Por Carlos Amaral e Fernanda Moura
A humanidade sempre registra os grandes feitos que marcam sua existência o longo da História, da descoberta do fogo à invenção da roda, das grandes expansões imperiais como a romana à descoberta de rotas marítimas, das grandes invenções como o avião e de computadores. Conquistas dessa grandeza são estudados por séculos, são objeto de teses nas universidades, seus autores, quando identificados são reverenciados, se tornam exemplos aos quais se espelhar, mas a vida cotidiana não é isso. São as tarefas banais como calçar um tênis, tomar banho ou simplesmente caminhar alguns metros que nos fazem ser o que somos.
Mas tais ações se tornam quase impossíveis para pessoas que carregavam mais de 180 ou 200 quilos em seus próprios corpos. O excesso de peso não se traduz apenas em números na balança, mas em limitações físicas dolorosas, em um cansaço constante e em um profundo impacto psicológico, marcado pela depressão e pelo medo de morte precoce, além do isolamento social.
Segundo o DATASUS, em 2023 foram feitas 80.441 cirurgias bariátricas no Brasil, segundo país em que mais esse procedimento foi realizado, ficando atrás dos Estados Unidos. Apesar do ainda baixo acesso, entre 2011 e 2023, 764.502 cirurgias foram realizadas no Brasil, estas mais de 750 mil pessoas tiveram a chance de recuperar suas vidas, ganhando mobilidade, autoestima e novas perspectivas de futuro. Mais do que um procedimento médico, a bariátrica é um divisor de águas entre sobreviver e, finalmente, voltar a viver.

Letícia Assunção: antes e depois da bariátrica - foto: Arquivo Pessoal
A arquiteta Larissa Assunção e a administradora Letícia Assunção são irmãs e ambas passaram pela cirurgia bariátrica, promovendo giro de 180 graus em suas vidas e alterando o próprio futuro e, evidentemente, seu presente.
“O meu peso sempre teve impacto direto na minha saúde e na minha rotina diária. Eu sempre fui gordinha, e por isso a minha realidade era tentar adaptar as atividades do dia a dia à forma como eu vivia. Mas, mesmo assim, eu sentia muitas limitações: sentar em determinadas cadeiras era desconfortável, andar me cansava demais e, pouco a pouco, essas dificuldades foram se acumulando. Meus exames até pareciam normais, mas, com o tempo, meu corpo começou a dar sinais claros de que algo não estava certo”, relembra Larissa, que chegou a pesar 188 quilos antes de passar pela cirurgia bariátrica.
Já Letícia, que atingiu os 200 quilos de peso corporal, destaca que as atividades cotidianas se tornaram grandes desafios.
“Eu estava em um momento depressivo, não me reconhecia mais, tinha dificuldades de andar, cansava muito, não respirava direito e ainda não tinha forças para fazer nada, coisas simples como calçar um tênis, comprar uma roupa, nada disso eu conseguia mais, até fazer as atividades de casa, tomar banho, era tudo difícil e eu achava que ia morrer”, relata a administradora.

A arquiteta Larissa Assunção antes do procedimento, durante e depois; ela ainda enfrentou um câncer durante o processo cirurgico. - Fotos: Arquivo Pessoal
Antes de chegar à sala de cirurgia, as pessoas que buscam a cirurgia bariátrica têm de passar por uma preparação rigorosa que envolve não só o corpo, mas também a mente. O processo inclui desde exames clínicos detalhados à avaliação cardiológica e endocrinológica, além de acompanhamento psicológico para lidar com as mudanças de rotina e de autoimagem e orientação nutricional para corrigir deficiências, iniciar novos hábitos alimentares. Em muitos casos é preciso que os pacientes percam peso antes da cirurgia para redução de riscos.
Preparação física com exercícios adequados e fisioterapia respiratória pode ser indicada, assim como o controle de doenças associadas, como diabetes, hipertensão e apneia do sono. Também existe a necessidade de parar de fumar, rever uso de medicamentos e se preparar para uma dieta restrita do pós-operatório. Ou seja, a bariátrica não começa na cirurgia: é um processo multidisciplinar que garante segurança e eficácia a longo prazo.
“Quando eu tomei a decisão, coloquei na cabeça que precisava antes de tudo, tratar minha mente que estava bagunçada, perdida e achando que não tinha mais chances. Então, antes de fazer a cirurgia, fiz um ano de terapia para melhorar a minha depressão e entender todas as mudanças que viriam e 6 meses antes de fazer a cirurgia, entrei na academia e comecei a me preparar, melhorando minha alimentação e fazendo exercícios todos os dias. Não foi fácil, algumas vezes eu quis desistir, mas a terapia estava me ajudando. Por isso, consegui atingir o peso necessário para realizar a cirurgia de forma segura”, comenta Letícia.
Mas e se durante o processo preparatório, o paciente tiver que lidar com um câncer? Esse foi o desafio enfrentado por Larissa.
“Descobrir um câncer raro foi um choque enorme e enfrentar esse tratamento já seria desafiador por si só. Mas a obesidade trouxe ainda mais obstáculos. Muitas máquinas não suportavam o meu peso, o que limitava alguns exames importantes”, comenta. “Além disso, na quimioterapia, a dosagem que precisaria ser aplicada em mim poderia ser muito forte e acabar me deixando extremamente debilitada. Ou seja, meu peso não só afetava minha rotina e minha saúde no dia a dia, mas também colocava em risco a eficácia e a segurança do tratamento oncológico. Foi nesse momento que percebi, de forma muito clara, o quanto a obesidade estava comprometendo minha vida de várias maneiras”, completa a arquiteta.

RECONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE E AUTOCUIDADO
Ingrid Amaral (foto) é assistente social e trabalha com pacientes bariátricos para ajudá-los com os impactos, além dos físicos, aos quais aqueles que passam pela cirurgia precisam lidar.
“Após a cirurgia bariátrica, observamos mudanças significativas nas relações sociais dos pacientes. Muitos relatam uma melhora na autoestima, o que contribui para maior abertura ao convívio social, retorno a atividades antes evitadas, como eventos familiares ou encontros com amigos, e até mesmo reingresso no mercado de trabalho. Percebemos que, ao se sentirem mais confiantes, os pacientes tendem a fortalecer laços antigos e a construir novas conexões. Além disso, há uma transformação na forma como se posicionam em suas relações. Eles tornam-se mais ativos, e com maior senso de pertencimento nos espaços que frequentam”, comenta.
Para Ingrid Amaral, o apoio social e psicológico é essencial no processo de reconstrução da identidade e de autocuidado.
“A cirurgia é apenas uma etapa de um caminho mais amplo, que envolve mudanças profundas no estilo de vida e na forma como a pessoa se enxerga e se relaciona com o mundo. O suporte da equipe multidisciplinar, incluindo o Serviço Social, oferece ao paciente um espaço de escuta, acolhimento e orientação. Esse acompanhamento contribui para que o indivíduo compreenda os desafios do processo, desenvolva estratégias de enfrentamento e reconheça suas conquistas. Dessa forma, fortalecem-se a autoestima, a autonomia nas decisões e a esperança de uma vida com mais qualidade e propósito”, explica a assistente social.
Após realizarem a cirurgia, as irmãs Larissa e Letícia Assunção passaram a ter uma vida completamente diferente, com as atividades cotidianas deixando de ser grandes desafios.
“Fisicamente, as mudanças foram muito marcantes. Hoje, eu consigo andar sem sentir cansaço, cruzar as pernas com facilidade, escolher roupas que realmente gosto e não apenas as que cabem em mim. Coisas que parecem simples para muitos, para mim se tornaram vitórias enormes, mas o impacto mais profundo foi no lado emocional. Recuperar minha autoestima e minha autoconfiança foi libertador. Eu deixei de apenas sobreviver e passei a viver de verdade. Passei a acreditar mais em mim, a me sentir mais leve não só no corpo, mas também na alma. A bariátrica não foi só uma cirurgia de estômago, foi uma cirurgia de vida: me devolveu a vontade de sonhar, de me permitir e de me sentir capaz de realizar qualquer coisa que eu quiser”, diz Larissa, que perdeu 106 quilos.
“Sim, eu acredito de coração que a cirurgia bariátrica salvou a minha vida duas vezes. A primeira foi quando, durante os exames preparatórios, descobrimos que havia algo errado com minha saúde, e isso me permitiu diagnosticar um câncer raro logo no início, o que foi fundamental para o tratamento. E a segunda foi depois da cirurgia em si: ela me devolveu minha autoestima, minha liberdade e a vontade de viver leve. Hoje eu posso fazer coisas que antes eram impossíveis, desde simples gestos como cruzar as pernas até sonhar e planejar meu futuro sem as limitações que a obesidade me impunha. Não foi apenas uma mudança no meu corpo, foi um verdadeiro renascimento”, completa Larissa.
Já Letícia ressalta a elevação da autoestima e o fim de olhares julgadores, após perder 111 quilos.
“A mudança na saúde é significativa, não tenho mais oscilações de pressão, nem de glicose, minhas taxas estão regulares e minha saúde em perfeito estado. Consegui aumentar expressivamente a massa muscular e diminui a gordura corporal e isso me trouxe um corpo mais resistente, mais bonito e mais saudável. A autoestima está elevada, hoje eu gosto de me arrumar, me olhar no espelho e isso refletiu positivamente no meu trabalho, nas minhas relações, em tudo ao meu redor e hoje eu colho ótimos frutos da escolha de mudar minha vida”, destaca. “O julgamento vinha de todos os lados, colegas, família, as pessoas apontam o dedo e te julgam, te chamam de irresponsável por ter se deixado chegar aquela situação, mas não sabem quais fatores externos te levam a chegar a 200 quilos. E isso afeta ainda mais um psicológico que já está fragilizado e aí comecei a fazer dietas malucas, querer passar fome, até vontade de morrer por não me encaixar nesse padrão que todo mundo exigia que eu tivesse e que era inaceitável eu ser tão gorda e que era culpa minha e a gente acaba se culpando e prefere se isolar para não ‘obrigar’ as pessoas a ver um corpo tão diferente na sociedade. Muitas vezes eu me sentia na obrigação de estar sempre mais arrumada, mais cheirosa, ser a mais competente no meu trabalho porque eu estava o tempo todo tentando provar que, apesar de ser tão obesa, eu estava compensando a sociedade ao meu redor com outros fatores ‘aceitáveis’ como estar bem vestida, cheirosa, limpa e ser muito competente”, completa Letícia.
COMPLICAÇÕES ÍNFIMAS
A cirurgia bariátrica está cada vez mais naturalizada, mas ainda é alvo de muita desinformação acerca de seus riscos durante e após as cirurgias. Bruno Mota (foto) é cirurgião bariátrico há mais de 20 anos e explica como os procedimentos da cirurgia se modernizaram, se tornando mais seguros e os benefícios à saúde dos pacientes.
“O conceito mais moderno de cirurgia bariátrica são alterações cirúrgicas promovidas no trato digestivo, envolvendo principalmente estômago e intestino, que tem como objetivo liberação de estímulos hormonais e neuronais, melhorando o metabolismo do paciente, diminuindo sua fome, aumentando sua saciedade e com importante efeito também no controle de comorbidades. Estudos científicos demonstram que a segurança da cirurgia bariátrica é extremamente elevada, cujo grau de segurança passou a ser superior a uma cirurgia de remoção da vesícula que é colecistectomia ou de histerectomia que é retirada do útero. Lógico, respeitando alguns pré-requisitos feitos num hospital adequado, com equipe especializada, com preparo pré e pós-operatório adequado e com material cirúrgico adequado. O índice de complicações, hoje, tem um valor inferior a 0,03%”, relata cirurgião bariátrico.

“Os benefícios da cirurgia bariátrica vão muito, mas muito, além da perda de peso. Geralmente, o paciente com cirurgia bariátrica consegue promover uma perda de peso na ordem de 35% a 50% em casos mais graves. Mas o efeito principal se dá em relação à lenda do controle das comorbidades como pressão alta, diabetes, colesterol alto, gordura no fígado. A cirurgia bariátrica, de forma muito intensiva, um controle e diminuição do risco de doença cardiovascular. Como eu sempre falo, não existe obesidade saudável, toda pessoa acima do peso é um paciente com risco aumentado de doença cardiovascular no futuro. Além disso, já foi identificada uma correlação direta entre obesidade e 13 tipos de câncer, fazendo com que você se proteja desses tipos de câncer, além de, lógico, melhorar em muito a qualidade de vida e autoestima”, afirma Bruno Mota.
O cirurgião destaca que obesidade é uma doença reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e, como tal, deve ser tratada. Porém, ainda permeada de preconceitos, onde a culpa é colocada paciente.
“Existe muito preconceito e o estigma contra a obesidade. Infelizmente, a obesidade, apesar de ser considerada uma doença pela Organização Mundial de Saúde, o doente é, socialmente falando, culpado de tê-la. Muitas das vezes, pela sensação de culpa, o paciente absorve essa ideia e para a acreditar que por ter causado o problema em si mesmo, é sua obrigação – e única forma – se curar tentando esforços de forma individualizada e sem acompanhamento adequado. Obviamente, os resultados serão muito ruins” comenta. “A obesidade é uma coisa caracterizada pelo metabolismo obesogênico que, através de alterações hormonais, genéticas e metabólicas, faz com que o paciente tenha uma facilidade enorme de subir o peso, uma dificuldade extrema de perder peso”, explica Bruno Mota ao apontar quem mais se beneficia da cirurgia bariátrica.
“Os pacientes com IMC [Índice de Massa Corporal] acima de 40 ou acima de 35 com doenças associadas são os que mais se beneficiam. Em situações específicas, já operamos pessoas com IMC a partir de 30, especialmente quando há diabetes de difícil controle. Mas não é só a balança que decide. Nós avaliamos histórico, saúde geral, tentativas de emagrecimento e preparo emocional. A cirurgia é uma ferramenta poderosa, mas precisa ser usada no momento certo e com acompanhamento adequado. A equipe multidisciplinar é essencial. Eu costumo dizer que o cirurgião não faz nada sozinho. Nutricionistas, psicólogos, endocrinologistas, fisioterapeutas, todos têm papéis fundamentais no preparo e no acompanhamento. Esse cuidado em conjunto dá segurança, ajuda na adaptação e garante que os resultados sejam sustentáveis ao longo do tempo”, esclarece o cirurgião bariátrico.
OBESIDADE É PANDEMIA
A obesidade deixou de ser uma preocupação isolada para ser classificada como pandemia em 1997, como uma crise crônica e estrutural que já acomete mais de 1 bilhão de pessoas no mundo, sendo cerca de 879 milhões de adultos e 159 milhões de crianças e adolescentes, segundo dados da OMS. Isso equivale a um em cada oito habitantes do planeta acometidos pela doença, um número que só cresce, especialmente entre os jovens, onde o índice quadruplicou desde 1990.
Se esse ritmo continuar, a previsão é que, até 2050, mais da metade dos adultos e um terço das crianças e jovens estarão com sobrepeso ou obesidade, totalizando cerca de 3,8 bilhões de adultos e 746 milhões de jovens impactados.
Além do impacto individual, a obesidade gera consequências para sistemas de saúde e à economia, pois aumenta significativamente os riscos de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer, além de reduzir a expectativa de vida e elevar os custos médicos e sociais. Esses impactos são maiores em países mais pobres.
As irmãs Larissa e Letícia Assunção são exemplos de superação a serem seguidos e têm consciência disso, tanto que divulgam sua rotina e mudanças às quais estão passando nas redes sociais, através do perfil @baridelas.
“Não desista de você. A obesidade grave somada a problemas de saúde pode parecer um peso impossível de carregar, mas sempre existe um caminho. Procure ajuda, cuide de cada etapa com paciência e se permita acreditar que sua vida pode ser diferente. Eu sei que não é fácil, porque já estive nesse lugar de dor e limitação, mas posso garantir que a mudança é possível. Valorize cada pequena conquista, porque são elas que, juntas, constroem uma nova vida. Nunca se esqueça: você merece viver leve, com saúde, autoestima e esperança”, diz Larissa.
“Procurem os profissionais certos, se informem, obesidade é uma doença e precisa ser tratada por profissionais, nutricionista, médicos endocrinologistas, cirurgiões bariátricos. Não adianta procurar receitas milagrosas com blogueiros que não tem base acadêmica ou científica, é preciso buscar a equipe profissional, tanto pelo plano de saúde ou pelo SUS que também fornecem gratuitamente esse programa de bariátrica com toda a equipe multidisciplinar”, recomenda Letícia.
Fonte: Painel Alagoas