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03/06/2026 às 19h00

Geral

Vício em apostas online ameaça o futuro financeiro de uma geração

Por trás das promessas de riqueza rápida, o vício em apostas se espalha entre crianças, adolescentes e jovens adultos, impactando saúde mental, relações familiares e o futuro profissional de uma geração

O crescimento das apostas online no Brasil tem despertado preocupação entre especialistas em saúde mental, educação e finanças. Impulsionadas por intensa publicidade, presença constante nas redes sociais e pela promessa de ganhos rápidos, as chamadas "bets" e outros jogos de apostas digitais vêm conquistando cada vez mais espaço no cotidiano dos brasileiros, especialmente entre adolescentes e jovens adultos.

Embora a participação de menores de idade em plataformas de apostas seja proibida, a exposição a esse universo ocorre cada vez mais cedo. Dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025 mostram que 53% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos afirmaram ter visto pessoas divulgando jogos de apostas na internet. Entre os jovens de 15 a 17 anos, esse percentual chega a 63%, evidenciando o alcance desse tipo de conteúdo no ambiente digital.

A ampla presença da publicidade de apostas nas redes sociais amplia os desafios para a proteção dos jovens e para a prevenção de comportamentos de risco. Especialistas alertam que a facilidade de acesso às plataformas e a constante exposição a promessas de enriquecimento rápido podem favorecer o contato precoce com o universo das apostas e seus potenciais impactos financeiros, emocionais e sociais.

Além dos prejuízos financeiros, as apostas podem provocar consequências significativas para a saúde mental. Estudos sobre comportamento e dependência apontam que o ato de apostar pode ativar o sistema de recompensa do cérebro, associado à liberação de dopamina, neurotransmissor ligado às sensações de prazer e expectativa. Com o tempo, a busca por novas recompensas pode levar à repetição do comportamento e ao desenvolvimento de padrões compulsivos.

Entre os efeitos mais frequentemente associados ao vício em apostas estão ansiedade, irritabilidade, isolamento social, dificuldades de concentração, queda no desempenho escolar e profissional, além do endividamento e de conflitos familiares.

"A pessoa sempre acredita que conseguirá parar quando quiser, mesmo quando o comportamento já começa a comprometer áreas importantes da vida. Por isso, o vício em apostas é um dos mais silenciosos e perigosos da atualidade", afirma Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN).

A falsa promessa do lucro fácil

Segundo especialistas, grande parte do sucesso das plataformas de apostas está associada à construção de uma narrativa que relaciona ganhos financeiros à realização pessoal e ao sucesso. Influenciadores digitais, campanhas publicitárias e conteúdos compartilhados nas redes sociais contribuem para fortalecer a percepção de que apostar pode ser um caminho rápido para melhorar de vida.

"O apelo das apostas se torna ainda mais preocupante em contextos de vulnerabilidade financeira. Muitas pessoas passam a enxergar o jogo como uma alternativa para resolver problemas econômicos, quando, na realidade, estão se expondo a riscos ainda maiores", explica Domingos.

Os impactos vão além do indivíduo. Famílias inteiras podem ser afetadas pelo comprometimento da renda, pelo aumento do endividamento e pelo desgaste emocional causado pela compulsão. Também há reflexos no ambiente escolar, onde educadores relatam dificuldades de concentração, desinteresse pelos estudos e mudanças de comportamento associadas ao uso excessivo de plataformas de apostas e conteúdos relacionados.

O papel da educação do comportamento financeiro

Diante desse cenário, especialistas defendem que o enfrentamento do problema exige ações que vão além da fiscalização e da regulação do setor. Uma das estratégias apontadas como fundamentais é o fortalecimento da educação do comportamento financeiro desde os primeiros anos da vida escolar.

Mais do que ensinar conceitos matemáticos ou noções de orçamento, essa abordagem busca desenvolver uma relação mais consciente com o dinheiro, estimulando a reflexão sobre escolhas, prioridades, planejamento e consequências das decisões financeiras.

"Não basta ensinar a fazer contas ou falar sobre investimentos. É preciso trabalhar a forma como as pessoas se relacionam emocionalmente com o dinheiro, ajudando crianças e jovens a compreenderem seus desejos, impulsos e objetivos de vida", destaca Reinaldo Domingos.

Entre os temas considerados essenciais estão o desenvolvimento da consciência financeira, a capacidade de diferenciar necessidades de desejos, a definição de metas de longo prazo e a construção de hábitos que favoreçam decisões mais equilibradas.

"Esse desafio não será resolvido apenas por meio de proibições ou mecanismos de controle. Precisamos preparar as novas gerações para fazer escolhas conscientes e responsáveis. A educação do comportamento financeiro tem um papel decisivo nesse processo e deve ser tratada como uma responsabilidade compartilhada entre escola, família e sociedade", conclui Domingos.

O crescimento das apostas online entre jovens evidencia um desafio que vai além da regulação do setor. Para especialistas, a construção de uma relação mais consciente com o dinheiro, os riscos e as escolhas financeiras é um dos caminhos mais efetivos para reduzir a vulnerabilidade das novas gerações diante da promessa do lucro fácil. Nesse contexto, a educação do comportamento financeiro surge como uma ferramenta essencial para a formação de cidadãos mais preparados para tomar decisões responsáveis ao longo da vida.


Fonte: Assessoria

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