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03/05/2026 às 10h00

Geral

"A sociedade ainda julga o autismo como birra", afirma pediatra e professora da Ufal

Não apenas no Abril Azul: especialista defende ações contínuas e mais empatia com famílias atípicas

Pedro foi diagnosticado com TEA há 6 anos e a mãe, Camila, afirma que sociedade precisa se colocar no lugar do autista

A campanha de conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), marcada pelo Abril Azul, ganhou visibilidade nesse período. Ainda assim, a pediatra e professora da Universidade Federal de Alagoas, Dayse Paraíso, avalia que famílias, escolas, poder público e sociedade ainda têm um longo caminho a percorrer para garantir um ambiente verdadeiramente inclusivo às crianças autistas.

A médica coordena os Espaços TEU (Terapias Especiais Unimed), da Unimed Maceió, e defende a necessidade de ampliar a compreensão sobre autonomia, tema discutido em 2026. "É preciso entender que a autonomia não é conviver sem suporte", ressalta. Segundo ela, o desenvolvimento da independência infantil depende da construção de uma rede integrada entre família, escola e terapias. "Quando você faz esse elo, a criança consegue alcançar a sua melhor autonomia e independência", acrescenta.

Mesmo em casos com maior necessidade de suporte, a especialista explica que é possível estimular habilidades importantes para a rotina diária. "Às vezes, ela não vai sair sozinha, mas pode aprender a comer, se vestir e desenvolver autonomia dentro de casa", pontua. Para Dayse, um dos desafios enfrentados pelas famílias ainda é a superproteção, frequentemente motivada pelo medo e pela insegurança após o diagnóstico.

Diagnóstico, culpa e resistência familiar

A pediatra também chama atenção para o impacto emocional vivido pelas famílias, especialmente pelas mães. Em pesquisa desenvolvida durante o mestrado sobre saúde mental na maternidade atípica, a docente identificou sentimentos recorrentes de culpa e luto após o diagnóstico do TEA. "Os pais se culpam muito e, muitas vezes, há resistência para iniciar as terapias", relata.

Ela alerta que a demora para iniciar o acompanhamento especializado pode comprometer o desenvolvimento infantil. "Quanto mais precoce for a intervenção, melhor tende a ser o prognóstico da criança", enfatiza. A médica observa ainda que muitos pais apresentam maior resistência em aceitar o diagnóstico e aderir ao tratamento, o que pode dificultar o processo de adaptação familiar.

O caso da servidora pública Camila de Lima foi diferente. O filho Pedro Oliveira, de 13 anos,  foi diagnosticado com TEA há seis anos e hoje é acompanhado pelo Espaço TEU. Ela afirma que a maior dificuldade era perceber que o filho não era compreendido. 

"O diagnóstico, na verdade, foi um alívio, porque passamos a compreendê-lo. A partir disso, tivemos todo um direcionamento e ele agradeceu muito com essas palavras: 'agora eu consigo me entender'. Com as terapias, não só a autonomia do Pedro aumentou como a nossa própria vida passou a ficar melhor", disse. "O que falta hoje na sociedade é empatia e entender que os autistas são capazes", enfatizou. 

Barreiras

Apesar dos avanços, a pediatra Dayse avalia que o país ainda enfrenta falhas estruturais no atendimento às pessoas autistas: "Faltam políticas públicas e acesso a terapias suficientes para todas as crianças, além de mais investimentos no acompanhamento especializado nas escolas e na formação de profissionais preparados para lidar com estudantes neurodivergentes".

A especialista destaca ainda que o preconceito continua presente na rotina das famílias atípicas. "A sociedade precisa entender o que é o autismo e parar de julgar. Muitas pessoas acham que é birra, sem conhecer a realidade daquela família", afirma. "O Abril Azul deve servir não apenas para informar, mas para despertar empatia e compromisso coletivo com a inclusão", acrescenta.


Fonte: Algo Mais Consultoria e Assessoria

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