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21/06/2020 às 17h06

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Rituais do luto

Tenho me concentrado na morte em vez da vida. Ela pauta meus dias, distribui uma tristeza por todo o meu peito e me deixa com o pensamento distante e inerte. Devia ter raiva, me indignar profundamente, mas não, eu deixo o sentimento me acompanhar por todo o dia como uma música insistente e interminável. A morte está tão presente que temo que se banalize.

A morte é natural, mas tem deixado de ser. As notícias são tão constantes e diárias que chego a temer uma naturalização patológica. Leio, nas redes sociais, doloridas despedidas de pessoas que não puderam velar o ente querido com  dignidade, que não puderam beijar o outro pela última vez e que não puderam estar presentes na despedida final. Pessoas que não podem ter seus amigos e parentes ao lado para serem consoladas, pessoas que não podem cumprir os rituais do luto que ajudam a diminuir a dor.

Tenho pensado na morte de quem fica, na dor pungente e angustiante que não encontra espaço para findar. Fico me perguntando como ajudar na dor do luto sem os rituais rotineiros e históricos. Somos seres de hábitos, é difícil criar novos e conseguir os mesmos resultados do anterior, mas estes são necessários e imprescindíveis neste momento. As pessoas precisam criar novos rituais, senão não vão superar esse luto e ele vai doer todos os dias como na primeira vez que ele chegou.

Escrever uma longa e verdadeira carta de despedida ajudará a alguns. Outros poderão se beneficiar visualizando o outro ao seu lado e dizendo tudo que precisa dizer para aliviar a tristeza. Colocar a foto e objetos pessoais do ser amado na sua frente e cantar sua música preferida. Fazer um ritual de despedida com balões e mensagens. Quem for católico, unir a família em uma missa on line, podendo este momento ser compartilhado pelo grupo de amigos. Professar a sua fé, seja qual for. A atenção e cuidado dos amigos e parentes é absolutamente necessário, pequenos afetos distribuídos em forma de mensagens escritas, comidas que confortam e ligações que acalmam.

Tudo isto é pessoal, cada um deve encontrar o melhor jeito de se cuidar e se despedir, mas não deixe de fazer se a dor se abater sobre você, faça do seu jeito, mas faça, pela sua vida e por respeito ao que partiu. Os rituais de despedida são muito importantes para superar a morte. Precisamos nos encher de vida após uma morte, só assim a esperança poderá voltar a crescer.


Psicóloga Meg Oliveira por Meg Oliveira

Psicóloga Clínica, pós-graduada em Gestalt Terapia. Formação em Vegetoterapia, Psicoterapia Breve e Massoterapia. Atuando há 28 anos como Psicóloga Clínica. Procuradora aposentada do Poder Judiciário.

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