Verônica Marques*
O Brasil enfrenta uma realidade que exige respostas e ações. Em 2025, o país atingiu o recorde de 1.568 vítimas de feminicídio — uma média de quatro mulheres mortas por dia. Em Alagoas, embora dados oficiais apontem reduções em certos indicadores, a realidade nos territórios revela uma "interiorização da violência" que desafia as políticas públicas. O feminicídio não é um evento isolado ou imprevisível; é o desfecho de uma omissão estatal persistente e de uma estrutura de gênero baseada no controle e na posse, que faz parte da cultura nacional.
A Geografia do Risco: A Interiorização da Violência. Os dados revelam que o perigo real não se restringe aos grandes centros. Se Maceió e Arapiraca lideram em números absolutos, as maiores taxas proporcionais (por 100 mil mulheres) estão no interior. O risco se potencializa em municípios como Ouro Branco, Senador Rui Palmeira, Chã Preta, Santana do Mundaú. Nesses territórios, o feminicídio é alimentado por um vácuo institucional: a violência ocorre predominantemente à noite (32,2% dos casos): Alagoas dispõe de apenas uma Delegacia Especializada (DEAM) com funcionamento 24 horas, restrita à capital.
No interior, unidades como a de Arapiraca operam apenas em horário comercial, deixando as mulheres desassistidas nos momentos de maior vulnerabilidade. Essa desarticulação é o que chamamos de "rota crítica": o percurso burocrático e ineficiente que a mulher percorre sem resolutividade.
Perfil da Vítima: Cor, Classe e Território O perfil das vítimas em Alagoas ratifica a seletividade dessa violência: 83% são mulheres negras, com baixo nível de instrução e dependência financeira. O crime ocorre, em 75,4% dos casos, dentro da própria residência ou em suas imediações, utilizando-se majoritariamente de armas brancas (43,6%). O agressor é, quase invariavelmente, o parceiro ou ex-companheiro que utiliza o acesso facilitado a utensílios domésticos para exercer o controle final sobre a vida da mulher. (SSP/AL, 2023)
A existência legal de direitos não garante a vida se não houver investimento na ponta. Municípios com baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDHM) e alta desigualdade social são catalisadores dessa letalidade. O Estado precisa sair da "gestão anestésica" — que apenas computa o óbito — para governar além das regiões metropolitanas e envolver a sociedade alagoana no debate sobre mudança na cultura patriarcal.
O Labirinto da Informação: Para que o Estado saia da "gestão anestésica" — que se limita ao registro do crime consumado — é preciso enfrentar o déficit de integração de dados. Atualmente, o SINAN (Saúde) apresenta notificações incompletas; o SINESP (Segurança) mantém acesso restrito, dificultando o controle social; e o SIESPJ (Justiça) foca na produtividade processual sem dialogar com a rede de proteção na ponta.
Essa desarticulação institucional alimenta a "rota crítica": o percurso burocrático e ineficiente que a mulher percorre entre diversos órgãos sem obter resolutividade. É necessário um planejamento coordenado que rompa com a aparente negligência das autoridades encarregadas de prevenir esses crimes. Em Alagoas, o fortalecimento da Rede de Enfrentamento (REVCMA) é a condição fundamental para assegurar a vida das mulheres, especialmente em municípios menores como Ouro Branco e Chã Preta.
A Responsabilidade Masculina e o Pacto de Silêncio O enfrentamento ao feminicídio não pode ser restrito aos gestores e instituições de controle. Uma vez que os homens são autores em 97% dos casos, eles são os atores centrais que precisam transformar comportamentos e estruturas. A punição penal é necessária, mas insuficiente se não houver processos de responsabilização e reflexão sobre masculinidades e misoginia.
A violência muitas vezes ocorre no âmbito privado, protegida pelo silêncio em círculos familiares e sociais. Romper essa barreira e desconstruir o machismo estrutural desde a educação é, sobretudo, uma tarefa de competência dos homens e uma questão que precisa estar no centro das relações familiares.
Propostas para um Novo Pacto. Para interromper essa "crônica de uma morte anunciada", algumas ações são necessárias:
A democracia só é plena quando protege a vida no território. Interromper o ciclo de mortes anunciadas exige que o Estado brasileiro transforme o seu estoque de conhecimento e legislação em orçamento e ação direta na ponta. Que tal mudarmos essa realidade em Alagoas?
*Verônica Marques, Professora dos Cursos de Mestrado em Doutorado em Sociedade, Tecnologias e Políticas Públicas da Afya Unima. Cientista Social na Câmara de Estudos Políticos da Vice-Governadoria do Estado de Alagoas