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02/02/2026 às 23h59

Cultura

Quebra de Xangô de 1912: intolerância religiosa e a resistência dos terreiros de Maceió

O episódio de 1912 marcou a história de Maceió com violência e intolerância, mas não conseguiu apagar a fé e a resistência do povo de terreiro

Foto: Ascom FMAC

Na história de Maceió, o ano de 1912 permanece como uma marca profunda de violência, intolerância e racismo religioso. O episódio conhecido como Quebra de Xangô representou uma tentativa brutal de eliminar a presença das religiões de matriz africana em Alagoas, por meio da perseguição sistemática a terreiros, lideranças religiosas e símbolos sagrados.

Na madrugada do dia 2 de fevereiro, dezenas de casas de culto foram invadidas e destruídas por milícias particulares. Objetos litúrgicos foram queimados em praça pública, tambores silenciados à força e mães e pais de santo obrigados a esconder sua fé para sobreviver. A violência não atingiu apenas os espaços físicos, mas feriu a dignidade, a memória e a ancestralidade de um povo inteiro.

O Quebra de Xangô de 1912 permanece como um dos capítulos mais dolorosos da história de Maceió. Com a violência, muito da cultura afro-brasileira presente em Alagoas se perdeu. Tambores foram quebrados, objetos sagrados destruídos, cantos interrompidos. O som que ecoava nos terreiros foi substituído pelo medo. Histórias, toques, rezas e fundamentos deixaram de ser transmitidos como antes.

Para o babalorixá Célio Rodrigues, o impacto do Quebra de Xangô ultrapassa o que é possível mensurar. “Quando os tambores foram silenciados, não foi só o som que se perdeu. Perdeu-se parte da memória, da cultura e da identidade de um povo. Cada objeto quebrado carregava uma história, um ensinamento, uma ligação com os ancestrais”, afirma.

Segundo ele, o medo imposto naquele período obrigou o povo de terreiro a se esconder.

“Muitos terreiros fecharam, outros passaram a rezar baixo, quase em silêncio. Isso causou uma ruptura profunda. Mesmo assim, o axé encontrou caminhos para continuar existindo, ainda que ferido.”

Mais de um século depois, a lembrança desse episódio segue viva como alerta e como força.

“O Quebra de Xangô não conseguiu acabar com nossa fé, mas deixou marcas que precisam ser reconhecidas para que nunca mais se repitam. Rezar alto hoje é um gesto político. É dizer que sobrevivemos, que estamos aqui e que nossa fé não precisa mais se esconder. Cada toque de tambor é um chamado à memória dos que vieram antes de nós.”, reforçou Pai Célio.

Xangô Rezado Alto: memória, fé e reparação histórica

Evento acontece anualmente para relembrar o acontecido em 1912 e celebrar a resistência do povo de terreiro. Foto: Aaron Neves/Ascom FMAC
Evento acontece anualmente para relembrar o acontecido em 1912 e celebrar a resistência do povo de terreiro. Foto: Aaron Neves/Ascom FMAC

Como forma de preservar essa memória e transformar dor em resistência coletiva, a Fundação Municipal de Ação Cultural realiza anualmente o Xangô Rezado Alto, evento que relembra a tentativa de apagamento das religiões afro e celebra a retomada pública da fé que foi silenciada em 1912. Diferente do período em que os tambores precisaram calar, hoje o som ecoa como afirmação de identidade e liberdade religiosa.

O evento é construído de forma conjunta com os terreiros de Maceió, a partir do diálogo e da escuta das lideranças religiosas. Após reunião com os representantes do povo de santo, ficou definida a realização do Xangô Rezado Alto no dia 21 de março, reforçando o compromisso coletivo com o respeito, a memória e a valorização das tradições afro-brasileiras.

O presidente da Fundação Municipal de Ação Cultural (FMAC), Myriel Neto, destaca que a ação é essencial para a construção de uma cidade mais justa.

“O Xangô Rezado Alto é mais do que um evento cultural. É um ato de reconhecimento, de escuta e de respeito ao povo de terreiro. A cidade precisa lembrar para não repetir e, principalmente, para valorizar quem sempre resistiu.”

Ao transformar silêncio em som e apagamento em memória viva, Maceió reafirma que os tambores que tentaram calar em 1912 seguem batendo.


Fonte: Thauane Rodrigues/ Ascom FMAC

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