice.
Arapiraca passou então a ocupar uma situação extraordinária.
Nas duas principais chapas para o Governo há representantes diretamente ligados à política local: Célia com JHC; Yale com Renan.
A divisão deixou de ser apenas política.
Tornou-se também pessoal, histórica e territorial.
E seus efeitos já atravessaram os limites de Arapiraca.
Em Maceió, Antonio Lenine, que havia chegado ao secretariado municipal por indicação de Luciano Barbosa, foi exonerado depois que o prefeito de Arapiraca declarou apoio a Renan Filho.
Pontes começam, portanto, a ser desmontadas.
A grande questão agora não é mais se Célia e Luciano estarão juntos.
É descobrir o que acontece quando estiverem efetivamente um contra o outro.
Luciano possui a máquina municipal, lideranças políticas e a força natural de quem governa Arapiraca.
Célia possui algo diferente: uma história eleitoral própria construída durante décadas e três passagens pela Prefeitura.
Até recentemente, essas forças eram complementares.
Agora serão testadas separadamente.
E talvez esse seja o aspecto mais fascinante dessa ruptura.
Durante anos foi difícil saber onde terminava a influência política de Célia e começava a de Luciano — ou quanto um dependia eleitoralmente do outro.
2026 poderá responder essa pergunta.
Se Célia entregar a JHC votação expressiva em Arapiraca, demonstrará que preservou capital eleitoral próprio e independente da atual administração municipal.
Se Luciano conseguir produzir ampla vantagem para Renan Filho, mostrará que o comando político da cidade efetivamente mudou de mãos.
Pode ocorrer também algo ainda mais interessante: nenhum deles controlar completamente o eleitorado.
Porque alianças podem ser transferidas.
Votos, nem sempre.
Há ainda uma peculiaridade tipicamente alagoana nesse rompimento: mesmo magoada com Luciano, Célia continua declarando apoio às candidaturas proporcionais de Daniel e Lucas Barbosa, filhos do prefeito.
É a demonstração perfeita de como nossas alianças políticas raramente se rompem por inteiro.
Algumas pontes caem.
Outras permanecem de pé.
Mas a principal delas caiu.
Célia Rocha está com JHC.
Luciano Barbosa está com Renan Filho.
E os dois escolheram transformar Arapiraca num dos principais campos de batalha da eleição estadual.
Não sabemos ainda quem sairá politicamente fortalecido dessa disputa.
Sabemos apenas que, depois das escolhas feitas, a colisão deixou de ser possibilidade.
Virou parte da eleição.
Palanque
por Redação
Análise do panorama polítco no estado de Alagoas e no País