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18/02/2019 às 10h08

Geral

Os heróis brasileiros na Itália

Brasil teve um papel primordial para romper a linha de defesa construída pelos nazistas, a linha gótica ou linha verde

Um grupo de soldados da FEB brasileira em foto de 7 de setembro de 1944, conservado no arquivo Nacional do Rio de Janeiro

Por Dora Nunes e Alberto Pattono, de Milão

“A cobra está fumando”. Com esse bizarro grito de guerra, o Brasil, apesar da simpatia do presidente Vargas ao regime de Mussolini, enviou em 1944 para o “front” na Itália, as Forças Expedicionárias Brasileiras (FEB), único contingente sul-americano na Segunda Guerra Mundial. O Brasil teve um papel primordial para romper a linha de defesa construída pelos nazistas, a linha gótica ou linha verde.

Os brasileiros na Linha Gótica

A Linha Gótica (Gotenstellung em Alemão) foi um enorme linha de defesa fortificada construída pelo exército alemão no norte da Itália durante os estágios finais da campanha italiana na Segunda Guerra Mundial. Esta preparação defensiva foi palco de intensos combates das tropas alemãs que tentavam retardar o avanço das forças aliadas. A linha de defesa se estendeu da província de Massa-Carrara seguindo por mais de 300 km até a costa do Adriático, próximo à Rimini. Foi na Linha Gótica, entre 1944 e 1945, que a Segunda guerra fez jus ao termo mundial. 

Entre os aliados militavam, além de americanos, ingleses, franceses e italianos, indianos, canadenses, neozelandeses, quenianos, colonos franceses (marroquinos, argelinos e senegaleses) e voluntários enquadrados nas tropas de governos no exílio (poloneses, gregos, tchecos, judeus, árabes). Mas também um exército de 25.300 brasileiros, sendo 15 mil combatentes e 10 mil trabalhadores de apoio: uma importante presença que desempenhou um papel fundamental, inicialmente na recuperação das terras e posteriormente, no avanço das forças aliadas na altura do Vale do Reno. O Brasil foi o único país da América do Sul a participar ativamente do conflito e o único latino-americano a implantar uma divisão na frente de guerra (o México participou com um esquadrão de aviões de combate).

Neutralidade sul-americana

A entrada na guerra dos brasileiros foi um dos muitos acontecimentos imprevisíveis do conflito. De fato, na eclosão da Segunda Guerra Mundial, todos os países da América Latina mantiveram a neutralidade. Entre eles, o Brasil, cujo presidente Getúlio Vargas, não escondia sua simpatia pelos nazismo e fascismo (seu projeto político, o ''Estado Novo" foi supostamente inspirado no regime de Portugal, comandado por Salazar, na primeira versão do fascismo). "É mais provável ver uma cobra fumando um cachimbo do que um soldado brasileiro entrar em guerra na Europa", disse Vargas com uma alegoria bizarra. Uma declaração decisiva de neutralidade, portanto. Além disso, a pressão dos EUA sobre os países da América Latina era moderada ou, em todo caso, pouco eficaz. Entretanto, em 30 de julho de 1940, em Havana, durante a Segunda Conferência dos Ministros do Exterior dos países latino-americanos, os Estados Unidos conseguiram que fosse assinado um compromisso mediante o qual "um ataque a qualquer Estado signatário seria considerado um ataque a todo o continente, adotando os meios necessários para a estimativa da defesa cooperativa" (artigo XV do texto final).

Participação passiva e sem mérito - Como pode ser visto, um compromisso que não é muito claro ou convincente, tanto que, em janeiro de 1942, quando a Conferência foi reconvocada no Rio de Janeiro, após o ataque japonês a Pearl Harbor, os Estados Unidos não puderam sequer impor aos países sul-americanos que rompessem relações diplomáticas com os países do Eixo (de fato, Argentina e Chile os mantiveram). Como máximo, os EUA obtiveram a criação de uma Junta Interamericana de Defesa para "estudar e recomendar os meios necessários para a defesa do continente". Outra regra vaga e não vinculativa.

No Brasil, no entanto, os pedidos de intervenção armada na Europa cresceram. Só que o intenso nacionalismo brasileiro não suportava o "confisco" americano da ilha de Fernando de Noronha, no início de 1942, e a forma como os americanos impunham à costa nordestina brasileira a instalação de suas bases militares. Dessa forma, o país participaria passivamente em uma aliança sem mérito: “se o Brasil tivesse que estar em guerra melhor do que fosse na primeira pessoa”, muitos pensavam.

Pesou muito na decisão dos brasileiros, os ataques de submarinos alemães e italianos (o Leonardo da Vinci e o Barbarigo) contra os navios mercantes e de passageiros brasileiros: um total de 33 foram afundados, deixando cerca de 1.000 vítimas, ataques que exigiram vingança, pois ignorá-lo seria covardia. Em 21 de agosto de 1942, talvez em resposta à entrada do México na guerra no mês anterior, Vargas declarou guerra à Alemanha, Itália e Japão, prometendo aos aliados dos EUA enviar três divisões de infantaria para uma frente européia ou africana. Evento que certamente não preocupou Hitler, Mussolini e nem o Imperador Hirohito. Vargas, no entanto, não tinha pressa em cumprir o compromisso, até porque, na época, todo o exército regular brasileiro tinha apenas 60 mil soldados.

Nas tropas brasileiras se misturaram indígenas, mestiços, negros e brancos de ascendência portuguesa, muitos de origem italiana ou alemã, e até 190 brasileiros de origem japonesa.

A cobra finalmente começa a fumar - Somente depois de um ano, em agosto de 1943, foi criada a FEB, a Força Expedicionária Brasileira: uma única divisão de infantaria de 25.334 homens, apoiada por um pequeno esquadrão aéreo, além de mais 1100 voluntários que procuravam por aventura e se juntaram ao exército regular. Como símbolo da divisão, com surpreendente auto-ironia, uma cobra fumando um cachimbo acompanhada pelo grito de guerra "A cobra está fumando". 

"Ao contrário do que acontecia nas tropas americanas, nas tropas brasileiras não houve discriminação: indígenas, mestiços e negros foram indiferentemente enquadrados com brasileiros de origem portuguesa. Muitos foram os soldados de origem italiana e alemã: houve até 190 brasileiros de origem japonesa", lembra Giovanni Sulla, autor  do livro “os heróis vindos do Brasil”, escrito a quatro mãos com Ezio Trota. Sulla é um especialista sobre o assunto na Itália e foi responsável pela criação do único museu italiano com uma sala dedicada à Força Expedicionária Brasileira, para o qual doou mais de 600 peças. Ele acrescenta que entre os combatentes brasileiros “havia graduados e analfabetos, expoentes das melhores famílias brasileiras como o futuro presidente Humberto Castelo Blanco e também jovens vindos das comunidades mais simples”. O governo brasileiro continuou a se movimentar em câmera lenta, evitando assim que seus soldados fossem massacrados na batalha de Montecassino.

O frio era o pior inimigo - Quando o primeiro dos cinco grupos partiu para Nápoles em 2 de julho de 1944, a Linha Gustav (ao longo do caminho dos rios Garigliano, Rapido e Sangro) já havia sido destruída pelos tropas polonesas e coloniais francesas. Os brasileiros levaram algumas semanas para completar o treinamento necessário, sob a supervisão do IV Corpo do Exército dos EUA, por sua vez comandado pela V Armada americana. O exército brasileiro enfrentou o frio em condições inferiores aos outros aliados: dispunham apenas de um uniforme, absolutamente inadequado para os invernos italianos e, além disso, muito parecido com os uniformes alemães. Foi melhor para a Aviação que, com o grupo de caça agregado ao CCCL Fighter, os 48 pilotos brasileiros realizaram 2.500 missões partindo da base de Pisa. Enquanto isso, a Marinha do Brasil também contribuia, defendendo os comboios comerciais latino-americanos que tinham como destino Gibraltar.

Com sua sede em torno a Pisa, a FEB teve seu batismo de fogo em Massarosa, entre Lucca e Versilia. Em 18 de setembro, Camaiore foi libertada por soldados brasileiros, que foram aplaudidos por uma multidão espantada o suficiente em ver soldados aliados de peles de todos os tons escuros possíveis e que falavam uma língua bastante compreensível. No final de setembro, a FEB lutou no Vale del Serchio em Garfagnana: ocupou as cidades de Convalle, Pescaglia, Borgo a Mozzano, e em seguida, em 6 de outubro, Coreglia Antelminelli e Fornaci di Barga. A partir daí, a encosta sul dos montes Apeninos se encontrava firmemente nas mãos das forças aliadas.

Os soldados brasileiros dispunham de um só uniforme absolutamente inadequado ao rígido inverno italiano e muito semelhante ao uniforme alemão, que os confundia com o exército inimigo 

Nos primeiros dias de novembro de 1944, a Força Expedicionária foi transferida de Garfagnana para a frente de guerra do Vale do rio Reno, ao lado dos americanos, em defesa de quaisquer contra-ataques alemães sobre a principal artéria norte-sul: a estrada estadual 64 Porrettana. E foi sediado em Porretta Terme que os brasileiros conheceram seu pior inimigo: o inverno. Aquele entre 1944 e 1945 foi particularmente rígido: com a neve (que quase nenhum brasileiro jamais havia visto) que alcançara uma altura de 1 m, e temperaturas de -18 ° C. "Quase todas as cartas escritas pelos brasileiros falavam do gelo", lembrou Sulla, que reuniu muitas dezenas de telegramas, que associavam frases mais comuns a números, por exemplo 26 significa "saudações", 34 "com todo meu amor". 

Os alemães, cientes das dificuldades enfrentadas pelos brasileiros, fizeram com que os panfletos escritos em português chegassem aos campos, incitando à deserção, pressagiando temperaturas ainda mais glaciais, além de dificuldades de todos os tipos; eles tentaram alavancar o sentimento anti-gringos nos brasileiros. Na Radio Milano, todos os dias às 13h, o programa "Auriverde", em português, associava convites para deserção com músicas nostálgicas, obrigando os comandos brasileiros a transmitir programas do Brasil com músicas ainda mais agradáveis ​​e atraentes. No entanto, mesmo com todas as dificuldades, ninguém desertou. 

Sorriso, café, esperança e penicilina

A Feb permaneceu em Porretta Terme durante todo o inverno, sujeito a constantes bombardeios e em condições difíceis. "Naqueles meses a relação entre o corpo marítimo brasileiro e a população local foi muito fortalecida", diz Sulla, "nenhum caso de estupro foi relatado (bem diferente de campos com aliados de outras nacionalidades, vale salientar) e 12 soldados se casaram com mulheres italianas”, explica. O hospital organizado pelos brasileiros em Pistoia tratou soldados aliados, prisioneiros italianos e alemães e também a população civil. Estando entre os poucos a distribuir a penicilina, muitos italianos foram resgatados de infecções e doenças graças a esses médicos. Naquela época, pouquíssimos conheciam o inglês, enquanto o português, por mais difícil que fosse, parecia mais próximo do italiano.

"A religião católica comum e seus rituais participavam tanto das forças armadas brasileiras quanto da população local, os sons parecidos da língua, mesmo a semelhança das tradições musicais aproximou a população toscana muito mais dos brasileiros do que de outros contingentes aliados", observa Sulla, que ouviu centenas de depoimentos na Itália e no Brasil. Convidados para frequentar as casas de civis, os soldados brasileiros traziam consigo "sorriso, esperança e café”, juntamente com os clássicos açúcar e farinha branca e por sua vez descobriam vinho, grappa e farinha de castanha, menos comuns no Brasil. Era, porém, a bonança antes da tempestade.

Entre novembro e dezembro de 1944, a FEB e a Task Force 45 dos EUA participaram de 4 ataques no Monte Castello: brasileiros e americanos deixaram muitos dos seus caídos no chão. 

Na primavera, esperava-se que a Linha Gótica caísse com um ataque que teve seu epicentro no próprio vale do Reno. As tropas aliadas não podiam mais contar com os franceses porque a Divisão V era utilizada na frente francesa. O coração das defesas alemãs neste ponto da linha, que os alemães chamavam então de Gruene, era Monte Castello, de altura de menos de 1.000 m, mas que dominava todo o vale do Reno. Entre 24 de novembro e 12 de dezembro de 1944 os soldados brasileiros e a Força-Tarefa Americana 45 participaram de 4 ataques no Monte Castello. Todas as tentativas fracassaram, assim como aquelas que tiveram como objetivo o vizinho Monte Belve­dere: brasileiros e americanos deixaram muitos dos seus caídos no chão. O Co­man­dante Mascarenhas de Morais advertiu ao Exército dos EUA que con­quistar Monte Castello seria uma tarefa impossível para uma única divisão.

Assim, a Operação Encore começou, em cooperação com a X Divisão dos EUA, treinada e equipada para a guerra nas montanhas. A Divisão, com o apoio do P-47 Thunderbolt da aviação brasileira, ocupou o Monte Terminale, o Monteforte, o Sassomolare, o Monte Grande d'Aiano e o Monte Spe. No dia 21 de fevereiro, o primeiro soldado aliado a chegar ao pico de Monte Castello foi um brasileiro. Pouco antes, seus compatriotas tinham ganho na vizinha Affrico a Torre de Nerone, um Castelo medieval que dominava o vale do Reno. O local era cobiçado pelos alemães, que naquele momento eram desprovidos de reconhecimento aéreo: os brasileiros o teriam bravamente protegido até março. A partir dessas posições foi possível começar a ofensiva final. Em abril, a FEB, chegou ao cume e conquistou Gaggio Montano e travou uma luta de fogo de 4 dias pela conquista de Montese. Foi o primeiro combate casa a casa. Os brasileiros, mantendo a artilharia alemã ocupada, permitiram que o oitavo Exército Britânico, que na época ficava mais ao leste, chegasse em comboio a Bolonha, rompendo a Linha Gótica após 8 meses de difíceis combates.

Alemães em fuga, a guerra acabou - Os brasileiros desceram o vale, conquistando Zocca. Bolonha caiu no mesmo dia. Nesse ponto não era para lutar, mas para perseguir o inimigo em Vignola, Castelvetro, Maranello, Formigine, Sassuolo e Montecchio. Em dois dias o comando brasileiro mudou-se para Piacenza, para San Polo d'Enza. Mas a guerra não acabou: tinha que bloquear a estrada antes que os alemães em fuga da Liguria pudessem chegar ao Vale do Rio Pó ou juntar-se aos remanescentes dos exércitos em fuga de Emilia Romagna. A Feb recebeu a missão de bloquear a Val di Taro, cercando Fornovo, onde estava concentrada a divisão alemã de infantaria CXLVIII, comandada pelo general Otto FretterPico, e o que restava da Divisão de Bersaglieri italiana da República social italiana, comandada pelo general Mario Carloni. Sua rendição incondicional, em 28 de abril, foi de fato o último ato da guerra para os brasileiros. Sub-divididos entre as várias praças do norte da Itália, comemoraram o fim da “Repubblica Sociale” e, em seguida, a rendição alemã em Alexandria, Voghera, Piacenza e Turim. Um batalhão brasileiro participou do desfile oficial da Libertação em Milão. A guerra no “front” italiano finalmente acabou. Enquanto o retorno das tropas foi organizado, as eleições foram realizadas no Brasil por Vargas. O fim do fascismo na Itália representava também a queda do "Estado novo" no Brasil. 

Brasileiros mortos em combate

O saldo da valente participação brasileira na guerra de libertação aliada na Itália: cerca de 450 soldados que morreram em combate (240 deles apenas no ataque falido em Monte Castello), 13 oficiais, 8 oficiais (pilotos da Força Aérea Brasileira), cerca de 2000 feridos, muitos com pernas quebradas e amputados de minas terrestres. No final da campanha, no entanto, a FEB havia capturado mais de 20 mil inimigos. Os corpos de brasileiros, enterrados em Pistoia em 1960 foram transferidos para um monumento erguido no parque Eduardo Gomes, em frente à praia do Flamengo, no Rio de Janeiro ou, em frente aquele Oceano Atlântico, cruzado para dar a contribuição brasileira para a liberdade da Europa distante.

Em memória aos brasileiros

Em Montese, na província de Modena, na rocha medieval de Montecuccoli está abrigado o Museu Histórico, concebido dentro do sistema de museus que se encontram ao longo do itinerário da Linha Gótica, que visam reconstruir a história dos assentamentos, desde as suas origens na Idade Média até os anos da Segunda Guerra Mundial e transmitir através das gerações a cultura material local. Uma grande parte do museu é dedicada principalmente aos eventos de guerra da Segunda Guerra Mundial que afetaram a Linha Gótica.

No salão principal, os uniformes de soldados pertencentes às forças militares que lutaram nas montanhas de Montesino, e outras relíquias de guerra como armas, capacetes, máscaras de gás, minas e kits de informação para o reconhecimento deste último são preservados. Parte do percurso expositivo é dedicada ao salão da Força Expedicionária Brasileira (FEB), na qual existem dois dioramas e uma reconstituição do  avanço das tropas nos Montes Apeninos de novembro de 1944 a abril de 1945.

Outra relíquia está localizada em San Rocco, na periferia de Pistoia, onde se pode admirar o monumento votivo militar brasileiro projetado pelo arquiteto Olavo Redig de Campos, da escola de Oscar Niemeyer. Espalhados pela Itália, existem ainda outros monumentos dedicados à intervenção militar brasileira ao lado dos Aliados: em Gaggio Montano, Vergato e em Porretta Terme, na província de Bolonha; em Santa Croce sull'Arno e em Castelfranco di Sotto, na província de Pisa.


Fonte: Painel Alagoas

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