Em 2009, o Supremo Tribunal Federal tomou uma decisão que alterou profundamente o exercício do jornalismo no Brasil.
Por 8 votos a 1, derrubou a exigência do diploma de curso superior em Jornalismo para o exercício profissional, entendendo que a obrigatoriedade contrariava princípios constitucionais relacionados à liberdade de expressão.
Passados dezessete anos, talvez seja hora de perguntar se aquela decisão continua respondendo adequadamente à realidade brasileira.
O mundo da informação mudou.
As redes sociais transformaram qualquer cidadão em potencial produtor e distribuidor de conteúdo. Celulares tornaram-se câmeras, plataformas digitais assumiram parte da função anteriormente exercida pelos meios tradicionais e uma informação falsa pode alcançar milhões de pessoas em poucos minutos.
Nada disso deveria ser combatido restringindo a liberdade de expressão.
Todo cidadão deve continuar tendo o direito de falar, escrever, publicar, criticar e manifestar sua opinião.
Mas há uma diferença fundamental entre exercer a liberdade de expressão e exercer profissionalmente o jornalismo.
Um cidadão pode comentar uma decisão judicial.
O jornalista precisa saber apurá-la.
Pode criticar um político.
O jornalista precisa ouvir os lados envolvidos.
Pode reproduzir uma informação recebida pelo WhatsApp.
O jornalista tem obrigação profissional de verificar sua procedência antes de publicá-la.
Jornalismo pressupõe método.
Exige apuração, checagem, conhecimento sobre legislação, responsabilidade com fontes, respeito ao contraditório, compreensão dos limites entre interesse público e exposição privada e, principalmente, consciência das consequências provocadas pela publicação de uma informação.
Nada disso nasce automaticamente com a criação de um perfil numa rede social.
E chegamos a uma situação paradoxal.
O Brasil exige formação específica para inúmeras atividades profissionais justamente porque reconhece que determinadas funções possuem responsabilidade social.
Ao jornalismo, cuja matéria-prima é um dos pilares de qualquer democracia — a informação — decidiu-se dispensar a qualificação profissional obrigatória.
A discussão ressurgiu agora dentro do próprio STF. Flávio Dino e Alexandre de Moraes defenderam neste mês uma rediscussão da decisão de 2009 diante da nova realidade informacional produzida pelas redes sociais.
É importante, entretanto, que essa discussão seja conduzida com cuidado.
Regulamentar jornalismo não pode significar regulamentar opinião.
Muito menos entregar ao Estado o poder de decidir quem pode ou não criticar governos, autoridades ou instituições.
Esse caminho seria perigosíssimo.
A liberdade de imprensa precisa permanecer absoluta dentro dos limites estabelecidos pela própria Constituição e pelas leis.
A regulamentação deve servir para proteger a profissão, não para controlar seu conteúdo.
E talvez esteja justamente aí a oportunidade de corrigir o problema criado em 2009 sem produzir outro ainda maior.
A PEC 206/2012, aprovada pelo Senado e atualmente pronta para apreciação pelo plenário da Câmara, restabelece a exigência de formação superior em Jornalismo, mas preserva exceções importantes. Especialistas poderiam continuar produzindo conteúdos técnicos, científicos ou culturais, e profissionais que já exerciam regularmente a atividade seriam preservados.
Esse é um debate que o Congresso deveria finalmente enfrentar.
Porque defender a formação profissional não significa afirmar que somente uma universidade é capaz de produzir bons jornalistas.
A história do jornalismo brasileiro provaria facilmente o contrário.
Significa reconhecer que uma profissão precisa possuir critérios para ser profissão.
Também significa valorizar milhares de jovens que passam anos nas universidades aprendendo reportagem, edição, ética, legislação, comunicação, fotografia e tantas outras disciplinas necessárias ao exercício da atividade.
Que sentido existe em formar jornalistas se, juridicamente, a qualificação específica é considerada desnecessária para exercer o jornalismo?
O problema tornou-se ainda mais evidente na era da desinformação.
Nunca tivemos tanta informação disponível.
E talvez nunca tenha sido tão difícil distinguir informação, opinião, propaganda, manipulação e mentira deliberada.
É justamente nesse ambiente que o jornalismo profissional se torna ainda mais necessário.
Não precisamos de menos liberdade.
Precisamos de mais responsabilidade associada à liberdade.
O cidadão deve continuar tendo todo o direito de publicar.
O especialista deve continuar podendo escrever sobre sua área.
O articulista deve continuar opinando.
O influenciador deve continuar produzindo conteúdo.
Mas nenhuma dessas atividades precisa ser artificialmente chamada de jornalismo para possuir legitimidade.
Jornalismo é outra coisa.
É técnica, responsabilidade, compromisso público, dever de apuração e obrigação de responder profissionalmente pelo que se publica.
Dezessete anos depois, o Brasil tem elementos suficientes para reabrir essa discussão.
Não para ressuscitar simplesmente uma legislação do passado.
Mas para construir uma regulamentação compatível com o jornalismo do presente.
Liberdade de expressão é direito de todos.
Jornalismo é profissão.
E reconhecer uma coisa não ameaça a outra.
Ao contrário.
Pode ser exatamente uma maneira de proteger as duas.
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