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26/08/2026 às 15h00

Geral

Compras por impulso e contas esquecidas: como o TDAH afeta a vida financeira

Esquecimentos, adiamentos e compras impulsivas podem estar ligados a dificuldades de planejamento, atenção ou regulação emocional e exigem estratégias diferentes

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Uma fatura vencida, uma compra feita em poucos cliques ou uma decisão adiada até se transformar em urgência podem parecer apenas falta de organização. Mas, quando esses episódios se repetem e passam a provocar dívidas, conflitos ou sofrimento, o problema pode envolver mais do que dificuldade para controlar gastos.

Em pessoas com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), desafios ligados à atenção, memória de trabalho, impulsividade, planejamento e regulação emocional podem afetar a relação com o dinheiro. Isso não significa, porém, que toda compra impulsiva seja consequência do transtorno ou que qualquer dificuldade financeira indique TDAH.

Estudos com adultos apontam que participantes com sintomas de TDAH relataram mais compras por impulso e maior tendência a adiar ou tomar decisões financeiras de forma espontânea, em comparação com pessoas sem sintomas. A relação, no entanto, é atravessada por fatores como personalidade, sintomas depressivos, idade, renda e contexto de vida.

Para a psicóloga e neuropsicóloga Luanda Rosa, a principal questão é identificar o que sustenta o comportamento antes de escolher uma estratégia para mudá-lo.

"Uma pessoa pode gastar sem pensar porque tem dificuldade para interromper uma ação e considerar suas consequências. Em outro caso, a compra pode funcionar como uma tentativa de aliviar ansiedade, tristeza, frustração ou estresse. Comportamentos parecidos podem ter causas diferentes e, por isso, não respondem necessariamente à mesma solução", afirma.

Quando a planilha não resolve

Aplicativos de orçamento, planilhas e redução do limite do cartão podem ajudar a limitar gastos, mas não resolvem automaticamente a origem do problema. Essas ferramentas mostram valores e vencimentos, mas exigem que a pessoa consiga iniciar tarefas, manter uma rotina de acompanhamento e transformar intenção em ação.

Uma pessoa pode saber que precisa guardar dinheiro e, ainda assim, esquecer de fazer a transferência. Pode visualizar uma conta e adiar o pagamento até que o prazo se torne urgente. Também pode entrar em um aplicativo de compras em um momento de estresse e concluir uma compra sem avaliar o impacto nas despesas do mês.

"Controlar o limite do cartão pode reduzir um risco imediato, mas talvez não seja suficiente se a compra estiver funcionando como uma resposta a uma emoção difícil. Nesses casos, é preciso entender o padrão que se repete", diz Luanda.

Esquecimento, adiamento e impulso

Duas pessoas podem dizer que "não conseguem controlar o dinheiro" e enfrentar situações completamente diferentes. Uma pode esquecer contas e compromissos; outra pode evitar decisões até que elas se transformem em urgências. Há ainda quem compre por impulso, tenha dificuldade em calcular consequências ou procure uma recompensa imediata diante de estresse e frustração.

A distinção importa porque uma medida útil para um caso pode não funcionar em outro.

Lembretes no celular, calendário de vencimentos e pagamentos automáticos podem ajudar quem perde prazos com frequência. Para compras impulsivas, medidas como remover cartões salvos de aplicativos, desativar notificações de promoções e estabelecer um intervalo antes de concluir uma compra podem criar espaço para reflexão.

Quando a emoção tem peso importante no consumo, porém, barreiras financeiras isoladas podem ter efeito limitado. Nesses casos, reconhecer gatilhos emocionais e buscar acompanhamento psicológico pode ser parte do cuidado.

Avaliação individual

Segundo Luanda Rosa, dificuldades persistentes de organização, esquecimento, impulsividade e tomada de decisão merecem atenção quando comprometem a rotina, a renda, os vínculos ou a saúde emocional.

A avaliação neuropsicológica pode investigar atenção, memória de trabalho, planejamento, funções executivas, tomada de decisão e controle comportamental, considerando a história e o contexto de cada pessoa.

"O objetivo não é apenas responder se alguém tem ou não TDAH. Também é compreender como o funcionamento cognitivo e emocional participa das dificuldades relatadas e quais estratégias podem ser viáveis para aquela realidade", afirma.

A especialista destaca que compreender o problema pode ajudar a substituir a culpa por perguntas mais úteis: houve esquecimento? Falta de planejamento? Uma decisão tomada por impulso? Uma emoção intensa?

A resposta pode orientar caminhos diferentes. Para algumas pessoas, uma rotina mais simples de alertas e pagamentos automáticos pode ser suficiente. Para outras, pode ser necessário associar estratégias de organização ao cuidado com ansiedade, estresse, comportamento de consumo e saúde mental.

Sobre a Luanda Rosa

Psicóloga e neuropsicóloga (CRP 06/106954), especialista em autismo na adolescência e na vida adulta. Atua há 15 anos com avaliação neuropsicológica de adultos, é coautora do livro Protagonismo Feminino e consultora em inclusão de pessoas autistas para empresas. Também participa de podcasts, palestras e eventos sobre autismo na vida adulta e neurodiversidade.


Fonte: Assessoria

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