A campanha eleitoral mal começou e uma das perguntas mais interessantes da sucessão estadual já está colocada: a eleição para o Governo de Alagoas será decidida essencialmente pelos temas alagoanos ou acabará absorvida pela polarização nacional?
A resposta ainda está longe de ser conhecida.
Mas os primeiros movimentos das campanhas mostram que essa disputa não ocorrerá apenas entre candidatos. Haverá também uma disputa pela própria narrativa da eleição.
De um lado está Renan Filho, ex-governador, senador e ex-ministro do governo Lula. Do outro, JHC, ex-prefeito de Maceió, que chega à campanha estadual procurando projetar para o restante de Alagoas a experiência administrativa construída na capital.
São trajetórias diferentes e, consequentemente, oferecem caminhos diferentes para a construção das respectivas campanhas.
Para Renan Filho, a aproximação com a eleição nacional pode representar um ativo político. Sua relação com Lula é conhecida, assim como sua passagem pelo Ministério dos Transportes. A associação entre as duas candidaturas, portanto, não precisa ser artificialmente construída: ela já existe politicamente.
A tendência de transformar essa proximidade numa das marcas da campanha parece natural.
Mas existe uma segunda consequência nessa estratégia.
Quanto mais Renan aproximar sua candidatura da de Lula, maior será a tentativa de empurrar JHC para o campo político adversário, transformando uma disputa estadual em uma espécie de extensão alagoana da eleição presidencial.
É justamente aí que começa o dilema de JHC.
Para o tucano, pode ser eleitoralmente mais conveniente preservar uma identidade estadual para sua candidatura, concentrando o discurso em administração, obras, serviços públicos e na experiência acumulada à frente da Prefeitura de Maceió.
Isso não significa ausência de alianças nacionais.
Significa apenas que uma coligação partidária e uma estratégia eleitoral não são necessariamente a mesma coisa.
E Alagoas oferece exemplos suficientes para demonstrar isso.
Talvez nenhum lugar represente melhor essa peculiaridade do que Arapiraca.
A formação das chapas estaduais transformou o segundo maior colégio eleitoral do estado em uma espécie de laboratório das alianças cruzadas.
Yale Fernandes, escolhido como vice de Renan Filho, possui trajetória profundamente ligada à política arapiraquense e ao grupo do prefeito Luciano Barbosa. Já Célia Rocha, ex-prefeita da cidade, ocupa a vice na chapa de JHC. Curiosamente, Célia e Yale já administraram Arapiraca juntos — ela como prefeita e ele como vice — e agora aparecem em lados diferentes da disputa estadual.
É difícil encontrar imagem melhor da política alagoana contemporânea.
Enquanto as campanhas tentam construir dois grandes campos, a política municipal insiste em produzir pontes entre eles.
E essas pontes não são necessariamente fruto de incoerência.
A política estadual é formada por relações acumuladas durante décadas: prefeitos, deputados, lideranças municipais, famílias políticas e grupos regionais mantêm compromissos que frequentemente sobrevivem às mudanças de partido e às alianças estabelecidas para uma determinada eleição.
O caso de Arapiraca mostra isso com particular clareza. Reportagem do Metrópoles publicada nesta quinta-feira descreve justamente como o grupo político ligado ao prefeito Luciano Barbosa conseguiu manter influência nas duas chapas mais competitivas da eleição estadual.
É nesse ambiente que a tentativa de nacionalizar a campanha encontrará seus limites.
A política nacional gosta de fronteiras claras.
Lula de um lado. Flávio Bolsonaro do outro.
Governo contra oposição.
Esquerda contra direita.
A política alagoana raramente oferece tamanha simplicidade.
Um prefeito pode apoiar um candidato ao Governo e escolher senadores pertencentes a campos diferentes. Um deputado pode estar numa coligação e manter relações políticas com integrantes da outra. Uma liderança municipal pode apoiar Lula para presidente sem necessariamente reproduzir a mesma composição na eleição estadual.
Foi justamente essa característica que discutimos recentemente ao analisar os chamados palanques cruzados.
A eleição de 2026 poderá levar esse fenômeno ao limite.
Renan Filho tem motivos políticos para tentar transformar sua proximidade com Lula em vantagem eleitoral.
JHC tem razões igualmente compreensíveis para procurar manter a discussão concentrada em Alagoas.
Nenhuma dessas estratégias, entretanto, será construída no vazio.
Entre Brasília e o Palácio República dos Palmares existem 102 municípios, dezenas de grupos políticos e milhares de relações locais que não necessariamente obedecem à lógica estabelecida pelas direções partidárias nacionais.
É nesse território que a eleição realmente acontecerá.
A polarização presidencial certamente estará presente. Seria ingenuidade imaginar o contrário.
Mas talvez o grande desafio das duas principais campanhas seja descobrir até onde ela consegue chegar.
Porque uma coisa é tentar dividir politicamente Alagoas em dois grandes campos.
Outra, bem diferente, é convencer a política alagoana a permanecer dentro deles.
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