A pergunta pode parecer provocativa, mas tornou-se inevitável nesta campanha eleitoral de Alagoas: Renan Calheiros ajuda ou atrapalha Renan Filho?
Não existe uma resposta simples.
Poucos políticos alagoanos construíram, nas últimas décadas, uma estrutura de poder comparável à de Renan Calheiros. São mandatos sucessivos, presença nacional, influência partidária, articulação municipal e uma rede política espalhada pelo estado.
Seria ingenuidade imaginar que essa estrutura não beneficia a candidatura de Renan Filho ao governo.
Renan pai conhece como poucos os caminhos de Brasília e da política alagoana. Tem aliados, prefeitos, lideranças e capacidade de articulação que qualquer candidato gostaria de possuir ao seu lado.
Mas toda força política muito duradoura carrega também o seu contrário.
O poder produz influência, mas também produz desgaste.
E é justamente aí que começa o problema.
JHC parece ter percebido que talvez seja mais difícil enfrentar diretamente a imagem administrativa de Renan Filho do que transformar a eleição numa discussão sobre a permanência da família Calheiros no centro do poder alagoano.
Seu primeiro programa eleitoral deixou essa estratégia bastante clara ao atacar Renan Calheiros e procurar associar a candidatura do filho à continuidade de um grupo político.
Não é uma escolha casual.
Renan Filho já governou Alagoas por dois mandatos, passou pelo Senado e pelo Ministério dos Transportes. Construiu, portanto, uma trajetória própria que lhe permite apresentar-se ao eleitor para além do sobrenome.
O adversário tentará fazer exatamente o contrário.
Quanto mais Renan Filho procurar apresentar sua própria biografia, mais JHC deverá insistir em colocar o pai dentro da fotografia.
E existe uma razão adicional.
Renan Calheiros também está na urna.
Enquanto o filho tenta voltar ao governo, o pai disputa novamente uma cadeira no Senado.
Isso permite aos adversários construir uma narrativa poderosa, ainda que simplificadora: a de que Alagoas estaria sendo chamada a entregar simultaneamente o governo ao filho e mais oito anos de Senado ao pai.
A entrada de Marina JHC na disputa senatorial tornou esse cenário ainda mais delicado.
Levantamentos recentes mostram uma disputa competitiva pelas duas vagas e colocam Marina em condições de ameaçar aquilo que, meses atrás, parecia encaminhar-se para um confronto dominado por Arthur Lira e Renan Calheiros.
Surge então um paradoxo interessante.
Renan Calheiros precisa de Renan Filho forte para ajudá-lo na eleição ao Senado.
Mas Renan Filho talvez precise evitar que a eleição para governador se transforme num plebiscito sobre Renan Calheiros.
Um precisa do outro.
Mas talvez precisem também de alguma distância.
Esse é o equilíbrio difícil que a campanha terá de administrar.
Porque Renan Calheiros não é apenas o pai do candidato.
É um personagem político capaz de despertar sentimentos intensos — favoráveis e contrários.
Tem eleitorado fiel, capacidade de mobilização e enorme experiência.
Mas possui igualmente rejeição acumulada depois de décadas de exposição e enfrentamentos políticos.
Para JHC, portanto, o objetivo parece evidente: fazer com que parte dessa rejeição atravesse a fronteira entre pai e filho.
Para Renan Filho, o desafio será impedir essa transferência.
E talvez seja justamente por isso que a pergunta do título acompanhará toda a campanha.
Renan Calheiros ajuda ou atrapalha?
Provavelmente faz as duas coisas.
Ajuda na estrutura, na articulação, nos municípios e na experiência.
Pode atrapalhar quando oferece ao adversário a oportunidade de transformar uma eleição entre dois candidatos competitivos numa discussão sobre renovação e permanência no poder.
No final, entretanto, somente as urnas poderão medir qual desses efeitos será maior.
E talvez descubramos que uma das batalhas decisivas de 2026 em Alagoas não será apenas JHC contra Renan Filho.
Será também a disputa de Renan Filho para convencer o eleitor de que, mesmo carregando um dos sobrenomes mais poderosos da política alagoana, sua candidatura pertence a ele — e não ao pai.
Palanque
por Redação
Análise do panorama polítco no estado de Alagoas e no País