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23/06/2022 às 11h20

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Entrevista com Targino Gondim

Cantor e compositor pernambucano, criado na Bahia,

Arquivo pessoal


*Daniela Gama

Estava eu aproveitando o período de festas juninas na Chapada Diamantina, Bahia e eis que tenho o prazer de ouvir o talentoso Targino Gondim tocar em um show na cidade de Iraquara. Um dos muitos shows da agenda "apertada" do cantor nesse período em que o povo Nordestino celebra a musicalidade aconchegante do forró. E não estou falando de forró no sentido mais amplo, mas do nosso delicioso forró pé de serra, o forró que só o bom sanfoneiro sabe fazer. Targino é cantor e compositor, nascido em Pernambuco e criado na Bahia. Com diversos trabalhos em parceria com outros tantos músicos renomados da Música Popular Brasileira e músicas indicadas ao Grammy, é dono de uma simpatia e simplicidade que nos encanta. Com muita generosidade, o artista tirou um tempinho entre um show e outro nessa semana de São João e me concedeu essa entrevista onde fala da sua carreira, seus trabalhos, politização e oportunidades, num contexto Sem Simetria de pensar e de ser. Targino, você é massa!

Quem é Targino Gondim?

Cantor, compositor, sanfoneiro, nascido em Salgueiro (PE), mas fui criado em Juazeiro da Bahia, onde eu cheguei com dois anos de idade. Aprendi a tocar sanfona por influência do meu pai e também herdei dele a paixão pela obra de Luiz Gonzaga, Dominguinhos e todos seus seguidores.

De onde vem a sua influência na música?

Do meu pai. Ele aprendeu a tocar sanfona no modo antigo de Luiz Gonzaga, tudo isso me serviu como base desde o início, e fiz também amizade com grandes nomes, como Dominguinhos, Sivuca, Osvaldinho, Gilberto Gil, Caetano Veloso, e essas são outras principais influências porque estiveram mais presentes no meu dia a dia.

São mais de 20 anos de carreira. Quais foram os maiores desafios e delícias de lá pra cá?

O meu primeiro CD foi lançado em 1996, são mais de vinte anos de carreira e os percalços de antes talvez sejam os mesmos de agora, as dificuldades... A gente precisa de muita determinação porque o que nos falta muito é incentivo. Então, se você está começando a trilhar pelo caminho artístico, seja em qualquer profissão, principalmente na música, você vai sentir essa deficiência, falta incentivo governamental, incentivo das pessoas, você, no máximo, vai receber alguns aplausos. No início você vai ter que provar o seu mérito, mostrar a si mesmo e as pessoas que você merece um lugar ao sol, merece despontar no cenário musical, começando pelo regional, estadual e depois Brasil, quem sabe mundo? A falta de incentivo vai desde onde a gente se apresenta, com as pessoas mais próximas da gente, aos fãs e à mídia, à imprensa, que você só vai  conquistar o respeito deles a partir do trabalho cada vez mais afinado, aprimorado profissionalmente.

 Imagino a agenda “apertada” de Show que você tem. Como consegue conciliar trabalho, vida pessoal e família, principalmente nessa época de festas juninas?

Conciliar a vida pessoal, a família, a gente vai ter que embolar tudo, virar um bolo só. Filhos, mãe, irmãs, irmãos, vão ter que entender desde cedo que é o trabalho que a gente escolheu, que o nosso trabalho pede que estejamos na estrada, viajando, e todo mundo acaba se acostumando a isso tudo. A questão pessoal, você vai entender que sua vida é isso. O que a gente pode resolver durante a viagem, resolve, o que tem que viver aquele momento, a gente vive, não dá para esperar por férias. Dessa forma a gente vai encontrando amigos, famílias em outras cidades que nos adotam, e vamos seguindo. Como dizia meu pai, meus tios, “o que não tem remédio, remediado está”.

 Fale um pouco sobre seus novos trabalhos, tão em alta nesse período junino.

Meus trabalhos mais recentes, graças a Deus estão muito bem, as pessoas estão gostando muito, lancei no ano passado o “Belo Chico”, com dois parceiros, Nilton Freitas e Gogó, voltado apenas para o Rio São Francisco; depois lancei Chapada Diamantina, uma homenagem à região inteira da Chapada, na Bahia; e lancei Sertão de Curaçá, todos esses com clipes e trabalhos que estão todos sendo bem visitados. Recentemente, lancei uma música inédita, minha com Zeca Baleiro, chamada “Prela me querer”, com uma cantora paraibana, de Campina Grande, que se chama Heloísa Olinto. E durante a pandemia eu lancei “Targino sem limites”. É um trabalho que mostra que a música que eu faço, forró, é música do mundo, não precisa estar preso à zona rural, ou nas casas de forró, ou em épocas juninas, não, ela é do mundo! Ela vai estar o tempo inteiro em todo lugar, vai estar onde a gente queira estar, tanto que gravei e fiz música, por indicação de M Latino, com Carlinhos Brow, Raimundo Fagner, Zeca Baleiro, Saulo Fernandes, Bell Marques, Ivete Sangalo, e esse disco chegou a ser indicado para o Grammy Latino. Então, de produção atual a gente está muito, eu e tantos outros artistas maravilhosos que estão para provar que o nosso forró não é antigo, é também atual.

 Qual o papel da música Nordestina, especialmente do forró, no Brasil de hoje?

O papel da música nordestina é o papel de qualquer outra música, um papel de nos contar história, de nos narrar fatos, falar de amor, de questões ambientais, questões sociais, questões críticas, a música transforma a vida das pessoas levando conhecimento, saber, bem-estar, ou seja cantando alegria, ou seja cantando tristeza, de qualquer  forma você se encontra ali em determinadas músicas. E a nordestina tem esse propósito também, de mostrar a história do povo nordestino, seja na fé, no pedido, na gratidão...

 Você vê uma ligação entre a Política e a arte no Brasil? De que forma a música pode contribuir para uma melhor politização dos jovens?

A política existe em tudo, em qualquer tipo de movimento, qualquer certeza, incerteza, qualquer assunto, qualquer sim, qualquer não, tudo nos leva a um movimento político. Não é diferente com a arte, a arte faz parte disso tudo, a arte precisa existir, ter lugar, ter vez. O papel da política tem que ser voltada para trazer à tona, principalmente para os jovens, a importância da arte.

 O Brasil é um país de dimensões continentais e isso vai além da geografia. A arte e a música em si tem uma variação muito grande de ritmos e de mensagens. A geração mais antiga costuma não aceitar bem boa parte das músicas/letras de canções que “estouram” facilmente, mas não possuem uma mensagem muito positiva. Como você enxerga essa nova musicalidade, a da geração tiktok, por exemplo?

Por que a geração mais antiga fica mais arredia em relação às músicas de hoje? Porque as músicas de hoje são mais imediatistas, seguem a linha “vamos puxar por aqui”, seja em relacionamentos, seja em bebedeiras, em festas... E não nos deixa muita coisa, diferente de gerações passadas, gerações de 80, 70... Que são músicas que deixam registros de vida, seu primeiro amor, sua primeira viagem, sua primeira sentada na praça... Tudo... Os registros são saudáveis.  Mas a gente tem que enxergar também que a cultura não é estática, que ela vai se modificando, ela se movimenta o tempo todo, e a geração hoje é do tiktok mesmo... E a gente se insere nesse meio para tentarmos ver e mostrar algo além do imediatismo.

 A pandemia nos trouxe perdas incalculáveis, inclusive para o cenário cultural. Como você passou por esse período?

A pandemia pegou o Brasil, o Mundo, de jeito. Muitos morreram, muitos sofrem até hoje, depressão... Cada um enfrentou a pandemia de seu jeito... Eu, particularmente tenho que agradecer muito! Passei a pandemia e não senti tanto financeiramente, obtive êxito nas minhas lives, seja de instagram como de youtube, consegui patrocinadores, marcas que apostaram no meu trabalho e tiveram retorno e continuaram comigo após esse período... De forma que consegui criar uma receita, por menor que tenha sido, para ir me estabilizando por ali e também acolhendo meu povo, meus músicos, minha equipe técnica, motorista, produtos, e fomos nos salvando juntos. E aproveitei a pandemia para exercitar essa coisa que a gente acaba esquecendo, que é ser mais carinhoso, mais amável com as pessoas, realizar e participar campanhas solidárias. Fiquei muito feliz com minhas ações durante a pandemia.

Na nossa coluna “Sem Simetria” costumamos falar sobre respeito à diversidade em seu contexto mais amplo. Em suas andanças pelo país você ainda percebe algum tipo de preconceito com a cultura e o povo nordestino, ou isso já mudou?

Mudou, mudou um pouco. O Mundo precisa ainda mudar muito, o ser humano ainda precisa avançar muito, transcender, encontrar mais Deus, pensar primeiro no todo, se colocar no lugar da outra pessoa, para poder tomar certas atitudes. Eu venho me policiando, ainda errando, mas querendo acertar, sempre voltando atrás, tendo a certeza de que não podemos simplesmente pegar uma borracha e pagar o que fez. Mas se a gente não pode pagar o que fez, pode a partir de agora, a partir do momento que a gente se toca, a gente pode escrever de uma forma melhor para a gente e para pessoas que estão a nossa volta, só dessa forma que o mundo vai mudar, que as pessoas vão mudar, que o preconceito vai deixar de existir, a gente ainda precisa muito! O meu desejo é que a raça humana, a humanidade no todo se encontre, se engaje, se respeite, se ame. A cultura nordestina, o povo nordestino, ainda continuamos sofrendo preconceito. E não basta apenas sermos contra, temos que agir também contra isso.


*Republicado as 11:20 para acréscimo de informações


Sem Simetria por Daniela Gama

Daniela Gama é baiana, fotógrafa, mãe e geógrafa. Em seu currículo constam exposições individuais no Memorial da América Latina em São Paulo e mostras coletivas na Europa, incluindo duas em Paris. Seus trabalhos priorizam a moda, a beleza e a inclusão social e das pessoas com deficiência. Em sua coluna no  Painel Alagoas, Dani tem como foco a diversidade num contexto "SEM SIMETRIA", através de suas matérias e entrevistas. 

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