O relógio ainda marcava as primeiras horas da madrugada quando milhares de estudantes decidiram conferir um resultado capaz de mudar o rumo de suas histórias. Para muitos deles, a tela do celular não exibia apenas um nome em uma lista, mas a confirmação de anos de esforço, renúncias e esperança cultivada mesmo diante das dificuldades.
A divulgação do resultado da chamada regular do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) 2026, na quinta-feira (29), marcou o início de uma nova etapa na vida de jovens alagoanos que, oriundos da rede pública estadual, conquistaram vagas em universidades públicas como a Universidade Federal de Alagoas (Ufal), a Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal) e a Universidade Estadual de Alagoas (Uneal).
As histórias de Analice, Aquilles, Micael, João Pedro, Larissa e José Avacy revelam realidades distintas, mas compartilham um ponto em comum: a escola pública como ambiente de acesso, incentivo e construção de possibilidades. Seja por meio do acompanhamento dos professores, de programas educacionais, aulões preparatórios ou apoio pedagógico contínuo, a rede estadual de ensino segue desempenhando papel central na formação de jovens que agora ingressam no ensino superior.
Da escola pública para o jornalismo: vocações que se constroem desde cedo
Aos 18 anos, Analice dos Santos Teixeira, da Escola Estadual Padre Cabral, em Maceió, comemora a aprovação no curso de Jornalismo da Ufal. O momento em que viu seu nome na lista foi marcado por sentimentos mistos.
“Quando percebi que fui aprovada, foi uma mistura de alegria e alívio. É um reconhecimento do esforço e da dedicação”, conta.
A escolha pela área da comunicação não surgiu de forma repentina. Desde cedo, Analice demonstrava interesse pelo universo jornalístico, especialmente pelo esporte. “Sempre fui ligada em aparelhos e jogos de futebol, e comecei a perceber que queria ser jornalista esportiva”, explica.
Durante a preparação para o vestibular, a estudante enfrentou momentos de pressão e autocobrança, comuns a quem se dedica intensamente ao processo seletivo. Nessa etapa, o apoio da família, dos amigos e dos professores foi determinante para manter o foco e a confiança.
Para Analice, a aprovação representa mais do que o ingresso no ensino superior. “É a certeza de que tudo é possível e que todo esforço valeu a pena”, afirma. Ao relembrar sua trajetória, ela destaca o papel da escola pública como espaço de incentivo e suporte contínuo, com aulas extras, acompanhamento pedagógico e estímulo constante.
O sonho da Medicina na Uncisal
Aprovado no curso de Medicina da Uncisal, Aquilles Gabriel, estudante do Colégio Tiradentes da Polícia Militar de Alagoas (CTPM-AL), unidade de Arapiraca, viveu a divulgação do resultado com grande expectativa.
“Eu estava trabalhando e muito apreensivo com o resultado. Era esperado, por conta das notas de corte dos anos anteriores, mas o medo de dar tudo errado ainda existia”, relata.
A confirmação da aprovação trouxe a sensação de recompensa após anos de dedicação aos estudos. Desde os 7 anos de idade, Aquilles alimentava o sonho de cursar Medicina, agora concretizado com a conquista da vaga.
Ele destaca o apoio dos pais e dos amigos, além da base construída na escola pública, que ofereceu conteúdos essenciais e aulões voltados para o Enem. “Meus pais vieram de baixo e construíram uma vida tranquila para que eu pudesse estudar. Sou o primeiro da minha família a passar em Medicina de primeira”, afirma, emocionado.
Comunicação como escolha
Morador da zona rural de Palmeira dos Índios, Micael da Silva, de 19 anos, conquistou uma vaga no curso de Jornalismo da Ufal após uma trajetória marcada por dedicação e escolhas conscientes ao longo do ensino médio.
“Antes do resultado, eu já tinha um pouco de certeza de que seria aprovado, mas o medo existia. Quando vi a mensagem dizendo que eu tinha sido classificado, senti que meu sonho estava se tornando realidade”, relembra.
Inicialmente interessado em Direito, Micael descobriu ao longo do tempo afinidade com a comunicação, habilidade fortalecida por experiências artísticas como o teatro. Foi nesse contexto que encontrou no Jornalismo a possibilidade de unir vocação, expressão e compromisso social.
Aluno da Escola Estadual Graciliano Ramos, ele destaca o incentivo de professores atentos às necessidades dos estudantes. Entre eles, o professor Anderson Gomes, coordenador do grupo teatral da escola, é citado como referência de apoio e orientação.
Para Micael, a escola pública tem potencial transformador quando há envolvimento entre estudantes, educadores e gestão. A aprovação simboliza a confirmação de que o empenho individual, aliado ao suporte da rede estadual, amplia horizontes.
Protagonismo juvenil abrindo portas para a universidade
Também de Palmeira dos Índios, Larissa Badega, da Escola Estadual José Victorino da Rocha, foi aprovada em Administração na Ufal, conquistando o 2º lugar na modalidade de cotas.
Ao longo da trajetória escolar, participou de projetos que impulsionaram seu protagonismo juvenil, como a Semana Institucional de Pesquisa, Tecnologia e Inovação na Educação Básica (Sinpete), da Ufal, e o Encontro Estudantil de Alagoas, sendo premiada em ambos.
“A escola foi essencial na minha preparação para o Enem, oferecendo base sólida, apoio dos professores e incentivo constante. Projetos como o Encontro Estudantil e a Sinpete são portas de entrada para uma vida acadêmica protagonista”, afirma.
Ela também agradece o apoio recebido. “Fazer parte da rede estadual de Alagoas foi um dos maiores privilégios da minha vida acadêmica”, declara.
Ciência, pesquisa e oportunidades além da sala de aula
Aos 17 anos, João Pedro Pacheco Santos conquistou vaga em Ciência da Computação na Ufal, campus Arapiraca, pela ampla concorrência. Egresso da Escola Estadual Firmo de Castro, de Porto Real do Colégio, construiu trajetória de aproximação com a área acadêmica, especialmente em matemática e computação.
Antes mesmo do ensino superior, participou do Novo Ensino Suplementar (NES), programa da Ufal que estimula o aprofundamento em matemática e computação avançadas. João Pedro é também trimedalhista de bronze da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP).
Além disso, participou de políticas públicas como o Escola 10 e o programa Daqui Pra o Mundo. “Acertei todas as questões de língua inglesa do Enem”, comemora.
Direito, justiça e esforço pessoal como caminho
José Avacy Augusto Martins Neto, de 18 anos, concluiu o ensino médio em 2025 na Escola Estadual Professor Atanagildo Brandão, em Maravilha, e conquistou vaga em Direito na Uneal, campus Arapiraca, pela modalidade de cotas.
Fazendo o Enem pela primeira vez, ingressou diretamente no ensino superior. “É a confirmação de que todo esforço e renúncia valem a pena”, afirma.
Para ele, a aprovação reforça que a educação pública é capaz de abrir caminhos concretos para o futuro acadêmico e profissional.
Rede estadual no Enem
Levantamento da Secretaria de Estado da Educação (Seduc) aponta que a participação da rede estadual de Alagoas no Enem superou a média nacional. No primeiro dia de provas, 81,57% dos inscritos estiveram presentes; no segundo dia, 79,77%.
Segundo o Inep, a média nacional foi de 73% no primeiro dia e 70% considerando os dois dias.
Com 95,51% dos concluintes do Ensino Médio inscritos, Alagoas alcançou o segundo maior índice do país. Somando concluintes, estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e treineiros, o estado ultrapassou 34 mil inscritos.
Cronograma do Sisu 2026
- Manifestação de interesse na lista de espera: até 2 de fevereiro
- Matrícula dos aprovados: a partir de 2 de fevereiro
Fonte: Ascom Seduc