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24/05/2022 às 09h38

Geral

Duas décadas no desafio de trazer cultura para Alagoas

Arquivo Pessoal

Por Eliane Aquino

Dia de São Jorge, 23 de abril, foi a data escolhida por Sue Chamusca e sua companheira, jornalista Silvana Valença, para dar vida ao sonho de ambas em fazer produção cultural no estado de Alagoas. Há vinte anos, juntaram conhecimentos, amor à arte, coragem e determinação e partiram para enfrentar o desafio de trazer para Alagoas música, peças teatrais, dança e muito incentivo à cultura local. Ao todo, já são mais de 1.300 apresentações, das mais variadas linguagens artísticas. Sue e Silvana criaram e produziram os projetos Teatro é o Maior Barato, Música é o Maior Barato, a Semana do Teatro. Foram responsáveis pelo Jaraguá Cultura e promoveram grandes carnavais na capital alagoana. Além de cultura, elas geram também renda e emprego, são cerca de 25 a 30 postos de trabalho por cada espetáculo. Sue Chamusca conversou com a Painel Alagoas e nos contou o céu e o inferno de trabalhar com produção cultural em nosso estado. 

Painel Alagoas – Como surgiu a empresa, onde nasceu a inspiração?   

Sue Chamusca - Minha gran­de inspiração é meu avô, Eduardo Cebolinha. Ele foi um dos primeiros produtores culturais de Alagoas, numa época em quem nem existia esse nome. Lá pelos anos 1940, 1950, ele trouxe para cá shows de Gonzagão, Emilinha Borba, Chacrinha........  Desde pequenas, eu e minhas irmãs Silvia e Silvana Chamusca, fomos estimuladas a gostar de arte, especialmente de música. Minha família é de boêmios e minha mãe, Marialba, é a maior representante. Nasci em Salvador, mas morei aqui em Maceió boa parte da minha infância e início da adolescência. No início dos anos 70 fui para o Rio, cidade onde tudo acontecia. Daí mergulhei de vez no universo da cultura. Lá estudei e trabalhei com Rádio e TV e fiz minhas primeiras produções, e depois, já nos anos 90, trabalhei em Salvador.  No final da década de 1990 voltei para Maceió, para trabalhar no Teatro Deodoro. Fui coordenadora, diretora artística e cheguei a ser presidente da FUNTED, onde conheci minha companheira e sócia, Silvana Valença. Quando deixamos o Deodoro, decidimos abrir nossa própria empresa. 

PA – Quem faz a Sue Chamusca Arte e Assessoria? Quantos empregos diretos e quantos indiretos por show? 

SC - O núcleo central é for­mado apenas por 3 mulheres. Eu, Silvana Valença, e Marilia Chamus­ca que está com a gente desde início da nossa história. 

Chegamos a ter 6 funcionários fixos, mas o mercado cultural é difícil e as estruturas de trabalho mudaram muito nessa última dé­cada, e optamos por contratar equipes a cada evento. Depen­dendo do tamanho e da complexidade, o número de profissionais envolvidos varia entre 30 e 250 pessoas.  São artistas, técnicos, designers, divulgadores, auxiliares de produção, cenotécnicos, carregadores, motoristas, recepcionistas, bilheteiros, serviços gerais, camareiros...etc. É sempre muita gente envolvida. 

PA - Vocês já tinham algum conhecimento sobre produção artística? Hoje ainda há desafios desconhecidos ou todos já passaram por vocês? 

SC - Eu já tinha bons anos de estrada. Fiz muitas produções no Rio, trabalhei em teatros grandes como o João Caetano. Em Salvador também fiz várias produções, entre as quais a montagem de Equus, dirigida por Fernando Guerreiro, com Vladmir Brichta no papel principal. Já Silvana Valença é jornalista e foi editora de cultura por muito tempo, mas em produção começou comigo no Deodoro – sorte minha! – onde criamos e pro­duzimos os projetos Teatro é o Maior Barato, Música é o Maior Barato, a Semana do Teatro e fizemos 2 aniversários incríveis do teatro. 

PA - Como foi esse caminhar nos primeiros anos? 

SC - De cara, no primeiro ano da empresa, criamos e produzimos creio que um dos maiores e mais abrangentes projetos culturais de Alagoas, o Jaraguá Cultura. Chegamos a ocupar 12 equipamentos do Jaraguá, oferecendo ao público arte em suas mais variadas expressões. Além do Jaraguá Cultura, fizemos vários shows com artistas nacionais... Então no primeiro ano da produtora a gente não tinha tempo nem de respirar direito. 

PA- Quais os maiores obstáculos na época a serem vencidos? 

SC - Tirando o Jaraguá Cultu­ra, que era um projeto com pa­trocínio nacional e realização assi­nada pelo SEBRAE, tudo que fa­zíamos era sem qualquer tipo de apoio financeiro. Então nós éramos uma empresa nova, cheia de gás e com muitas ideias e sonhos para realizar. Muitas vezes o resultado do nosso trabalho não significava ter o retorno financeiro adequado, mas somos empreendedoras, amamos profundamente o que fazemos e, por isso, não desistimos. 

PA - Hoje ainda há desafios desconhecidos ou todos já passaram por vocês? 

SC - Cada produção é um desafio. Produzir é aprender todos os dias. Eu produzo para me sentir viva, para contribuir com a preservação da nossa identidade – o que nos difere de outros povos. Precisamos sempre estar atentas ao movimento, às novas tecnologias, ao surgimento de novos produtos, buscando aprimorar o nosso trabalho. 

PA – Quantos espetáculos Sue Chamusca trouxe para Alagoas?   

SC - Além dos projetos envolvendo centenas de artistas locais, trouxemos para Alagoas atrações que amamos e admiramos muito, como Maria Bethânia, Milton Nascimento, Gal Costa, Djavan, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Simone, Zizi Possi, Lenine, Zeca Baleiro, Adriana Calcanhotto, Zélia Duncan, Rosa Passos, Baianasystem, Vanessa da Mata, Silva, Anavitória, Roberta Sá, Geraldo Azevedo, Chico César e mais recentemente Marisa Monte. Outro presente que a vida nos deu foi trazer Mercedes Sosa, momento único e mágico que nos fortalece até hoje. Em teatro trabalhamos com Marieta Severo, Andréa Beltrão, Glória Menezes, Antônio Fagundes, Paulo Gustavo, Denise Fraga, Marco Nanini, Os Melhores do Mundo e Deborah Colker, com seus espetáculos incríveis. Grandes musicais: Tim Maia, Chacrinha, Cássia Eler, É Com Esse Que Eu vou, Mamonas Assassinas e dezenas de musicais infantis. Trouxemos também projetos nacionais extremamente importantes como o Sesi Bonecos do Mundo, Festival Internacional de Teatro de Objetos e RELIX. Já passamos de 1300 apresentações, das mais variadas linguagens artísticas. 

PA- Como é atrair um show para o nosso estado?   

SC - Nesses 20 anos conseguimos o reconhecimento do nosso trabalho pelos melhores produtores do Brasil. Hoje muitas produções nos procuram ou procuramos as produções. Outras vezes viajo para assistir espetáculos para pautar em Maceió. Geralmente conseguimos fechar os espetáculos que interessam a nós e principalmente ao nosso público.   

PA - Há receptividade dos artistas?   

SC - Sim e muita, não só dos artistas como dos produtores na­cionais. Todos adoram vir para cá.   

PA - A nossa bilheteria atende ao custo de cada show? Quanto custa produzir um show em Alagoas? Pauta, iluminação, som, etc. 

SC - Nem sempre. É bem complicado muitas vezes equacionar receita x despesas. O custo Maceió é bem mais alto do que boa parte das outras capitais do País. Outro fator que pesa é que temos apenas um teatro de médio porte que comporte grandes produções e não temos uma casa de espetáculo com estrutura necessária para shows e eventos para mais de 3 mil pessoas, por exemplo.  Por isso, às vezes temos que montar toda estrutura e o custo final de determinadas produções termina sendo bem salgado.   

PA - Quanto tempo entre o primeiro contato com o artista e a realização do show?   

SC - Depende muito. Quando se trata de turnê com nomes expressivos, é necessário um tempo maior porque requer uma logística envolvendo várias outras cidades para que viabilize o projeto como um todo. Mas em média levamos de 3 a 6 meses entre os primeiros contatos e a realização do evento. 

PA - Quais as principais exigências dos artistas? 

SC - Em 20 anos de produção em Maceió posso dizer que a grande maioria dos artistas com quem trabalhamos exige o que é necessário, nada muito excepcional. Se achamos que não comporta, conversamos e resolvemos, até porque excesso é muito cafona!   

PA - A pandemia foi difícil para todo mundo, em especial à cultura. Como foi para Sue Chamusca Arte e Assessoria sobreviver a essas dificuldades? Do que tiveram que abrir mão?   

SC - Foi extremamente difícil, sofrido. Em março de 2020 já tínhamos uma agenda com mais de 14 atrações e um grande projeto que iria percorrer 10 cidades do País. Já tínhamos inclusive pago despesas relativas a algumas dessas produções. Não temos outra fonte de renda, então tivemos que fazer um exercício diário para não entrar em desespero. Passamos a viver um dia de cada vez. Nos isolamos por 1 ano de 7 meses. Cortamos todo e qualquer tipo de despesa que não fosse de extrema necessidade. As coisas só começaram a clarear um pouco com a aprovação da Lei Aldir Blanc. Inscrevemos vários projetos que foram aprovados em quase sua totalidade. 

PA - A forma online funcionou para vocês?   

SC - Não. Se você já tem dificuldade em conseguir apoio e patrocínio para eventos presenciais em Alagoas, imagine on line.   

PA- O retorno, mais devagar do que a expectativa, começou quando para vocês? 

SC - Começou efetivamente em novembro de 2021, quando fizemos o show de Chico César e Geraldo Azevedo, o primeiro de­pois de 1 ano e 7 meses. Depois vieram Zeca Baleiro, Deborah Colker e no último dia 3 de maio, o incrível espetáculo de Marisa Monte.   

PA  - É possível estabelecer um valor dos prejuízos nessa fase e um valor que poderia ter entrado e não entrou? 

SC - Nossa agenda estava particularmente rica em eventos com uma perspectiva boa de receita, antes da pandemia. Passa­mos parte do ano de 2019 captando eventos e trabalhando em projetos próprios, todos adia­dos ou cancelados em 2020. Foi um longo período sem entrar di­nheiro, só os boletos continuaram chegando regularmente. Recebe­mos apoio das nossas famílias para enfrentar a crise e, na medida do possível, fomos conseguindo aos poucos um certo alívio. Mas a recuperação financeira da empre­sa vai demorar mais um tempo. O que não dá para recuperar é a vida de dezenas de parceiros, artistas, trabalhadores da cultura, amigos e pessoas que sempre estiveram presentes nas nossas plateias e que perderam a batalha para a COVID 19.   

PA – Nesse retorno, já é possível ampliar patrocínios? 

SC - Sinceramente, sempre foi muito difícil patrocínio. Temos parceiros apoiadores, mas dinheiro... O cenário nunca foi fácil. Quem sabe eu me surpreenda?! Afinal, são 20 anos... e com o mesmo CNPJ. 

PA - O governo federal tem chegado mais junto, ou não, da cultura?   

SC - Claro que não! A cultura gera milhões de empregos e impostos e foi utilizada largamente pela população para não entrar em parafuso durante o período mais duro da pandemia. Trouxe esperança, alívio e alegria para milhões de pessoas assustadas com essa desgraça que se abateu sobre o mundo e para nós aqui ceifou quase 670 mil vidas. Mas ao contrário de ser estimulada e apo­ia­da, a cultura brasileira vem sen­do alvo de perseguições, sofrendo um desmonte geral em todas as suas formas de expressão. Que tempos terríveis, os piores. Mas vamos dar a volta por cima.   

PA - O que seria bem-vindo na área de política pública, nes­te momento, para quem tra­balha com produção cultural? 

SC - A aprovação Lei Paulo Gustavo e a continuidade da Lei Aldir Blanc. E especificamente em Alagoas, também a efetiva aplicação da Lei Estadual para o segmento, porque até agora está só no papel, infelizmente. 

PA – Quais os projetos futuros da Sue Chamusca? 

SC - Muitos. Temos 3 projetos maravilhosos criados para Wilma Araújo, aprovados na Lei Aldir Blanc e que vão acontecer nos próximos meses. Um deles é o lançamento do primeiro disco de forró dela, que foi produzido por mim e que traz músicas de Djavan, Chico César, Jacinto Silva, Cátia de França, Júnior Almeida, e entre as inéditas uma de Zeca Baleiro, feita sob medida para Wilma e sua cidade. Os arranjos são de Beto Hortis e Fernando Nunes.  Abrimos também um instituto para ampliar nossas demandas sociais, intensificando as ações inclusivas que fazem parte do nosso DNA desde o primeiro momento em que começamos a fazer produção em Alagoas. 

PA – Tem agenda já fechada para todo o ano de 2022?   

SC - Começamos o ano com Zeca Baleiro, Deborah Colker e Marisa Monte. No final de maio teremos As Cangaceiras –(teatro musical) peça premiadíssima – ,  na sequência Os Melhores do Mundo, shows de Gal Costa, Ney Matogrosso, AnaVitória e várias outras atrações. Também vamos retomar os projetos “Dois Pra Lá, Dois Pra Cá – Clube da Dança”, o “Bloco da Wilma” e o “Pré-Reveillon da Wilma”, além do projeto em andamento sobre Jacinto Silva. 

PA - O que dizer, depois de 20 anos, para quem quer iniciar agora esse tipo de trabalho? Há mercado, há apoio, há visibilidade futura? 

SC - Tenha a mente aberta, determinação, paciência, procure trabalhar com profissionais qualificados e compromissados, tenha coragem e o coração forte. É uma atividade que exige demais, muitas vezes tira a nossa paz, mas quando a cortina abre, a gente esquece tudo e cai nos braços da felicidade plena. 


Fonte: Painel Alagoas

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