Conhecido pelo personagem Cabeção, de "Malhação", Sergio Hondjakoff voltou ao centro das atenções com sua participação em "A Fazenda 18", da Record. Sua passagem pelo reality tem sido marcada por conflitos de convivência, atitudes que repercutem nas redes sociais e acusações feitas por outros participantes. O debate ultrapassou as estratégias do jogo e colocou em discussão questões como respeito, consentimento, responsabilidade e a maneira como o público interpreta o comportamento de alguém com histórico de dependência química.
Na dinâmica "Pesando o Clima", realizada em 28 de setembro, Sergio recebeu dez indicações dos colegas. Participantes o criticaram por declarações que consideraram racistas e por intolerância religiosa. Também surgiram relatos de comportamentos inadequados com mulheres da casa. O ator negou intenção racista, reconheceu equívocos e pediu desculpas às participantes.
Entre os episódios de maior repercussão está o relato de Ana Bruna Avila sobre um abraço dado pelo ator enquanto ele estava de cueca. Ela afirmou ter se sentido atingida por um contato que considerou impróprio; Sergio negou assédio. Após analisar as imagens, a Record anunciou que não o expulsaria do programa. A decisão da produção não encerrou a discussão entre espectadores sobre os limites daquela interação.
Outra cena que chamou a atenção ocorreu em 17 de setembro, quando Sergio recolheu fezes de animais com as próprias mãos, sem luvas. A atitude provocou comentários sobre higiene e estranhamento nas redes sociais. Para o psiquiatra Dr. Thiago Zimermann, entretanto, uma cena incomum não permite concluir que exista um transtorno mental. "Comportamento isolado não é diagnóstico", afirma.
O médico ressalta que não conhece Sergio como paciente nem realizou uma avaliação psiquiátrica do ator. Suas observações abordam princípios gerais sobre saúde mental, recuperação e exposição pública. "Na psiquiatria não avaliamos uma pessoa a partir de uma cena de poucos segundos. Precisamos compreender contexto, frequência, duração, padrão anterior de funcionamento", explica.
Segundo Zimermann, o confinamento reúne condições potencialmente estressantes, como convivência obrigatória, conflitos frequentes, mudanças de rotina e avaliação constante do público. Em pessoas em recuperação de uma dependência, esses fatores podem representar desafios, dependendo da história individual. Isso, porém, não autoriza presumir incapacidade ou recaída. "Recuperação também significa reconstrução de autonomia", destaca.
O especialista também rejeita a associação automática entre o histórico de dependência e as acusações feitas contra o ator. "O primeiro cuidado é não 'psiquiatrizar' conflitos morais, sociais ou eventualmente jurídicos", aponta.
Para ele, atribuir condutas dessa natureza a um transtorno mental, sem evidências, pode tanto reduzir indevidamente a responsabilidade individual quanto reforçar preconceitos contra pessoas que enfrentam problemas de saúde mental.
Acolher alguém em recuperação, acrescenta, não significa ignorar relatos de desconforto ou dispensar limites. "É possível dizer 'essa atitude ultrapassou um limite' sem transformar a pessoa inteira naquele comportamento"., ressalta o psiquiatra O equilíbrio, segundo ele, exige ouvir quem relata ter sido atingido, cobrar responsabilidade quando necessário e evitar humilhações.
Na entrevista a seguir, Dr. Thiago Zimermann discute como fama, autoestima, confinamento e julgamento público podem atravessar a recuperação, preservando uma distinção central: analisar os temas levantados pelo reality não equivale a avaliar clinicamente seu participante.
Sergio ficou conhecido ainda jovem como o Cabeção de "Malhação" e depois enfrentou períodos de menor exposição profissional. Como a perda de reconhecimento e de oportunidades pode afetar a saúde mental de um artista e se relacionar ao uso problemático de drogas, sem ser considerada sua única causa?
Dr. Thiago Zimermann - A fama pode produzir uma experiência psicológica bastante particular. Quando alguém constrói parte importante da própria identidade em torno do reconhecimento público e depois passa por uma redução brusca dessa exposição, pode existir uma sensação de perda: de pertencimento, de identidade, de propósito e até de valor pessoal.
Isso não significa, porém, que a perda de espaço profissional provoque dependência química. Dependência é um fenômeno multifatorial. Envolve vulnerabilidades biológicas, características psicológicas, ambiente, história de vida, disponibilidade da substância, relações sociais, estresse e diversos outros fatores.
Em artistas existe ainda uma particularidade: a mesma sociedade que rapidamente transforma alguém em personagem público pode, algum tempo depois, deixar de reconhecê-lo. Para determinadas pessoas, administrar essa transição pode ser difícil.
Por isso, no caso de qualquer pessoa pública, é inadequado estabelecer retrospectivamente uma relação simples de causa e efeito. Podemos discutir fatores de risco e vulnerabilidades conhecidos pela psiquiatria, mas não afirmar o que causou a dependência de uma pessoa específica sem uma avaliação clínica adequada.
Para uma pessoa com histórico de dependência química, quais desafios o confinamento, as discussões e a exposição constante de um reality show podem representar? Que acompanhamento é importante nesse contexto?
Dr. Thiago Zimermann - Um reality show reúne diversos fatores potencialmente estressores: privação de espaço pessoal, convivência obrigatória, conflitos frequentes, alteração da rotina, exposição contínua, pressão competitiva e avaliação permanente do público.
Para qualquer pessoa isso pode ser emocionalmente exigente. Em alguém em recuperação de uma dependência, alguns desses fatores podem funcionar como gatilhos, dependendo da história individual.
Mas existe um cuidado importante: ter histórico de dependência não significa estar permanentemente vulnerável, incapaz ou prestes a recair. Recuperação também significa reconstrução de autonomia.
O acompanhamento adequado depende de cada caso, mas pode envolver seguimento psiquiátrico e psicológico, manutenção do tratamento previamente estabelecido, atenção ao sono, identificação precoce de mudanças comportamentais relevantes e uma estrutura que permita pedir ajuda sem que isso seja tratado como fraqueza ou espetáculo.
Em ambientes de confinamento, eu considero particularmente importante que exista uma equipe de saúde independente da dinâmica narrativa do programa. Saúde não deveria ser utilizada como elemento de entretenimento.
Diante dos conflitos envolvendo Sergio, como distinguir cobranças legítimas por atitudes inadequadas de humilhação, estigmatização ou exclusão? Como acolher alguém em recuperação sem deixar de responsabilizá-lo por suas condutas?
Dr. Thiago Zimermann - Existe uma diferença fundamental entre explicar um comportamento e justificá-lo.
Uma pessoa pode possuir uma história de sofrimento psíquico ou dependência e, ainda assim, continuar responsável pelos limites necessários à convivência. O diagnóstico, quando existe, não deve funcionar como salvo-conduto moral.
Ao mesmo tempo, responsabilizar alguém não significa humilhá-lo. É possível dizer "essa atitude ultrapassou um limite" sem transformar a pessoa inteira naquele comportamento.
Esse equilíbrio é particularmente importante na dependência química, porque o estigma costuma empurrar as pessoas para dois extremos igualmente inadequados: ou elas são vistas como culpadas por tudo, ou são infantilizadas e consideradas incapazes de responder pelos próprios atos.
Recuperar-se também significa recuperar autonomia, responsabilidade e capacidade de reparar relações. Acolhimento e responsabilização não são conceitos opostos. Muitas vezes precisam caminhar juntos.
O episódio em que Sergio recolheu fezes de animal com as próprias mãos gerou repercussão. Por que uma atitude isolada não permite concluir que existe um transtorno mental, e quais elementos uma avaliação clínica precisaria considerar?
Dr. Thiago Zimermann - Porque comportamento isolado não é diagnóstico. Na psiquiatria não avaliamos uma pessoa a partir de uma cena de poucos segundos. Precisamos compreender contexto, frequência, duração, padrão anterior de funcionamento, estado mental, crítica, orientação, percepção, pensamento, humor, comportamento, uso de substâncias, medicamentos, condições clínicas e, principalmente, se existe sofrimento ou prejuízo funcional.
Uma atitude pode parecer incomum para quem observa e ainda assim não possuir qualquer significado psicopatológico.
Esse é justamente um dos riscos das redes sociais: transformar um fragmento de comportamento em diagnóstico. Psiquiatria não funciona dessa maneira.
No caso de uma pessoa que está sendo televisionada, existe uma limitação adicional: nós vemos aquilo que as câmeras mostram. Isso não equivale a uma entrevista psiquiátrica. Portanto, essa cena, isoladamente, não permite concluir absolutamente nada sobre a existência ou não de um transtorno mental.
Como comentários sobre aparência e peso, somados à expectativa de reconquistar o público, podem afetar a autoestima de alguém em recuperação? Como construir um recomeço que não dependa apenas da aprovação dos espectadores ou da vitória no programa?
Dr. Thiago Zimermann - A exposição pública intensifica algo que todos nós experimentamos em alguma medida: a comparação social.
Em um reality, aparência, peso, comportamento, passado e personalidade passam a ser avaliados diariamente por milhares ou milhões de pessoas. Para alguém que está reconstruindo sua vida, colocar todo o valor pessoal nessa aprovação pode tornar o processo emocionalmente muito instável.
A autoestima mais consistente é aquela que não depende exclusivamente do aplauso externo.
Um recomeço saudável costuma envolver reconstruir vínculos, rotina, projetos, identidade, autonomia e propósito. A pessoa precisa descobrir quem é também quando ninguém está olhando.
Talvez esse seja um aspecto importante quando falamos de recuperação: ela não consiste simplesmente em abandonar uma substância. É preciso reconstruir uma vida na qual aquela substância deixe de ocupar o centro.
Por isso, ganhar ou perder um programa pode ter importância profissional e financeira, mas não deveria definir o sucesso de uma recuperação.
Sergio foi acusado por outros participantes de racismo e assédio sexual, negou intenção ofensiva e pediu desculpas. Sem avaliar clinicamente o ator, como discutir essas acusações sem associar automaticamente tais condutas à dependência química ou a transtornos mentais? Como conciliar acolhimento, responsabilização e proteção das pessoas que relatam ter sido atingidas?
Dr. Thiago Zimermann - O primeiro cuidado é não psiquiatrizar conflitos morais, sociais ou eventualmente jurídicos.
Racismo, intolerância religiosa, desrespeito a limites interpessoais ou uma acusação de assédio não podem ser automaticamente explicados por dependência química ou por um transtorno mental. Fazer essa associação sem evidências produz dois problemas: pode reduzir indevidamente a responsabilidade individual e, ao mesmo tempo, reforça o preconceito contra milhões de pessoas que possuem transtornos mentais e jamais apresentam comportamentos dessa natureza.
Também precisamos diferenciar intenção de impacto. Uma pessoa pode afirmar que não teve intenção de ofender, e essa informação pode fazer parte da compreensão do episódio. Mas o desconforto relatado pela outra pessoa também precisa ser ouvido e respeitado. A avaliação de eventual responsabilidade jurídica cabe às instâncias apropriadas, não à psiquiatria e muito menos a um diagnóstico feito pela televisão.
Em situações assim, três princípios podem coexistir: acolher a história de uma pessoa em recuperação, responsabilizar indivíduos por seus comportamentos quando necessário e proteger quem relata ter seus limites violados. Uma coisa não precisa anular a outra.
Como psiquiatra, eu acrescentaria um último cuidado: não conheço Sergio como paciente, não realizei uma avaliação psiquiátrica dele e, portanto, não seria tecnicamente nem eticamente adequado atribuir qualquer comportamento observado no programa a um diagnóstico, a uma recaída ou a determinada condição mental.
Saiba mais em @drthiagozimermann.

Fonte: Assessoria