A explosão das apostas esportivas no Brasil deixou de ser apenas um tema econômico ou de entretenimento para se tornar uma preocupação de saúde pública. Com relatos cada vez mais frequentes de pessoas que perderam patrimônio, comprometeram a renda da família e desenvolveram quadros graves de sofrimento emocional após sucessivas perdas em plataformas de apostas, especialistas alertam que o país pode estar diante de uma nova porta de entrada para o adoecimento mental.
Embora o vício em apostas já seja reconhecido internacionalmente como um transtorno comportamental, os impactos indiretos sobre a saúde mental também chamam atenção. Uma pesquisa inédita da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN), realizada em parceria com o Instituto Axxus, mostra que 81,9% das pessoas diagnosticadas com ansiedade, depressão, estresse crônico ou síndrome de Burnout afirmam que as dificuldades financeiras tiveram participação relevante no desenvolvimento ou agravamento do transtorno.
O levantamento ouviu mil brasileiros de todas as regiões do país que possuem diagnóstico formal de transtornos mentais. Entre eles, 34,6% apontaram as dificuldades financeiras como o principal gatilho para o adoecimento, índice superior ao de problemas relacionados ao trabalho (20,5%), relacionamentos (11%), separação (10,9%), doenças (8,3%) e luto (5%).
Para especialistas, esse cenário ajuda a explicar por que as apostas esportivas passaram a preocupar profissionais de saúde mental e educação financeira. Quando as perdas financeiras provocadas pelas bets se acumulam, aumentam também a ansiedade, o sentimento de culpa, o isolamento social, os conflitos familiares e, em casos extremos, relatos de pessoas que passam a enxergar decisões drásticas como única saída para escapar das dívidas.
"O que estamos observando é um ciclo extremamente perigoso. Muitas pessoas entram nas apostas acreditando que irão resolver problemas financeiros ou conquistar uma renda extra. Quando as perdas aparecem, a tendência é tentar recuperar o dinheiro apostando ainda mais. Esse comportamento aumenta o endividamento, gera culpa, desesperança e pode desencadear ou agravar transtornos emocionais. Em situações extremas, infelizmente, vemos relatos de pessoas que perdem completamente a perspectiva sobre o futuro", afirma Reinaldo Domingos, PhD em Educação Financeira, presidente da ABEFIN e da DSOP Educação Financeira.
Copa amplia exposição às apostas
Segundo Reinaldo Domingos, a realização da Copa do Mundo intensifica ainda mais esse processo ao transformar as apostas em parte da experiência esportiva. "Nunca as apostas estiveram tão presentes em um grande evento esportivo. Elas aparecem nas transmissões, nos uniformes, nas redes sociais e no conteúdo consumido diariamente por milhões de brasileiros. O risco é normalizar a ideia de que ganhar dinheiro por meio da aposta faz parte do cotidiano. Estamos formando uma geração que aprende sobre dinheiro pela lógica da sorte, e não pela lógica do planejamento, da construção patrimonial e do equilíbrio financeiro."
O especialista destaca que o problema vai muito além da regulamentação do setor. "Não estamos falando apenas de apostas, mas de comportamento financeiro. Quando a expectativa de ganho rápido substitui o planejamento, cresce também a frustração diante das perdas. E essa frustração tem consequências emocionais profundas. O dinheiro e a saúde mental estão muito mais conectados do que a maioria das pessoas imagina."
Efeitos vão muito além das finanças
A pesquisa da ABEFIN mostra que os impactos das dificuldades financeiras atingem praticamente todos os aspectos da vida dos entrevistados.
Entre aqueles que convivem com transtornos mentais:
Outro dado preocupante mostra que 67,2% têm uma visão pessimista sobre o próprio futuro financeiro, enquanto apenas 20% acreditam que sua situação econômica irá melhorar.
Educação financeira como prevenção
Para Reinaldo Domingos, enfrentar o avanço das apostas exige uma estratégia que vá além da fiscalização das plataformas. "Precisamos ensinar crianças, jovens e adultos a diferenciar investimento de aposta, oportunidade de ilusão e patrimônio de sorte. Educação financeira também é prevenção em saúde mental. Quando as pessoas aprendem a lidar melhor com dinheiro, desenvolvem autocontrole, consciência sobre riscos e capacidade de tomar decisões mais equilibradas. Isso reduz não apenas o endividamento, mas também o sofrimento emocional que tantas famílias enfrentam hoje."
Ele conclui que o debate precisa ganhar urgência. "As bets não podem ser analisadas apenas sob a ótica econômica ou esportiva. Estamos diante de uma questão de saúde pública. Se não enfrentarmos esse problema agora, corremos o risco de assistir ao crescimento de uma geração mais endividada, emocionalmente fragilizada e cada vez mais vulnerável aos efeitos do jogo."
Sobre Reinaldo Domingos
Reinaldo Domingos é PhD em Educação Financeira, presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (Abefin -Link) e da DSOP Educação Financeira (Link). Autor de diversos livros sobre o tema, como o best-seller Terapia Financeira .
Fonte: Assessoria de Imprensa da ABEFIN