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07/06/2026 às 12h14

Geral

Nosso Mangue - O projeto ecossocial alagoano que transformou a preservação ambiental em geração de renda

Itawi Albuquerque


Nosso Mangue

O projeto ecossocial alagoano que transformou a preservação ambiental em geração de renda

Por: Allana Paiva

Fotos : Itawi Albuquerque


Entre barcos, marés, mariscos e raízes profundamente nordestinas, nasceu a história de Mayris do Nascimento. Mulher negra, LGBTQIAPN+, filha de pescadores, alagoana de Maceió, ela cresceu em territórios costeiros diretamente ligados ao manguezal, ecossistema que sustentou sua família e inspirou sua trajetória.

Aos 14 anos, Mayris decidiu transformar a realidade do seu território por meio de uma iniciativa que unisse preservação ambiental, desenvolvimento comunitário e geração de renda.

“Cresci vendo áreas de mangue desaparecerem, comunidades tradicionais serem esquecidas e muitas famílias perderem sua dignidade. O Nosso Mangue nasceu desse sentimento. Comecei com apenas R$ 50,00, sem saber onde aquilo chegaria. Mas com vontade de retribuir tudo o que o manguezal já tinha feito por nós”, relembra.

Hoje, aos 30 anos, ela se orgulha do sucesso de seu trabalho e relembra bem quem abraçou seus sonhos e direcionou todo o potencial das suas ideias para o caminho da geração de renda e do empreendedorismo.

 Em 2019, uma agente do Sebrae Alagoas enxergou potencial na iniciativa e incentivou Marys a transformar o projeto em um negócio de impacto. “Até então, eu enxergava apenas amor e vontade de fazer acontecer. Quando ouvi que aquilo poderia se tornar um negócio de impacto, minha vida mudou”, afirma.

O desenvolvimento das ações foi tão significativo que Mayris atualmente é consultora do Sebrae Alagoas, parceiro que abraçou sua iniciativa e que atua apoiando ideias que se transformam em negócios.

A partir daí, o projeto ganhou força. Mayris conquistou o primeiro lugar na primeira edição do Startup Nordeste e, em 2023, participou do _Demo Day Garagem_, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social(BNDES), um evento cujo intuito principal é conectar startups de impacto socioambiental com o ecossistema de inovação para acelerar o crescimento desses negócios. A experiência ampliou sua visão sobre inovação e empreendedorismo transformador.

Na sequência, vieram também outros reconhecimentos como o Prêmio GDH Indústria, participações em programas nacionais e internacionais, além da seleção, em 2025, para o Earthshot Prize Launchpad, que é um prêmio global quer visa reconhecer e ampliar iniciativas que favoreçam a sustentabilidade ambiental.

IMPACTA MAIS

Agora em 2026, o “Nosso Mangue” participou do “Impacta Mais”, que é o principal fórum e ponto de encontro do ecossistema brasileiro de investimentos e negócios de impacto.

Hoje, o projeto atua em Alagoas, especialmente, no Pontal da Barra e Garça Torta e no município alagoano de Roteiro, além de desenvolver ações em localidades de Estados como São Paulo e Pará.

Mais do que um projeto ambiental, a iniciativa se tornou um negócio de impacto que reúne ciência, inovação, turismo regenerativo, educação ambiental, justiça climática e mobilização comunitária.

O trabalho é desenvolvido junto a pescadores, marisqueiras, artesãos, barqueiros, mulheres empreendedoras e jovens das comunidades. Uma das principais frentes é o turismo de base comunitária, que valoriza a cultura local e movimenta a economia dos territórios.

Os resultados já são concretos. Em 2025, uma única ação realizada em parceria com o Sebrae Alagoas movimentou cerca de R$ 40 mil no Pontal da Barra durante uma vivência construída com a comunidade para gestores do Sebrae Nacional. 

“Ver o dinheiro circulando dentro do território e chegando às mãos de artesãos, pescadores, cozinheiras e marisqueiras foi emocionante”, afirma Marys.

*Consciência ambiental*

O projeto também promove mutirões de limpeza da lagoa e do manguezal, unindo preservação ambiental e geração de renda. Marisqueira e moradora do vergel há mais de 40 anos, Acilene Pedro dos Santos afirma que a iniciativa fortaleceu a conscientização ambiental da comunidade e se tornou uma fonte complementar de renda para diversas famílias.

"Aprendi que não devemos jogar lixo aqui de jeito nenhum. Se eu puder fazer algo para melhorar a beira da lagoa, eu faço", garante Acilene.

Atualmente, a equipe do projeto conta com mais de 20 profissionais, entre áreas administrativas e operacionais, além de uma rede com mais de 10 voluntários.

Entre os resultados alcançados estão ações de compensação de carbono, formação de Protetores do Manguezal em escolas, retirada de toneladas de resíduos e o plantio de mais de 30 mil mudas de mangue. Para Mayris, o maior impacto é ver a comunidade voltar a valorizar o próprio território.

“Durante muito tempo ensinaram que o manguezal era sinônimo de sujeira e abandono. Hoje, ver crianças querendo protegê-lo, jovens desejando permanecer na comunidade e famílias entendendo que é possível gerar renda sem destruir o território é algo muito forte para mim”, disse com orgulho a idealizadora do projeto, que também destacou o papel inspirador do projeto para outros empreendedores.

“Sei como é começar sem referências e sem apoio. Por isso, acredito que coragem, persistência e confiança são essenciais para transformar sonhos em realidade”, conclui.


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