Com a chegada do Agosto Dourado, campanha dedicada à promoção e incentivo ao aleitamento materno, a neuropsicóloga Aline Graffiette reforça a importância de discutir um tema que ainda recebe pouca atenção: a saúde mental da mulher no pós-parto. Em meio às orientações sobre a amamentação, muitas mães enfrentam sentimentos de culpa, frustração e inadequação quando a experiência não acontece como imaginavam.
Para a especialista, a romantização da maternidade contribui para que muitas mulheres escondam o sofrimento emocional justamente no momento em que mais precisam de acolhimento.
"A sociedade ainda vende a ideia de que a maternidade é naturalmente feliz e que a mulher nasce pronta para cuidar, amar e amamentar. Quando isso não acontece dessa forma, muitas mães acreditam que estão falhando. O problema é que essa culpa pode mascarar um quadro de depressão pós-parto."
Segundo Aline, embora seja esperado que o puerpério envolva oscilações emocionais, é preciso atenção quando a tristeza, a sensação de incapacidade e a perda do prazer persistem por semanas e começam a comprometer a rotina da mãe.
"Existe uma diferença entre o cansaço esperado do pós-parto e um sofrimento psíquico que impede essa mulher de viver o dia a dia. Muitas vezes ela acredita que tudo aquilo faz parte da maternidade e demora para buscar ajuda."
A especialista destaca que algumas mulheres apresentam maior risco de desenvolver a depressão pós-parto e, por isso, precisam de um acompanhamento ainda mais atento durante a gestação e após o nascimento do bebê. Entre os principais fatores de risco estão o histórico de depressão antes da gravidez e os transtornos alimentares.
"Mulheres que já tiveram episódios de depressão antes da gestação são consideradas de alto risco para desenvolver a depressão pós-parto. O mesmo acontece com pacientes que têm ou tiveram transtornos alimentares, pois esses quadros indicam uma maior vulnerabilidade ao sofrimento psíquico. Nesses casos, o acompanhamento da saúde mental desde a gestação é fundamental para identificar precocemente qualquer sinal de adoecimento."
A neuropsicóloga cita a amamentação como um dos principais gatilhos de pressão nesse período.
"A amamentação é extremamente importante, mas ela não pode ser transformada em um instrumento de julgamento. Quando a mulher enfrenta dificuldades para amamentar, sente dor, produz menos leite ou precisa complementar a alimentação do bebê, isso não significa que ela seja uma mãe pior. O sofrimento aumenta quando ela passa a acreditar que fracassou."
Outro ponto importante, segundo Aline, é que a depressão pós-parto nem sempre se manifesta apenas por meio da tristeza.
"Muitas mulheres chegam extremamente irritadas, ansiosas, emocionalmente esgotadas e com um sentimento constante de incapacidade. Como o foco normalmente está voltado para o bebê, os sinais da mãe acabam sendo minimizados pela família e até por ela mesma."
Para a neuropsicóloga, o Agosto Dourado também deve ser um momento para ampliar o olhar sobre a saúde mental materna.
"Cuidar da mãe também é cuidar do bebê. Promover o aleitamento é importante, mas acolher essa mulher, sem culpa, sem comparações e sem exigir uma maternidade perfeita, é igualmente essencial. Além disso, mulheres com histórico de depressão ou transtornos alimentares precisam de um acompanhamento ainda mais próximo durante a gestação e no pós-parto, porque apresentam maior risco de desenvolver a doença. Quanto antes o sofrimento for reconhecido, maiores são as chances de recuperação e de fortalecimento do vínculo entre mãe e filho."
Fonte: Assessoria