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25/04/2022 às 07h41

Geral

A Cura do que não tem cura

Novo espetáculo de Deborah Colker desnuda possibilidades na ciência e na fé

Divulgação

Por Eliane Aquino

Do que fala “Cura”, o espetáculo de Deborah Colker em cartaz desde o ano passado e que chegou ao Teatro Gustavo Leite, aqui em Maceió? Fala de ciência, de fé, de luta e superação, fala de resistência à discriminação e ao preconceito, traz na essência a emoção que inspira a bailarina e coreógrafa no palco, em um paralelo direto com a vida pessoal da artista. Deborah, nos últimos anos, dedicou-se a buscar uma solução para a doença genética rara de seu neto Theo, de 12 anos, a epidermólise bolhosa. “Eu fui buscar em povos, cultura, religiões, textos e saberes que buscam a Cura. Fiz uma ponte entre a fé e a ciência. Se aproximar da dor do outro é curar, visitar é curar. Percebi a dualidade da Cura e da doença, do grito e do silencio, de aceitar e lutar”, enfatiza. 

 E para ajudá-la a levar essa história ao palco, Deborah estabeleceu parcerias com o rabino e escritor Nilton Bonder, responsável pela dramaturgia, e Carlinhos Brown na concepção musical. Ela também percorreu caminhos geográficos. Foi a Moçambique, foi à Bahia, se encantou pela história do orixá Obaluaê, filho de Nanã, criado por Iemanjá, que abre o espetáculo, contada pela voz do próprio Théo. O “Cura”, com 14 bailarinos, traz cinco personagens que “vão costurando essa aventura que termina na alegria, e na gratidão de poder fazer parte dessa grande festa que é a vida”, destaca a bailarina e coreógrafa. “As vezes a cura não é física, é emocional, ou intelectual, ou espiritual, é de possibilidades a linguagem do “Cura”, define a artista. 

A coreógrafa concebeu o projeto em 2017, mas foi no ano seguinte, com a morte de Stephen Hawking, que encontrou o conceito. Embora acometido por uma doença degenerativa, a ELA (Esclerose lateral amiotrófica), o cientista britânico viveu até os 76 anos e se tornou um dos nomes mais importantes da história da física. Deborah percebeu que há outras formas de cura além das que a medicina possibilita. “Quando foi diagnosticado, os médicos deram a Hawking três anos de vida. Ele viveu mais 50, criativos e iluminados”, lembra Deborah. 

O “Cura” estreou em 6 de outubro de 2021, na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, e passou por nove cidades, com um total de 48 apresentações, e um público total de 50.000. Já a turnê 2022 iniciou com temporada no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro entre 27 de fevereiro e 20 de março. Durante o ano de 2022, todas as apresentações do espetáculo contam com audiodescrição para deficientes visuais. 

 Deborah não dança mais, a cada espetáculo ela confessa que se sente mais diretora e coreógrafa do que bailarina. O último espetáculo em que ela dançou foi em 2011, com “Tatiana”, o qual ela criou pensando em si própria. Aliás, sobre inspiração, Deborah revela que tem que haver “conexão”, e, sim, nem sempre é fácil: “Às vezes (o processo) começa como um papel em branco, faço um roteiro, aí não é aquele, aí faço outro... As vezes um espetáculo para chegar ao roteiro final, eu preciso escrever 11, 12, 13 roteiros... É um processo de pesquisar, investigar espaços novos, objetos novos, já pesquisei cordas, rampas, a parede, a roda, espaços restritos entre os vasos, são situações, aventuras totalmente novas, situações desconhecidas que precisamos desenvolver uma técnica, uma linguagem, tudo novo, mas é tudo muito inspirador”. 

“Há também momentos muitos estimulantes, momentos em que você sabe que é aquele o caminho, aí você, tenta, tenta, e não consegue nada... Com as cordas, por exemplo, foi muito difícil, as caixas também não foram fáceis deslocá-las, construir alguma coisa com elas, então, muitas vezes é até desesperador um processo de criação, e eu ali, na liderança, tenho que saber até onde podemos ir sem nos desgastar, sem perder energia, por outro lado, também tem as vezes que dá tudo certo, é preciso ter paciência obstinação”, acrescenta a coreógrafa, que se considera exigente no trabalho, e brinca: “Com as cordas, por exemplo, as vezes os bailarinos querem me matar durante os ensaios” (risos).

E sobre voltar ao palco alagoano, diz Deborah Colker: “Voltar para Alagoas é ótimo! Alagoas é lindo, é sempre um público tão receptivo, que participa e joga o jogo que é o teatro”. Em Maceió, a produção do espetáculo é de Sue Chamusca e Silvana Valença. 

Sobrevivência digna na pandemia 

Segundo Deborah, sobreviver nos últimos dois anos de pandemia da covid-19, “foi muito difícil e doloroso”. “Em 2020 não tivemos nem o patrocínio e principalmente a ausência do público, que é extremamente importante para as finanças da Companhia. Tivemos que reduzir elenco e administrativo, o que para uma Companhia de Dança, que leva anos para que uma pessoa se adapte a linguagem da Cia, e claro, que não só isso, a dificuldade de cortar aleatoriamente. São escolhas de Sofia”, conta. 

E acrescenta: 

“Felizmente, acho que atravessamos (apesar das dores) dignamente esta fase. Voltar também é complicado, todos perdemos um pouco o traquejo, muita poeira à sacudir, as pessoas têm que entender novamente o funcionamento desta engrenagem. Não é fácil, aliás nunca foi, mas precisamos voltar com força e procurando azeitar esta máquina. Tivemos muita luz, ao encontrarmos o Instituto Cultural Vale e a Prefeitura do Rio de Janeiro, nossos grandes parceiros. Claro que 20 meses parados cobra seu preço, vamos ter um longo tempo de re­cuperação. Sem dramas. É a vida!” 

 Prestígio e prêmios, no Brasil e exterior 

A Companhia de Dança Deborah Colker foi crida em 1994 e se mantém até hoje como uma das mais premiadas e prestigiadas no Brasil e no mundo, recebendo em 2018 o Prix Benois de la Danse de Moscou, o mais importante prêmio da categoria. Recebeu ainda um Laurence Olivier em 2001, célebre prêmio inglês, concedido pela The So­ciety of London Theatre, pelo es­petáculo Mix. Em 2009, Deborah Colker foi convidada pelo Cirque du Soleil para criar o novo espetáculo da companhia canadense, Ovo, sen­do a primeira mulher a criar e diri­gir um espetáculo para o Cirque. 

Em 2016, foi a diretora de movimento da cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro, evento transmitido para mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo. Ao longo destes anos, a Companhia já realizou mais de 1.600 apresentações, em cerca de 65 cidades e em 32 países, atingindo um público de mais de 3.000.000 de pessoas. 


Fonte: Painel Alagoas

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