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07/03/2019 às 08h00

Cultura

Patrimônio Vivo de Alagoas conta como é ser um mestre violeiro

João Procópio, mestre repentista, fala que falta incentivo para a cultura popular no estado

Arquivo Pessoal/Reprodução

Ariane Félix - Colaboradora*

João Procópio, Patrimônio Vivo de Alagoas, completa em 2019, 44 anos de história com seu repente. O muriciense, fundador e atual presidente da Associação dos violeiros do Estado é um dos mestres, violeiros e repentistas que enriquecem a terra dos marechais com sua arte.

A cultura alagoana é rica em diversidade. Agrega dança, música e várias manifestações que o homem encontra para expressar suas aptidões e maneiras de demonstrar seus pensamentos. É dessa forma que Elias Procópio, ou João Procópio, como é mais conhecido, revela suas habilidades no toque da viola. Tocador com conhecimento nato, Procópio é defensor da ideia de que o verdadeiro repentista nasce pronto, precisa somente de lapidação, de um refinamento que deve ser feio por um especialista mais antigo.

E ele tem duras críticas à forma como está sendo feito repente nas ruas de Maceió e do país. Ele explica que o repente deve ser feito com assuntos relevantes, que seja de interesse de todos e não de coisa fúteis como vemos nos coletivos da cidade.

“A cantoria de viola é isso, não é chegar na praia e dizer que o turista é bonito, a mulher é bonita, e o turista dá dinheiro. Aquilo não é cantoria não, ali é um meio de vida dos cantadores que não tem uma habilidade profissional para viver da profissão,” declara.

O mestre violeiro ainda fala sobre a dificuldade que os repentistas têm pela falta de estudos, em criar repentes de qualidade. “Você vai entender o cantador que não tem talento de ser um profissional, aquele que têm menos inteligência ou que não quis estudar e não quis aprender nada, aquele que não se ocupa de ler uma bíblia sagrada para falar de Jesus, aquele que não se ocupa de ler as notícias que estão aí, aquele que não se preocupa com nada, vai cantar pro público e fica tapado das ideias por que não sabe o que dizer. Sem ler ninguém sabe dizer nada,” afirma.

João sempre viveu da arte do repente, ele relembra de suas inspirações com emoção e nostalgia. Entre as maiores, o Rouxinol do Norte, os músicos Tiago Passarinho, João de Lima e Apolônio Belo Solto, um dos maiores cantadores do Nordeste que estaria atualmente abandonado na cidade de Viçosa, com 92 anos. Com emoção nos olhos, seu Procópio se recorda do amigo.

“Existem duas diferenças da viola para o repente: Ensinar a tocar é uma coisa e ensinar a cantar repente, ninguém ensina. É como a pessoa que faz o segundo grau, passa no Enem e vai para faculdade, né verdade?”, resume.

A cultura popular de Alagoas é pouco conhecida por seus conterrâneos, que confundem-se diante do simbolismo que cada manifestação carrega. Seja na dança, com seu reisado, coco de roda, dança da fita e até mesmo nas quadrilhas, o rito carrega em si a memória de um povo, nesse caso, o nosso.

A música, o toque, a melodia, são elementos que englobam o repente, que deve ser claro e cativante. Os grandes Mestres sabem bem como fazer esse encontro de aspectos se transformar em uma melodia única, ao mesmo tempo em que toca nos assuntos mais relevantes para nosso cotidiano.

Procópio aponta que o profissionalismo do repentista e principalmente seus trabalhos devem ser respeitados e valorizados pelo povo alagoano.

“Se eu disser que não tenho apoio das autoridades de Maceió sobre a cultura popular de viola, estarei mentindo, sacaneando, mas tem apoio sim, só não existe um estímulo, como em Pernambuco, no Rio Grande do Norte, na Paraíba…’’ declara.

Sobre a atividade de repentista, João é bastante enfático quando diz que o tocador não tem outra ocupação. “Eu não sei fazer nada na vida a não ser cantar”, diz ele, que ainda declara a presença de advogados e promotores que deixaram seus empregos e foram viver de arte.

Dentre as dificuldades do ofício, Procópio se preocupa com a disparidade entre os repentistas de Alagoas e de outros estados. Segundo ele, as pessoas do interior estão apreciando cada vez mais a cantoria de viola que caiu 70%, nos últimos 20 anos.

Experiente e sagaz, João já percorreu muitos lugares em sua jornada, participou de vários festivais pelo país, entre eles o Encontro dos Campeões do Repente de Alagoas, um evento cujo o objetivo é cultivar as raízes nordestinas.

“No repente tudo é feito no improviso, o cantor cria de imediato a rima”, fala o Patrimônio Vivo de Alagoas, sobre a importância do tocador fazer o repente na hora do espetáculo, a principal característica do verdadeiro repentista.


Fonte: *Sob a supervisão da editoria

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