A aproximação entre moda e balé está ganhando uma nova dimensão. Mais do que uma tendência estética baseada em sapatilhas, tule e tons delicados, grandes marcas internacionais estão percebendo na dança clássica um território privilegiado para associar suas imagens a valores como sofisticação, disciplina, criatividade e excelência artesanal.
É esse movimento que a Vogue Business identifica ao analisar o crescente interesse da indústria da moda pelo universo do balé.
A relação, naturalmente, não começou agora. Nos anos 1920, Coco Chanel já apoiava a companhia Ballets Russes, de Serge Diaghilev, e chegou a desenvolver figurinos para Le Train Bleu, apresentado em 1924.
Um século depois, porém, essa ligação parece entrar em uma nova fase.
O balé atravessa um período de renovado interesse cultural, especialmente entre públicos mais jovens. Em um momento dominado pela velocidade das redes sociais e pelo consumo instantâneo de conteúdo, a dança clássica oferece praticamente o oposto: técnica, tradição, concentração, disciplina e anos de aperfeiçoamento.
Para as marcas de luxo, esses atributos são extremamente valiosos.
A Vogue Business observa que empresas procuram cada vez mais associações culturais capazes de transmitir prestígio de maneira autêntica, em vez de simplesmente acrescentar celebridades a campanhas publicitárias.
O interesse crescente das novas gerações também ajuda a explicar o movimento. O Royal Ballet and Opera, em Londres, recebe aproximadamente um milhão de visitantes por ano em Covent Garden e comercializa mais de 660 mil ingressos durante sua temporada. Cerca de 18% desse público vem de outros países.
As redes sociais ampliaram ainda mais esse alcance.
A aproximação entre os dois universos pode ser observada em parcerias de longa duração. A Chanel, por exemplo, mantém relação histórica com a dança e é importante patrocinadora da Ópera de Paris, além de participar há seis anos do BAAND Together Dance Festival, realizado no Lincoln Center.
A Rolex mantém uma parceria de aproximadamente 18 anos com o Royal Ballet and Opera e atualmente ocupa a posição de principal parceira da Royal Opera.
Mas essa ligação ultrapassa o patrocínio institucional.
Bailarinos começam também a assumir um papel semelhante ao de novos influenciadores culturais da moda.
A bailarina Francesca Hayward, do Royal Ballet, já trabalhou com marcas como Burberry, Armani e Chanel, mostrando como artistas da dança podem estabelecer uma conexão natural entre performance, moda e luxo.
Há também intercâmbio no sentido contrário: estilistas passam a trabalhar diretamente dentro do universo do balé.
Daniel Lee, diretor criativo da Burberry, desenvolveu figurinos para uma produção do coreógrafo Wayne McGregor no Royal Ballet. Criadores como Roksanda, Gareth Pugh e Saul Nash também já levaram suas linguagens de moda para os palcos.
Para Saul Nash, essa experiência permitiu apresentar seu trabalho a um público cultural diferente daquele normalmente alcançado pelas passarelas.
Existe ainda outra razão particularmente interessante para a moda se aproximar da dança: o movimento.
Uma roupa apresentada sobre um corpo em movimento revela características que uma fotografia convencional dificilmente consegue reproduzir. Volume, fluidez, construção, leveza e comportamento dos tecidos tornam-se parte do espetáculo.
Marcas como Issey Miyake, historicamente interessadas na relação entre roupa e movimento corporal, encontram na coreografia uma ferramenta particularmente poderosa para apresentar suas criações.
Por isso, a influência do balé sobre a moda em 2026 precisa ser compreendida além do chamado balletcore.
Sapatilhas, fitas, bodies, transparências, malhas, leggings, saias fluidas e referências ao guarda-roupa das bailarinas continuam aparecendo — inclusive nas tendências recentes de calçados.
Mas o fenômeno atual é maior.
A dança está se tornando para a moda um universo cultural completo, capaz de oferecer estética, narrativa, tradição e experiência.
Também existe um componente de exclusividade. Para consumidores de alto poder aquisitivo, participar de apresentações, galas e eventos ligados às grandes instituições culturais pode oferecer uma experiência considerada mais significativa do que simplesmente comparecer a outro evento promocional de uma marca.
É justamente aí que balé e luxo se encontram.
Ambos dependem de tempo, técnica, execução, tradição e atenção aos detalhes.
Em uma indústria constantemente pressionada a produzir a próxima novidade, o balé oferece algo paradoxalmente moderno: a valorização daquilo que exige tempo para ser construído.
Talvez por isso a moda esteja novamente descobrindo que, antes mesmo das passarelas, o palco já sabia transformar roupa, corpo e movimento em espetáculo.
Com informações Vogue
Etcetera
por Ricardo Leal
Publicitário, radialista, poeta e escritor. Carioca, radicado em Alagoas desde 2002, trabalhou em diversas campanhas eleitorais no estado. Foi diretor da Organização Arnon de Melo (OAM) e do Instituto Zumbi dos Palmares (IZP). Atualmente CEO - Press Comunicações, Diretor/Editor - Revista Painel Alagoas e Editor - Coluna Etcetera (impressa e digital)