O esquecimento de nomes, compromissos e conversas recentes é um dos sinais mais associados à doença de Alzheimer. Mas mudanças na forma de caminhar também podem exigir atenção: a pessoa começa a hesitar diante de um degrau, esbarra em móveis de uma casa conhecida, busca apoio nos corredores ou perde segurança ao mudar de direção.
No Setembro Lilás, mês de conscientização sobre Alzheimer e outras demências, especialista reforça que o cuidado não deve se restringir à memória. Alterações de orientação espacial, equilíbrio, força e coordenação podem interferir diretamente na rotina e aumentar a vulnerabilidade a quedas.
A doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência e responde por 60% a 70% dos casos no mundo, de acordo com o Ministério da Saúde. No Brasil, o Relatório Nacional sobre a Demência estimou prevalência média de 8,5% entre a população idosa em 2019.
"A memória é um aspecto importante, mas não é o único. Quando a pessoa passa a errar a distância de um móvel, evita escadas ou se movimenta com mais insegurança em locais familiares, a família precisa registrar essas mudanças e relatá-las à equipe de saúde", afirma a fisioterapeuta Dra. Mariana Milazzotto, mestre em Ciências Médicas e especialista em reabilitação funcional.
O Alzheimer pode afetar habilidades visuoespaciais, usadas para localizar objetos, calcular distâncias, reconhecer obstáculos e orientar o corpo em um ambiente. Isso não significa necessariamente que a pessoa tenha um problema nos olhos. Em alguns casos, a alteração está na maneira como o cérebro interpreta a informação visual e organiza uma resposta motora.
Na prática, a pessoa pode enxergar uma cadeira, mas calcular mal a distância ao se sentar. Pode identificar uma escada, mas ter dificuldade para estimar a altura do primeiro degrau. Também pode demorar para localizar um objeto em um ambiente com muitos estímulos ou se desorientar em trajetos antes conhecidos.
Esses sinais não confirmam Alzheimer por conta própria. Alterações visuais, uso de medicamentos, dores, neuropatias, problemas cardiovasculares, depressão, outras demências e doenças neurológicas também podem afetar marcha e equilíbrio. Por isso, a avaliação médica é necessária para investigar a causa.
"Perguntar se a pessoa enxerga bem nem sempre revela a dificuldade. É preciso observar se ela consegue usar a visão para se movimentar, mudar de direção, identificar obstáculos e concluir tarefas que antes fazia de maneira segura", explica Milazzotto.
A perda de orientação espacial pode se somar a redução de força, alterações de equilíbrio, medo de cair e obstáculos domésticos. Essa combinação aumenta a chance de quedas, que podem provocar fraturas, internações, limitação de mobilidade e maior dependência nas atividades diárias.
A prevenção envolve também o ambiente. Iluminação insuficiente, tapetes soltos, fios expostos, móveis bloqueando passagens, pisos escorregadios e degraus sem contraste dificultam a locomoção de pessoas com alterações cognitivas ou de percepção visual.
Para a fisioterapeuta, o acompanhamento não deve começar somente depois de uma queda. "Se a pessoa mudou a forma de caminhar, dá passos menores, evita sair de casa, procura apoio com frequência ou hesita diante de obstáculos, essa informação pode orientar medidas de prevenção antes que ocorra um acidente", afirma.
A fisioterapia não interrompe a progressão do Alzheimer, mas pode contribuir para manter capacidades funcionais e reduzir riscos associados à perda de mobilidade. A avaliação considera força, equilíbrio, marcha, capacidade de sentar e levantar, mudanças de direção e dificuldades observadas no dia a dia.
O plano pode incluir exercícios de mobilidade, fortalecimento, estabilidade, treino de marcha e práticas adaptadas de dupla tarefa, como caminhar enquanto responde a comandos simples. A complexidade precisa respeitar a fase da doença, as condições clínicas e o risco de queda.
"Não existe um exercício padrão para todas as pessoas com Alzheimer. O planejamento parte da rotina: levantar da cadeira, atravessar um corredor, entrar no banheiro, caminhar na calçada ou se deslocar dentro de casa. O objetivo é preservar participação e segurança, não cobrar desempenho", diz Milazzotto.
Medidas como retirar tapetes soltos, manter corredores livres, melhorar a iluminação, usar contraste visual em degraus e organizar objetos em locais previsíveis também podem facilitar a orientação.
Setembro é o Mês Mundial e Nacional de Conscientização da Doença de Alzheimer. No Brasil, a data foi instituída pela Lei nº 11.736, de 2008. A campanha Setembro Lilás busca ampliar o acesso à informação, reduzir estigmas e reforçar a importância de apoio a pessoas com demência, familiares e cuidadores.
"Observar a pessoa em movimento é uma forma de cuidado. Quando a família entende que a dificuldade não é teimosia nem apenas consequência da idade, pode procurar orientação e adaptar a rotina para preservar escolhas, mobilidade e autonomia", conclui a Dra. Mariana Milazzotto.
Fonte: Assessoria