Para refletir
Quando o eleitor aceita a corrupção como normal na política, deixa de apenas escolher seus representantes e passa também a legitimar o sistema que condena.
Jogo desleal
O lançamento da campanha de Renan Filho, em Arapiraca, mostrou força e mobilização. Um numeroso público compareceu para recepcionar o candidato, em um evento no qual o prefeito Luciano Barbosa também demonstrou sua capacidade de articulação política. Renan foi recebido por uma plateia atenta e participativa, fez duros recados aos adversários, relembrou o que realizou pelo interior de Alagoas durante seus dois governos e apresentou compromissos para uma eventual nova gestão.
Como sempre acontece nas campanhas mais disputadas, começou também a guerra das imagens. Adversários recorreram a montagens e recursos de inteligência artificial para tentar apresentar um cenário diferente do que realmente ocorreu, inclusive produzindo imagens que sugeriam espaços vazios onde havia público. É um jogo perigoso.
Sem debates
Talvez Alagoas seja um dos poucos estados do país onde a campanha para o Governo possa terminar sem um debate direto entre os principais candidatos. Renan Filho tem provocado publicamente o adversário JHC e reiterado o convite para o confronto de ideias, propostas e realizações. Até agora, porém, o ex-prefeito de Maceió não demonstra disposição para aceitar
JHC, embora tenha construído uma administração de forte visibilidade em Maceió e se mostrado eficiente na comunicação política, enfrentaria um adversário mais experiente em embates dessa natureza e com conhecimento mais amplo da máquina estadual e dos problemas do interior.
Defensores de ocasião
De repente, com a eleição chegando, todo candidato resolveu aparecer nas redes sociais como defensor da causa animal. Alguns, cinicamente, posam abraçados com cães e gatos, em cenas cuidadosamente preparadas para conquistar a simpatia do eleitor, imagens que, certamente, não faziam parte de suas rotinas antes da campanha.
Por isso, antes de acreditar na fotografia, procure conhecer a história. Veja o que esse candidato fez nos últimos quatro anos em defesa dos animais. Apresentou projetos? Cobrou políticas públicas? Destinou recursos? Combateu maus-tratos e abandono? Defendeu castração, atendimento veterinário e proteção aos animais de rua?
Pouca renovação
Na disputa para deputado estadual, tudo indica que a renovação será mínima. Os mesmos grupos continuam controlando estruturas políticas, máquinas eleitorais e bases municipais e, consequentemente, largam com enorme vantagem na disputa pelos votos. O plenário deverá mudar muito pouco. Infelizmente, o eleitor também tem responsabilidade nisso: reclama da política, pede mudança, mas muitas vezes reconduz os mesmos personagens. E, se o roteiro não mudar, teremos novamente uma Assembleia em que, no lugar dos grandes debates sobre os problemas de Alagoas, ganharão espaço os conhecidos festivais de títulos de cidadania, medalhas, homenagens e comendas
O homem do coração
O deputado José Wanderley deixa a Assembleia Legislativa, mas sua cadeira já tem um herdeiro político natural: o filho Hugo Wanderley, ex-prefeito, líder municipalista e nome de prestígio próprio em várias regiões do interior de Alagoas.
José Wanderley, o velho camarada de tantas jornadas, agora parte para um desafio maior: é candidato ao Senado Federal. E leva para a campanha algo que não se fabrica em laboratório eleitoral nem se conquista apenas com alianças: uma história de vida.
Médico por vocação, fez da cardiologia muito mais do que profissão. Ao longo de décadas, salvou milhares de corações e construiu relações de gratidão por onde passou. Na política, manteve a simplicidade, o diálogo e uma maneira muito própria de fazer amigos
A hora de deixar
Quando perdeu a eleição, Ronaldo Lessa deveria ter compreendido como um aviso do tempo político. Há momentos de chegar, de permanecer e também de sair. O problema foi não perceber que seu ciclo começava a se encerrar. Em vez de preservar a própria história, passou a buscar espaços no poder de ocasião, fazendo movimentos contraditórios, rompendo antigas relações e contrariando muitas vezes a própria lógica que havia orientado sua trajetória.
Na política, sobreviver não significa necessariamente permanecer relevante. Existe uma diferença enorme entre ocupar um espaço e representar efetivamente alguma coisa para o eleitor.
Quem não percebe o momento de deixar o palco, corre o risco de assistir à própria importância diminuir diante da plateia.
Epa!
“Por aqui eleição de deputado não se conquista, se compra”. (Frase que ouvi de um deputado e candidato a reeleição)
Pedro Oliveira
por Pedro Oliveira
Jornalista e escritor. Articulista político dos jornais " Extra" e " Tribuna do Sertão". Pós graduado em Ciências Políticas pela UnB. É presidente do Instituto Cidadão, membro da União Brasileira de Escritores e da Academia Palmeirense de Letras.