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Agora no Painel Incidência de Aids em presídios é 138 vezes maior do que média nacional
07/12/2017 às 16h00

Geral

Nações Unidas apontam crescimento absoluto de novas infecções de HIV no Brasil

Agora é lei prevenir contra HIV/AIDS

Reprodução

*Redação

“Pensei que era um resfriado, uma gripe mais forte e, depois, até mesmo que eu tivesse contraído algum quadro infeccioso na garganta, mas nunca imaginei que estava com Aids. Surgiu uma febre persistente, eu suava muito à noite, dores nas articulações e total falta de apetite. Fui ao médico, ele me passou uns exames e fui diagnosticado como portador de HIV. Foi uma reviravolta na minha vida. A surpresa, o medo, o inconformismo, a busca pelo tratamento e o preconceito. São ao todo cinco anos convivendo com esse tsunami, mas o apoio da família, dos amigos, um maior aparato de informações, têm me ajudado a conduzir esse fardo” (M.A.G.N, 38 anos, alagoano, administrador de empresas).

M.A.G.N é mais um na estatística de brasileiros portadores do HIV que, segundo o UNAIDS, programa das Nações Unidas, chegou a atingir no ano passado a 36,7 milhões de pessoas no país. Desse número, são 34,5 milhões de adultos, 17,8 milhões de mulheres (acima de 15 anos) e 2,1 milhões de crianças (abaixo de 15 anos). Também em 2016, 1 milhão de pessoas teve mortes relacionadas à AIDS.  Ainda de acordo com oUNAIDS, no Brasil o número absoluto de novos casos da doença aumentou, em tendência contrária ao que se registra na média mundial. A cada ano, esse crescimento foi de 3% entre 2010 e 2016, enquanto no mundo essa taxa sofreu contração de 11%.

Em outubro, o governo brasileiro criou o Dezembro Vermelho, uma campanha nacional de prevenção ao HIV/AIDS e outras infecções sexualmente transmissíveis, que virou lei aprovada pelo Senado Federal (Lei 13.504). O objetivo é focar na prevenção, assistência e promoção dos direitos humanos das pessoas que vivem com HIV/AIDS, através de atividades e mobilizações como iluminação de prédios públicos com luzes na cor vermelha, veiculação de campanhas de mídia, palestras e atividades educativas e promoção de eventos. M.A.G.N aprova a ideia. “É importante que o assunto seja demasiadamente esgotado, alertado e, sobretudo, levado com prioridade pelo poder público”, diz.

O Brasil tem hoje uma das maiores coberturas de tratamento antirretroviral (TARV) entre os países de baixa e média renda, com mais da metade (64%) das pessoas vivendo com HIV recebendo TARV, segundo os dados do Boletim Epidemiológico 2016 do Ministério da Saúde. Em 2016, a média global para este segundo pilar das metas de tratamento 90-90-90, foi de 53%. Essa meta consiste no controle efetivo da epidemia, prevendo-se sua “eliminação” até 2030, através de estratégias alicerçadas no diagnóstico precoce e no acesso irrestrito aos antirretrovirais, como forma de eliminação da carga viral circulante, quais sejam: 90% da população testada; 90% das pessoas com HIV/aids com acesso aos antirretrovirais e 90 % destas com a carga viral indetectável, até 2020.

“O Ministério da Saúde, o UNAIDS e diversas organizações que trabalham com o tema do HIV, já dedicam, tradicionalmente, um grande esforço na realização de eventos, encontros, debates e campanhas ao redor do 1º de dezembro” (Dia Mundial de Combate à AIDS), ressalta Georgiana Braga-Orillard, Diretora do UNAIDS no Brasil. “Mas a aprovação do Dezembro Vermelho é um passo importante para que as atividades sejam feitas no Brasil todo, por várias instituições e também para que possamos ir além de uma data única e fazer com que esse debate siga vivo na sociedade por mais tempo”, reforça.

M.A.G.N trabalha há cerca de dois anos em uma empresa privada de grande porte em Alagoas e ocupa um cargo gerencial. Diz que poucas pessoas sabem que ele é portador de HIV e que teme que descubram. “O preconceito ainda é grande. O fato de eu ser gay e chefiar uma equipe não me tiram o respeito e a liderança, mas se souberem que eu estou infectado certamente sofrerei discriminação do meu pessoal, por incrível que pareça ainda há um tabu cercando essa questão sobre contaminação, especialmente”, expõe. “A direção da empresa sabe que ele possui o vírus e o orientou, inclusive, a manter “sigilo”, conta o administrador de empresas.

“Pensei em me matar, diz M.A.G.N”

Foi exatamente no seu aniversário de 33 anos, que M.A.G.N recebeu como presente a certeza de que possuía o HIV. Solteiro, morando com os pais, uma avó e duas irmãs mais novas que ele, o primeiro pensamento foi o suicídio. “Nunca fui uma pessoa forte, capaz de encarar desafios, brigar, sempre vivi mais quieto, mais pra dentro, sem muitos amigos. De repente, era, na época, para mim, uma condenação, uma sentença de morte”, revela.

“Eu não tinha informações, nem sabia que uma coisa era o HIV e outra era a AIDS, não conhecia ninguém portadora desse vírus e a primeira ideia foi me matar. Cheguei a pensar inclusive na forma de fazer isso, mas parei, pensei, como sou uma pessoa muito crente em Deus, arrumei forças para enfrentar. Difícil foi contar para a família que, menos do que eu, não sabia nada sobre o assunto. Para meus pais, AIDS era a própria morte”, conta.

“Na época ainda estava estudando e trabalhava como comerciário, como já estava de licença médica para tratamento do que eu pensava ser uma virose, aproveitei esses dias para me informar primeiro sobre o vírus e depois sobre como me tratar”, acrescenta. “Quando a loja descobriu, me chamou, propôs um acordo e eu me demiti. Hoje eu sei que foi uma violação aos meus direitos, mas, naquele tempo, sozinho, desesperado, aceitei”, reconhece M.A.G.N.

Segundo ele, aos poucos foi tomando consciência do que podia ou não fazer, de seus direitos, de quem realmente poderia ajudá-lo e do tratamento. “Foi tudo muito difícil, mas hoje está sob controle, estou namorando, fazendo terapia, consegui esse emprego e logo fui subindo de posto, hoje gerencio uma área da empresa, e meus novos chefes me apoiam”, destaca. M.A.G.N pretende ajudar na campanha. “Estou dentro do Dezembro Vermelho”.


O HIV é um vírus que se espalha através de fluídos corporais

O HIV é um vírus que se espalha através de fluídos corporais e afeta células específicas do sistema imunológico, conhecidas como células CD4 ou células T. Atualmente, não há cura efetiva e segura, mas o HIV pode ser controlado com medicamentos.

Muitos não sabem, mas ser portador do vírus HIV e ter AIDS são duas coisas bem diferentes. “O vírus HIV é o causador da Aids, mas isso não significa que todas as pessoas que têm o vírus vão desenvolver a Aids. E isso se deve, e muito, aos medicamentos que temos disponíveis no país”, disse o especialista Pablo Velho.

O infectologista explica que a única maneira de evitar que a Aids se desenvolva é fazer o tratamento adequado. “Se nada for feito para interromper o processo de evolução natural da doença, ela vai chegar. Em alguns indivíduos isso acontece de forma muito rápida, e eles podem desenvolver a AIDSs em até dois anos após o contágio. Na outra ponta, há algumas pessoas que podem levar mais de dez anos. 

Na média, são sete anos, mas não se pode confiar nisso porque varia de pessoa para pessoa e não faz sentido esperar a pessoa ficar mal para começar o tratamento”, explicou.

O tratamento pode deixar o paciente com uma carga viral indetectável e, assim, o vírus se torna intransmissível na relação sexual, desde que não existam outros fatores que aumentam o risco de transmissão, como, por exemplo, ter sífilis, o que causa lesões que aumentam o risco de contaminação.

Prevenção é o melhor remédio 

A principal arma existente hoje contra a transmissão de HIV no Brasil, considerando que a transmissão em larga escala é sexual, é o uso de preservativo. Mas o infectologista Pablo Velho esclarece que há uma outra alternativa disponível na rede pública de saúde para evitar a contaminação em caso de exposição ao vírus.

“Existe uma forma, semelhante à pilula do dia seguinte em relação à gestação, que é, depois de ter uma exposição sexual de risco, receber um medicamento que diminui a chance de se contaminar pelo HIV em unidades de saúde”, explicou.

Essa estratégia é chamada de Profilaxia Pós-Exposição, usada para casos de violência sexual ou de exposição de risco ocasional. “Se bebeu demais, nem lembra se usou preservativo ou sabe que não usou, procure uma unidade que você tem o direito à prevenção”, explica o especialista. Para funcionar, a medicação deve ser administrada em até 72 horas após a relação desprotegida e precisa ser tomada durante 28 dias. “Quanto antes, mais eficaz” afirma.

Este mês, o Brasil vai adotar uma nova estratégia, a profilaxia pré-exposição. Pessoas que têm um risco aumentado de infecção - como, por exemplo, os profissionais do sexo e pessoas soronegativas que são casadas com pessoas soropositivas, entre outros - vão poder receber um medicamento que diminui o risco de contaminação quando expostas.

O especialista ressaltou que as profilaxias não excluem a necessidade de uso do preservativo, que continua sendo a melhor forma de evitar a contaminação tanto pelo HIV como pelas outras doenças sexualmente transmissíveis.

Outro fator importante para a queda no número de transmissões é a oferta de testes para que as pessoas contaminadas pelo HIV saibam da sua condição e possam iniciar o tratamento. Na América Latina, duas em cada 10 pessoas vivendo com HIV, e 4 em cada 10 no Caribe não sabem que têm o vírus (Agência Brasil).


Fonte: Painel Alagoas

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