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19/06/2026 às 14h00

Cultura

Comidas típicas carregam histórias e mantêm viva a tradição do São João

Receitas atravessam gerações e garantem o sustento de comerciantes há décadas

Foto: Victor Vercant/Secom Maceió

“Olha o mungunzá, hein? Vai passando o mungunzá!”

Há duas décadas, esse bordão ecoa pelas ruas de Maceió. É José Germano que, de bicicleta, percorre bairros da capital vendendo mungunzá e sopa de porta em porta. Neste período junino, histórias como a dele ajudam a preservar tradições e mostram como a gastronomia típica segue viva no cotidiano dos alagoanos.

A tradição veio de família. O pai já trabalhava com a venda de mungunzá e a mãe era camelô. Hoje, José mantém a atividade durante todo o ano, mas é em junho que as encomendas aumentam e reforçam a renda.

Aos 66 anos, a rotina começa cedo. A produção tem início às 11h e, por volta das 16h30, ele sai de casa para percorrer o trajeto que inclui a Ladeira do Óleo, no Jacintinho, Cruz das Almas, Jatiúca e o Conjunto Santo Eduardo, no Poço. O retorno acontece apenas à noite, e quase sempre sem sobras.

“Foi de pai para filho. Minha clientela é muito boa, uso produtos tradicionais e naturais. Todos os dias eu saio com 20 litros de mungunzá e 20 litros de sopa e volto para casa sem nada. O mungunzá me trouxe liberdade e segurança. Todos elogiam a qualidade e o atendimento. Para mim, isso representa história e tradição”, conta.

Mais do que vender alimentos, quem vive do milho mantém acesa uma herança cultural que atravessa gerações.

No bairro Graciliano Ramos, essa tradição também resiste há quase três décadas. É difícil passar pela Da Terra das Tapiocas sem sentir o cheiro de mungunzá, bolo de milho, canjica, pamonha e milho cozido. O negócio foi fundado em 1996 por Dona Lau (in memoriam), mãe de Jaqueline, que começou com uma pequena barraca montada na esquina da rua.

Foto: Victor Vercant/Secom Maceió
Foto: Victor Vercant/Secom Maceió

Jaqueline relembra que tudo começou com um investimento simples: cerca de R$ 50 para comprar um fogareiro, uma chapa e os insumos iniciais. Hoje, além da tapioca, carro-chefe da casa, o cardápio reúne produtos tradicionais do período junino.

Foto: Victor Vercant/Secom Maceió
Foto: Victor Vercant/Secom Maceió

Emocionada, ela conta que este é o primeiro São João sem a mãe.

“Ela faleceu em julho do ano passado. O milho não é apenas fonte de renda. Representa família, memória, afeto e prosperidade. Faz parte da nossa história desde a infância. Antes de cozinhar para outras pessoas, antes de virar comércio, minha mãe preparava milho para reunir familiares e amigos”, relembra.

Natural de Cupira, em Pernambuco, Aparecida Sales encontrou nas comidas típicas uma forma de sustento e também de manter viva sua ligação com a terra.

Há 20 anos, pontualmente às 16h, ela monta o carrinho em frente ao Hospital Unimed, no bairro do Farol. No cardápio, oferece canjica, pamonha, bolo de macaxeira, milho e mungunzá.

“Representa a minha vida, é meu trabalho. Eu vim da agricultura, da roça, plantando milho. Quem mexe com milho não sai mais dele, a gente se reinventa. Estou aqui de janeiro a janeiro, mas neste período tenho muita encomenda, o telefone não para de tocar e o lucro cresce. Em 20 dias de junho, a gente consegue o equivalente ao ano todo”, relata.

Cliente de Aparecida há cerca de quatro anos, Aline Barbosa destaca que consumir desses comerciantes também é uma forma de valorizar a economia local.

“A comida é excepcional. Ela prioriza a qualidade e cria vínculo com os clientes. Minha filha ama o milho, minha família adora a canjica, mas todos os produtos são deliciosos. O São João é especial, mas ela trabalha o ano inteiro e merece esse reconhecimento”, diz.

Para a jornalista e blogueira de gastronomia e turismo Nide Lins, as comidas típicas têm papel central na preservação da identidade nordestina.

“São João sem pamonha, canjica e bolo de milho não tem a mesma graça. Em junho, o Nordeste mostra sua força no saber e no fazer das tradições. Milho verde, mungunzá e canjica com canela aquecem o coração e movimentam a economia. As delícias juninas representam um reforço importante para quem trabalha com isso, mas também carregam memórias afetivas que nos conectam à infância, às festas em família e às tradições que atravessam gerações”, finaliza.


Fonte: Secom Maceió

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