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16/07/2018 às 09h05

Geral

Assassinato de jornalista impulsiona luta pela redemocratização brasileira

Wladimir Herzog, foto que denuncia farsa do suicídio montado - Reprodução

Mais do que a censura à liberdade de expressão, foi a violação aos direitos humanos que marcou historicamente os 21 anos de ditadura militar no Brasil. Os depoimentos de quem sobreviveu às atrocidades da tortura policial nessa época são sempre estarrecedores, e as sequelas deixadas levaram muita gente à insanidade mental, depressão crônica e até ao suicídio, contam os relatórios das Comissões da Verdade instaladas nos estados brasileiros para registrar os “os anos de chumbo” chegados ao país com a chamada “Revolução de 1964”.

Os registros desse período lembram, entre outros casos, o assassinato do jornalista, professor e dramaturgo Vladimir Herzog, em 25 de outubro de 1975, pela ditadura. Foi torturado por horas seguidas, morto e teve o corpo pendurado pelo pescoço, com um cinto do uniforme de presos, como se tivesse cometido “suicídio”. O jornalista Sérgio Gomes disse em 1992 ao jornal Unidade, do sindicato dos jornalistas de São Paulo, que foi preso no mesmo Doi-Codi em que Herzog. 

 “Naquela cela solitária, com o ouvido na janelinha, eu podia ouvir os gritos: ‘Quem são os jornalistas? Quem são os jornalistas? ’ Pelo tipo de grito, pelo tipo de porrada, sabia que estava sendo feito com alguém exatamente aquilo pelo que eu tinha passado. Lá pela hora do almoço há uma azáfama, uma correria. Ele foi tor­turado durante toda a manhã e se dá o tal silêncio. A pessoa para de ser torturada e em seguida há uma azá­fama, uma correria… A gente percebe que tem alguma coisa estranha acontecendo. Tinham acabado de matar o Vlado. ”, contou Sérgio.

O assassinato de Vladimir Her­zog se tornaria um desses raros episódios que marcam a história por muitos aspectos. Mas foi também um momento para impulsionar a luta pela redemocratização do país, a co­meçar pelo ato ecumênico realizado na Catedral de São Paulo seis dias depois de sua morte, conduzido pelo cardeal D. Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel e pelo pastor Ja­mes Wright, no qual oito mil pessoas enfrentaram o medo e os cercos mili­tares para dizer “basta” de viva voz. 

O horror da tortura. Como sobreviver?

Afogamento, choque elétrico, pau-de-arara, simulação de execução com bala de festim, eram algu­mas das modalidades de tortura. Alguns ainda tiveram a presença dos pais, que foram trazidos à força para assistirem as torturas dos filhos.

“O homem de cabelo preto, que alguém chamou de Dr. Pablo, voltou trazendo uma cobra grande, assustadora, que ele botou no chão da sala, e antes que eu a visse direito apagaram a luz, saíram e me deixaram ali, sozinha com a cobra. Eu não conseguia ver nada, estava tudo escuro, mas sabia que a cobra estava lá. A única coisa que lembrei naquele momento de pavor é que cobra é atraída pelo movimento. Então, fiquei estática, silenciosa, mal respirando, tremendo. Era dezembro, um verão quente em Vitória, mas eu tremia toda. Não era de frio. Era um tremor que vem de dentro. Ainda agora, quando falo nisso, o tremor volta. Tinha medo da cobra que não via, mas que era minha única companhia naquela sala sinistra. A escuridão, o longo tempo de espera, ficar de pé sem recostar em nada, tudo aumentava o sofrimento. Meu corpo doía” (Jornalista Mirian Leitão).

“Pegaram-me e me jogaram para dentro do carro e me levaram para a rua Tutoia do DOI-CODI.(...) Então me levaram pra lá, me puseram na sala para me interrogar, (...) inclusive pelo coronel Ustra, ele me interrogou várias vezes, na sala, e a sala era muito pequena e escura, tinha umas lâmpadas assim no rosto da gente, então me torturaram nesse momento fisicamente, eu fui bastante pressionado psicologicamente, ameaçado de todas as formas pra dizer como é que eu tinha o contato com esse jornal” (Médico Gilberto Natalini).

“Tive os meus filhos sequestrados e levados para sala de tortura, na Operação Bandeirante. A Janaina com cinco anos e o Edson, com quatro anos de idade. [...] Inclusive, eu sofri uma violência, ou várias violências sexuais. Toda nossa tortura era feita [com] as mulheres nuas. Os homens também. Os homens também ficavam nus, com vários homens dentro da sala, levando choques pelo corpo todo. Inclusive na vagina, no ânus, nos mamilos, nos ouvidos. E os meus filhos me viram dessa forma. Eu urinada, com fezes. Enfim, o meu filho chegou para mim e disse: “Mãe, por que você ficou azul e o pai ficou verde?”. O pai estava saindo do estado de coma e eu estava azul de tanto... Aí que eu me dei conta: de tantos hematomas no corpo” (Maria Amélia de Almeida Teles, integrante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos). 

Em Alagoas, Comissão da Verdade revela centenas de vítimas de tortura

O relatório final da Comissão da Memória e Verdade de Alagoas, entregue ao Governo do Estado, mostra que centenas de alagoanos foram presos, torturados e até mortos pela ditadura militar. O jornalista e comunista Jayme Miranda é uma das vítimas fatais desse período. Segundo o historiador Geraldo de Majella, membro dessa Comissão, o apurado do trabalho de mais de dois anos revela cenários de horror vividos por jovens e familiares que lutavam apenas pela liberdade de expressão.

Majella cita os depoimentos dos irmãos Fernando e Jeferson Costa como uns dos mais marcantes. “Pren­deram os pais deles para revelarem o paradeiro dos dois, até um primo de 17 anos que estava por acaso na residência da família, também foi levado”, destaca. “A prisão atingia a família como um todo”, acrescenta, lembrando que eram nos galpões da Petrobras, no Tabuleiro, os locais específicos para as torturas. Jeferson cursava História e era presidente do DCE (Diretório Central dos Estudan­tes da Universidade Federal de Alagoas), Fernando era estudante de Medicina. 

“Ambos foram afastados da universidade”, informa o historiador. Na lista de ex-presos políticos e ala­goa­nos, o ex-deputado Thomaz Nonô, o deputado federal Ronaldo Lessa, a ex-deputada Selma Bandeira (já fale­cida), Denisson Luiz Cerqueira Menezes, Odijas Carvalho (também morto pela ditadura), Maria Ivone Loureiro, os irmãos Dênis e Breno Agra, Eduardo Davino (já falecido), Luiz Nogueira, Norton de Morais Sarmento Filho, Hélia Mendes, Valmir Costa, entre centenas de outras pessoas. Atuaram na defesa desses presos e de outros, os advogados José Costa e Mércia Albuquerque.

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Fonte: Painel Alagoas

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