Talvez a pior resposta que um político possa oferecer diante de uma pergunta incômoda seja aquela que pode ser desmentida por uma fotografia.
Foi exatamente nessa armadilha que o presidente Lula se colocou durante a sabatina do Jornal Nacional.
Questionado sobre Roberta Luchsinger, empresária e lobista investigada pela Polícia Federal e apontada como amiga de seu filho Fábio Luís, o Lulinha, Lula foi categórico.
Disse que não a conhecia, que nunca havia conversado com ela e foi ainda mais longe: afirmou que nunca a tinha visto na vida.
Não demorou muito para que a internet respondesse.
Vieram as fotografias.
Não uma.
Várias.
Há registros de Lula ao lado de Roberta em diferentes ocasiões, publicados pela própria empresária. Alguns deles remontam à campanha presidencial de 2022; outros são posteriores. Levantamentos publicados nesta sexta-feira localizaram mais de dez imagens dos dois.
A partir daí surge a pergunta inevitável:
Lula mentiu?
A resposta exige algum cuidado.
As fotografias demonstram que a afirmação literal de que Lula “nunca viu essa moça” é falsa. Tanto o UOL quanto a Agência Lupa chegaram a essa conclusão em suas checagens da entrevista.
Mas fotografia não é certificado de amizade.
Presidentes, candidatos e celebridades tiram milhares de fotos com pessoas das quais provavelmente não saberiam dizer o nome minutos depois.
Portanto, seria intelectualmente desonesto utilizar as imagens como prova de que Lula mantinha uma relação pessoal, política ou profissional com Luchsinger.
Elas não provam isso.
E é justamente esse argumento que a campanha presidencial apresentou nesta sexta-feira: Lula teria querido dizer que não possui relação ou interlocução com Roberta, e as fotografias decorreriam da rotina de uma figura pública constantemente abordada para registros.
O problema é que não foi isso que Lula disse.
Se tivesse respondido “posso ter tirado fotografias com ela, mas não a conheço e nunca mantive qualquer relação”, provavelmente o episódio terminaria ali.
Mas escolheu uma negativa absoluta.
E negativas absolutas são perigosíssimas quando existem câmeras, celulares, redes sociais e arquivos digitais.
Por isso, mais importante do que discutir semanticamente se Lula “conhecia” ou “não conhecia” Roberta é perguntar por que o presidente sentiu necessidade de construir uma distância tão radical entre os dois.
Talvez tenha simplesmente esquecido dela.
É perfeitamente possível.
Talvez considere que posar para uma fotografia não equivale a conhecer alguém.
Também é plausível.
Mas existe uma terceira possibilidade, inevitavelmente levantada pela circunstância: diante de uma personagem que aparece numa investigação envolvendo seu próprio filho, Lula pode ter tentado afastar de maneira imediata qualquer possibilidade de associação.
Se foi isso, cometeu um erro político elementar.
Porque aquilo que poderia permanecer como uma discussão sobre o grau de relacionamento entre Lula e Roberta transformou-se numa discussão muito mais simples e muito mais prejudicial:
O presidente falou a verdade?
E há outro detalhe que torna o episódio ainda mais delicado.
A CNN publicou nesta sexta-feira que, segundo fontes ouvidas pela emissora, Lula teria sido alertado anteriormente sobre a existência de pelo menos uma dessas fotografias. Se essa informação for confirmada, a tese do mero esquecimento ficará naturalmente mais difícil de sustentar.
Ainda assim, seria precipitado transformar essa informação, baseada por enquanto em relatos de fontes, numa sentença definitiva sobre a intenção do presidente.
Porque existe uma diferença fundamental entre dizer algo falso e mentir.
O erro pode decorrer de desconhecimento ou falha de memória.
A mentira pressupõe consciência da verdade e intenção de escondê-la.
As fotografias provam a contradição.
Não conseguem fotografar a intenção.
Essa talvez seja a conclusão mais responsável neste momento.
Lula disse algo que os registros disponíveis demonstram não corresponder literalmente aos fatos.
Agora cabe ao presidente explicar satisfatoriamente por quê.
E a explicação importa.
Porque estamos falando de um presidente da República que pede aos brasileiros mais um mandato.
Numa campanha em que confiança e credibilidade serão disputadas voto a voto, talvez a pior fotografia não seja aquela em que Lula aparece ao lado de Roberta Luchsinger.
Pode ser justamente aquela que ficou registrada diante das câmeras do Jornal Nacional:
a de um presidente fazendo uma afirmação categórica que, poucas horas depois, não resistiria ao arquivo da internet.
Ponto Final
por Redação
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