Dólar com. R$ 3,182
IBovespa -0,29%
27 de abril de 2017
min. 24º máx. 31º Maceió
chuva rápida
Agora no Painel Interrogatório de Lula em Curitiba é adiado por Moro a pedido da Polícia Federal

Blogs

Outono

07.11.2011 às 09:58

Arthur Virgílio (*)

Lisboa – O tempo está chuvoso. E venta muito nesta cidade. O outono alterna dias assim com aqueles outros de temperatura amena em tempo firme, as folhas caindo, talvez a estação mais bonita do ano.

Escrevo num começo de noite de ruas desertas. As poucas pessoas que transitam, o fazem protegidas por guarda-chuvas ou capas impermeáveis. Bate uma melancolia misturada com saudade de casa.

Hoje vejo que não poderia mesmo ser diplomata em tempo integral. Não conseguiria viver longe do Brasil, do Amazonas, de Manaus. Gosto de viajar, porém com retorno certo.

Meus colegas passam temporadas de 10 anos no exterior. Retornam a Brasília por um biênio e, após, se quiserem, partem para outro período demorado fora.

Lisboa é uma cidade linda, de povo amável, culinária inigualável, hábitos metropolitanos. Gosto daqui. Uma amiga me diz que é como se fosse a casa da nossa avó.

Tem o clima mais leve da Europa. A esta altura, a Alemanha já gelou, em contraposição às temperaturas que, nesta capital, oscilam entre 13 e 18 graus. No inverno, descem a cinco, chegando a zero na Serra da Estrela.

Tenho ido muito a livrarias. É uma diversão à parte.

Leio sem parar e tenho uma lista enorme de livros para devorar. Sem falar nos jornais e revistas, que dão conta da crise econômica portuguesa, da zona do euro e, muito agudamente, da Grécia.

Quando voltar, sei que terei acrescentado muita coisa boa à minha vida pessoal e intelectual. Mas a saudade aperta de verdade, volta e meia. É como se fosse um “exílio”, não imposto por poder nenhum e sim escolhido por mim próprio. Nem por isso menos exílio.

A internet encurta certas distâncias. Não todas, contudo. Dá respostas objetivas a indagações que lhe faço; não é capaz de desvendar os segredos da minha alma.

Moro num lugar gostoso, com vista para o Tejo. Ao lado tem uma tasca que serve uma sopa esplêndida. Pela rua passa o “elétrico” (bonde) que, não sei bem a razão, me lembra Fernando Pessoa.

Gosto de ficar na janela à noite, meditando por algum tempo. O pensamento vai longe, carregado pela imaginação.

Dá para vagar pelas ruas em paz. Não existe a figura da violência urbana, tal como a conhecemos no Brasil. Os jovens são mais livres, precisamente porque estão mais seguros. Dominam as praças com alegria e em paz.

A maior paixão dos portugueses é o futebol. Em Lisboa, a maioria é Benfica e uma minoria expressiva torce pelo Sporting. No Porto, claro, todo mundo vai com o time da casa. Rivalidade intensa.

A situação econômica é dificílima, mas, diferentemente da Grécia, (ainda) há consenso interno de apoio às medidas de austeridade impostas por FMI, Comissão Européia e Banco Central Europeu. O povo está sofrendo, confiante em que mergulhará em dois anos de recessão, retomando o crescimento a partir daí.

Doravante, sempre me irei preocupar com Portugal de modo diferente. Mais pessoal, mais emocional.

*Diplomata; ex-senador da República (AM)

Postado por Painel Opinativo

Teologia da Libertação e a Irmã Zeli

04.11.2011 às 10:56

Jorge Vieira – Jornalista*

Teologia da Libertação, reflexão que articula pensamento científico, texto bíblico, Tradição cristã com a vida do povo de Deus, celebra 40 anos de caminhada. Denominação dada pelo teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, em livro homônimo em 1971, ano em que o também teólogo franciscano Leonardo Boff escreveu o livro Jesus Cristo Libertador.

Esse labor teológico nasce na América Latina, fruto da luta de milhares de agentes de pastorais e militantes de partidos políticos de esquerda que se mobilizavam em associações de moradores, organismos de pastorais e movimentos sócias organizando pescadores, catadores de lixo, trabalhadores sem terra, indígenas, mulheres e metalúrgicos. E nas Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s) encontram a fundamentação para alimentar a caminhada de luta articulando Fé e Vida.

Na década de 1960, a Igreja Católica realizou o Concílio Vaticano II, fato histórico que possibilitou a abertura ao diálogo com o mundo moderno, assumindo os desafios postos pela sociedade e pela ciência. Em nível da Igreja da América Latina, as Conferências Episcopais de Medellin (1968) e de Puebla (1979) assumiram abertamente o compromisso com os pobres, fazendo uma leitura sócio-política da realidade à luz da Tradição cristã e da Palavra de Deus.

E a Teologia da Libertação, articulando reflexão com a caminhada de luta do povo, propicia o fortalecimento da defesa dos direitos dos pobres, historicamente excluídos e explorados pelas classes dominantes. Nessa perspectiva, o pobre deixa de ser objeto de assistência da caridade cristã e passa a ser efetivamente o sujeito de sua própria libertação.

No Brasil, parcela do clero - a exemplo de dom Hélder Câmara e dom Pedro Casaldáliga, padre Josimo -, religiosos, religiosas e cristãos em geral, engajam-se no apoio e compromisso com a transformação da sociedade. É nesse contexto que a Congregação das Irmãs de Jesus Crucificado participa da criação das Escolas de Serviços Sociais, com o objetivo de superar o assistencialismo praticado para os pobres e formar profissionais com capacitação técnica para agir no mundo comprometido coma libertação integral do ser humano.

A Irmã Zeli, cearense nascida em 1920 e graduada em Serviço Social em 1957, é convocada pelo então Arcebispo de Maceió, dom Adelmo Machado, para assumir em 1963 a Escola de Serviço Social Padre Anchieta de Alagoas. Em 1972, o curso de Serviço Social é assumido pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL).  Mesmo sendo convidada para lecionar, opta pela ação pastoral na paróquia de União dos Palmares e organização da Escola de Ministérios, como o objetivo de contribuir com a formação teológica e política dos agentes de pastoral da Arquidiocese de Maceió.
Como diretora e missionário, pode-se constatar a sua contribuição à frente do curso, da catequese e da ação pastoral, enfrentando os desafios da sociedade, a exemplo da ditadura militar, na defesa dos direitos humanos e na formação de profissionais ético e tecnicamente competentes.

Mulher de uma alegria, inteligência e força exuberante, sabe vivenciar o Evangelho em sua mais profunda integralidade nas dimensões religiosa e política, tão bem sistematizado na Teologia da Libertação. Em vista da frágil memória em que se encontra, sua companheira e vice-diretora, irmã Lourdes avalia a atual conjuntura alagoana, e afirma: “é triste vê Alagoas no noticiário ocupando as primeiras colocações como campeão em analfabetismo, falta de assistência na saúde e alto índice em violência”.

Alagoas precisa se inspirar no espírito e inteligência dessa cearense e reconhecer o seu trabalho em prol do desenvolvimento e do bem estar da população alagoana!

Postado por Painel Opinativo

O ritual das demissões, do Governo às mídias

27.10.2011 às 18:03
Orlando Silva, sexto ministro demitido no governo Dilma

Poucos são os governos que, tão logo ocorre a denúncia, afastam os envolvidos, mesmo que preventivamente

* Paulo Fona

Tudo começa com a quebra do interesse de alguém. A partilha não é cumprida, os acordos fracassam ou alguém é transformado em "boi de piranha" nas investigações e/ou na Justiça, não aceita, e revela o esquema para algum jornalista.

Acionada a bem do chamado interesse público, a imprensa revela a fraude, aponta nomes de autoridades da hora e começa a fustigar os governos e envolvidos até a demissão e consequente retirada de cena do ministro, secretário ou presidente de estatal.

Do começo do processo até a sua conclusão política, o envolvido e o governo a que pertence resistem a pressão da opinião publicada até o limite, testando a resistência da mídia e a paciência dos leitores/ouvintes telespectadores.

Surge, então, no cenário, a "síndrome das revistas", a expectativa do que publicarão as três maiores revistas de circulação nacional, que estabelecem entre si uma competição para saber quem tem a "maior novidade" capaz de desestabilizar um ministério, um ministro, um governador ou secretário estadual. Em outras palavras, dar o tiro fatal!

Nesse período fervilham os boatos e as "lendas" sobre o que virá de novo e que enterrará a carreira administrativa dessa ou daquela autoridade. O medo do "furo" do concorrente leva, algumas delas, inclusive, a antecipar suas edições na internet.

Do lado dos governos, a espera é longa e o processo de decisão lento. Parece se esperar que surja algum fato novo que ocupe a mídia ou que as denúncias caiam no vazio ou, ainda, que surjam vídeos inquestionáveis, com CPF e RG do acusado – aliás, um novo padrão de "veracidade" – para que ocorra o afastamento definitivo da autoridade citada.

Poucos são os governos que, tão logo ocorre a denúncia, afastam os envolvidos, mesmo que preventivamente. Na política brasileira recente, o ex-presidente Itamar Franco afastou temporariamente ministros, deu-lhes o direito de defesa, inclusive no Congresso Nacional, e os reintegrou, quando comprovada a inocência.

É um exemplo a ser seguido pelos atuais governos para que se poupem dessa interminável ritual que demora dias, semanas e as vezes meses até o desfecho final, uma demissão prevista e anunciada. Se fizesse isso, não só os governos se preservariam como poupariam seus pares e a população desse ritual político e midiático.


*É jornalista

Postado por Painel Opinativo

Direito a Informação - Abrindo as cortinas da História

27.10.2011 às 11:03

Luciano Martins Costa*

Contra a resistência dos senadores e ex-presidentes Fernando Collor de Mello e José Sarney, que sonharam em preservar o sigilo eterno de documentos oficiais ultrassecretos, o Senado Federal finalmente aprovou o projeto de lei do Executivo fixando um prazo máximo para que certas decisões governamentais sejam mantidas fora do conhecimento público.

Os jornais desta quarta-feira, dia 26, destacam a decisão do Parlamento e avançam no debate sobre a questão da transparência nos atos de governo.

O projeto foi enviado ao Congresso, pelo então presidente Lula da Silva, em 2009. A proposta foi aprovada pela Câmara dos Deputados em abril de 2010, mas ao chegar ao Senado foi enxertado com a tese dos papéis ultrassecretos.

No entanto, predominou a visão mais moderna e democrática das relações entre o estado e a sociedade. Durante os debates entre senadores,segundo os jornais, houve um avanço na definição do que são os documentos oficiais de alta sensibilidade.

Estabeleceu-se, por exemplo, que não se trata apenas de dar a destinação correta aos registros do passado, para bem compor a história oficial do país. Trata-se também de assegurar que, daqui para diante, as ações dos governantes contemplem suas responsabilidades com relação à posteridade.

Assim, fica determinado que todas as informações oficiais, de qualquer natureza, deverão estar disponíveis para consulta pública, conforme as normas específicas, no prazo máximo de 50 anos. A transparência dos atos governamentais deve ser assegurada nos 47 artigos do projeto, que descrevem os procedimentos pelos quais tanto no âmbito federal como nos estados e municípios os cidadãos terão acesso a informações públicas.

Os documentos passam a ser classificados em três níveis: ultrassecretos, com sigilo de 25 anos, secretos, com prazo de 15 anos, e reservados, que podem permanecer sigilosos por cinto anos. Pela nova lei, o sigilo pode ser renovado apenas uma vez na categoria ultrassecreto, por decisão do presidente e vice-presidente da República, ministros, comandantes das Forças Armadas e chefes de missões diplomáticas no exterior. Todos os órgãos públicos serão obrigados a divulgar anualmente a lista dos documentos conforme o grau de sigilo, com identificação para referência futura, conforme destacam os jornais.

Convite à investigação

O senador Fernando Collor fez campanha aberta pela preservação do sigilo eterno para papéis ultrassecretos, que tratam de assuntos com potencial para colocar em risco a defesa e a soberania do país, as operações estratégicas das Forças Armadas ou decisões que possam prejudicar as relações diplomáticas. Mais discreto, o senador José Sarney, também ex-presidente da República, lutou igualmente pela manutenção de restrições eternas à divulgação de documentos ultrassecretos.

O empenho dos ex-presidentes em manter ocultos do olhar público determinadas decisões deveria estar provocando comichões nos jornalistas por tentar descobrir que decisões governamentais tão ultrassecretas teriam ocorrido entre 1985 e 1992. A jovem democracia brasileira guarda segredos demais para tão poucos anos de existência.

Mesmo no caso de documentos mais antigos, como os registros de crimes cometidos pelas forças militares do Brasil na guerra do Paraguai, os pesquisadores têm à disposição a versão paraguaia, e não há como negar que houve uma decisão oficial pelo genocídio. Esse é, talvez, o maior motivo de constrangimento para os brasileiros no que se refere às relações externas.

Mas há muitas outras histórias enterradas nos arquivos do governo, como as relações entre autoridades brasileiras e o governo nazista da Alemanha nos anos 1930 e 1940, o processo de negociação da dívida externa,conduzido em Londres pelo ex-ministro e embaixador Roberto Campos, ou as negociações do governo Geisel para a criação do programa nuclear brasileiro.

Os documentos do regime militar são inegavelmente a porção mais apetitosa, do ponto de vista jornalístico, no cardápio das restrições. Mas o mais importante é o estabelecimento da transparência como norma de governo em todos os níveis.

A nova lei torna obsoleto o WikiLeaks por aqui. A determinação de que todos os documentos sejam colocados à disposição da sociedade, em formato digital, é um avanço que coloca o Brasil em posição de respeito. O fato de que qualquer cidadão poderá, no futuro, requerer informações oficiais sem precisar justificar seu pedido representa um novo patamar na consolidação da democracia.

*Publicado no Observatório de Imprensa no dia 26 de outubro de 2011

Postado por Painel Opinativo

Alagoas, que pena!

20.10.2011 às 18:43

Jorge Vieira – Jornalista

Mais uma vez o estado de Alagoas é manchete dos principais meios de comunicação do Brasil e em nível internacional. Mas não é motivado por sua beleza natural, conhecido como o paraíso das águas, ou por sua população, formada de povos amigos, acolhedores e trabalhador. É por ser o estado mais violento do país, segundo os dados da Organização das Nações Unidas (ONU)!


Se bem que, lamentavelmente, não é novidade! Isso espanta mais ainda. Inclusive, este mesmo autor já abordou o tema em outras oportunidades. Mas como nada mudou, e até piorou, é impelido a continuar analisando e refletindo sobre a mesma temática. Como se ver, não se encontra mais circunscrito à realidade tupiniqim.


Entretanto, para os alagoanos (as), saber que são campeões (ãs) já se tornou uma praxe. Já conquistou o título de campeão pelo menor índice de desenvolvimento econômico, perdendo para os estados do Piauí e Sergipe – o primeiro encontra-se numa região das mais castigadas pela seca; e o segundo tem uma extensão territorial menor, mas consegue uma produção superior em grãos; na educação, campeão em analfabetismo; nas áreas da assistência à saúde, moradia, transporte, saneamento básico encontra-se com os piores níveis. Veja-se o caso das cidades atingidas pelas enchentes, depois de um ano os desabrigados encontram-se morando debaixo de lonas. Na matança de jovens, Arapiraca e a capital Maceió, são campeãs.


Diante de uma realidade com esse nível de crueldade, pergunta-se à população em geral e, especialmente, aos governantes e representantes políticos: isto não os envergonha, macula a inteligência de um ser humano minimamente consciente? Em geral, em nível da sociedade, encontra-se um silêncio estarrecedor, às vezes conivente ou alienado da realidade. Alguma manifestação ocorre pontualmente, mas não se observa um posicionamento da sociedade organizada.


No caso dos desabrigados, existem algumas instituições e pessoas abnegadas, motivados por razões religiosas ou simplesmente sociais, que se sensibilizam e aproveitam datas comemorativas para recolher donativos para os acampados. Exemplo, o dia das crianças! Dentre outras, a Igreja Católica está desenvolvendo alguns trabalhos de assistência junto a essas pessoas, como também celebrações e caminhadas pela paz. Atos que têm contribuído inclusive para despertar a sociedade e outras instituições para a problemática. São ações importantes, visto que dão visibilidade das mazelas sociais, mas insuficientes e, até, perigosas, quando não acompanhadas por uma reflexão sobre suas raízes e causas e tomada de posicionamento transformador.


E os dirigentes deste Estado, onde se encontram diante desse quadro?! Alinhados à sua maioria aos interesses econômicos, sistema concentrador de riquezas e promotor das desigualdades sociais, silenciam absurdamente! Ou quando se pronunciam, apresentam medidas demagógicas e ineficazes. Como explicar a discussão no parlamente alagoano sobre a diminuição da maioridade penal como solução para o problema da violência? E mais ironicamente, como entender a publicidade governamental: “Nunca se fez tanto por Alagoas”?

São questões que passam por uma nova consciência social e política da sociedade alagoana, que possibilitará a formação e renovação das instituições sociais e de dirigentes governamentais do Estado. Somente com ações estruturais, pode-se encontrar o caminho para soluções definitivas para os problemas de Alagoas.
É preciso dar um basta na hipocrisia da sociedade que faz de conta que está preocupada e a dos dirigentes políticos que fingem que legislam e governam!

Postado por Painel Opinativo

'Você tem que encontrar o que você ama'

07.10.2011 às 09:32

Steve Jobs*

Estou honrado de estar aqui, na formatura de uma das melhores universidades do mundo. Eu nunca me formei na universidade. Que a verdade seja dita, isso é o mais perto que eu já cheguei de uma cerimônia de formatura. Hoje, eu gostaria de contar a vocês três histórias da minha vida. E é isso. Nada demais. Apenas três histórias.

A primeira história é sobre ligar os pontos.

Eu abandonei o Reed College depois de seis meses, mas fiquei enrolando por mais 18 meses antes de realmente abandonar a escola. E por que eu a abandonei? Tudo começou antes de eu nascer. Minha mãe biológica era uma jovem universitária solteira que decidiu me dar para a adoção. Ela queria muito que eu fosse adotado por pessoas com curso superior. Tudo estava armado para que eu fosse adotado no nascimento por um advogado e sua esposa. Mas, quando eu apareci, eles decidiram que queriam mesmo uma menina.

Então meus pais, que estavam em uma lista de espera, receberam uma ligação no meio da noite com uma pergunta: “Apareceu um garoto. Vocês o querem?” Eles disseram: “É claro.”

Minha mãe biológica descobriu mais tarde que a minha mãe nunca tinha se formado na faculdade e que o meu pai nunca tinha completado o ensino médio. Ela se recusou a assinar os papéis da adoção. Ela só aceitou meses mais tarde quando os meus pais prometeram que algum dia eu iria para a faculdade. E, 17 anos mais tarde, eu fui para a faculdade. Mas, inocentemente escolhi uma faculdade que era quase tão cara quanto Stanford. E todas as economias dos meus pais, que eram da classe trabalhadora, estavam sendo usados para pagar as mensalidades. Depois de seis meses, eu não podia ver valor naquilo.

Eu não tinha idéia do que queria fazer na minha vida e menos idéia ainda de como a universidade poderia me ajudar naquela escolha. E lá estava eu, gastando todo o dinheiro que meus pais tinham juntado durante toda a vida. E então decidi largar e acreditar que tudo ficaria ok.

Foi muito assustador naquela época, mas olhando para trás foi uma das melhores decisões que já fiz. No minuto em que larguei, eu pude parar de assistir às matérias obrigatórias que não me interessavam e comecei a frequentar aquelas que pareciam interessantes. Não foi tudo assim romântico. Eu não tinha um quarto no dormitório e por isso eu dormia no chão do quarto de amigos. Eu recolhia garrafas de Coca-Cola para ganhar 5 centavos, com os quais eu comprava comida. Eu andava 11 quilômetros pela cidade todo domingo à noite para ter uma boa refeição no templo hare-krishna. Eu amava aquilo.

Muito do que descobri naquela época, guiado pela minha curiosidade e intuição, mostrou-se mais tarde ser de uma importância sem preço. Vou dar um exemplo: o Reed College oferecia naquela época a melhor formação de caligrafia do país. Em todo o campus, cada poster e cada etiqueta de gaveta eram escritas com uma bela letra de mão. Como eu tinha largado o curso e não precisava frequentar as aulas normais, decidi assistir as aulas de caligrafia. Aprendi sobre fontes com serifa e sem serifa, sobre variar a quantidade de espaço entre diferentes combinações de letras, sobre o que torna uma tipografia boa. Aquilo era bonito, histórico e artisticamente sutil de uma maneira que a ciência não pode entender. E eu achei aquilo tudo fascinante.

Nada daquilo tinha qualquer aplicação prática para a minha vida. Mas 10 anos mais tarde, quando estávamos criando o primeiro computador Macintosh, tudo voltou. E nós colocamos tudo aquilo no Mac. Foi o primeiro computador com tipografia bonita. Se eu nunca tivesse deixado aquele curso na faculdade, o Mac nunca teria tido as fontes múltiplas ou proporcionalmente espaçadas. E considerando que o Windows simplesmente copiou o Mac, é bem provável que nenhum computador as tivesse.

Se eu nunca tivesse largado o curso, nunca teria frequentado essas aulas de caligrafia e os computadores poderiam não ter a maravilhosa caligrafia que eles têm. É claro que era impossível conectar esses fatos olhando para frente quando eu estava na faculdade. Mas aquilo ficou muito, muito claro olhando para trás 10 anos depois.

De novo, você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja. Essa maneira de encarar a vida nunca me decepcionou e tem feito toda a diferença para mim.

Minha segunda história é sobre amor e perda.

Eu tive sorte porque descobri bem cedo o que queria fazer na minha vida. Woz e eu começamos a Apple na garagem dos meus pais quando eu tinha 20 anos. Trabalhamos duro e, em 10 anos, a Apple se transformou em uma empresa de 2 bilhões de dólares e mais de 4 mil empregados. Um ano antes, tínhamos acabado de lançar nossa maior criação — o Macintosh — e eu tinha 30 anos.

E aí fui demitido. Como é possível ser demitido da empresa que você criou? Bem, quando a Apple cresceu, contratamos alguém para dirigir a companhia. No primeiro ano, tudo deu certo, mas com o tempo nossas visões de futuro começaram a divergir. Quando isso aconteceu, o conselho de diretores ficou do lado dele. O que tinha sido o foco de toda a minha vida adulta tinha ido embora e isso foi devastador. Fiquei sem saber o que fazer por alguns meses.

Senti que tinha decepcionado a geração anterior de empreendedores. Que tinha deixado cair o bastão no momento em que ele estava sendo passado para mim. Eu encontrei David Peckard e Bob Noyce e tentei me desculpar por ter estragado tudo daquela maneira. Foi um fracasso público e eu até mesmo pensei em deixar o Vale [do Silício].

Mas, lentamente, eu comecei a me dar conta de que eu ainda amava o que fazia. Foi quando decidi começar de novo. Não enxerguei isso na época, mas ser demitido da Apple foi a melhor coisa que podia ter acontecido para mim. O peso de ser bem sucedido foi substituído pela leveza de ser de novo um iniciante, com menos certezas sobre tudo. Isso me deu liberdade para começar um dos períodos mais criativos da minha vida. Durante os cinco anos seguintes, criei uma companhia chamada NeXT, outra companhia chamada Pixar e me apaixonei por uma mulher maravilhosa que se tornou minha esposa.

A Pixar fez o primeiro filme animado por computador, Toy Story, e é o estúdio de animação mais bem sucedido do mundo. Em uma inacreditável guinada de eventos, a Apple comprou a NeXT, eu voltei para a empresa e a tecnologia que desenvolvemos nela está no coração do atual renascimento da Apple.

E Lorene e eu temos uma família maravilhosa. Tenho certeza de que nada disso teria acontecido se eu não tivesse sido demitido da Apple.

Foi um remédio horrível, mas eu entendo que o paciente precisava. Às vezes, a vida bate com um tijolo na sua cabeça. Não perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me permitiu seguir adiante foi o meu amor pelo que fazia. Você tem que descobrir o que você ama. Isso é verdadeiro tanto para o seu trabalho quanto para com as pessoas que você ama.

Seu trabalho vai preencher uma parte grande da sua vida, e a única maneira de ficar realmente satisfeito é fazer o que você acredita ser um ótimo trabalho. E a única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que você faz.

Se você ainda não encontrou o que é, continue procurando. Não sossegue. Assim como todos os assuntos do coração, você saberá quando encontrar. E, como em qualquer grande relacionamento, só fica melhor e melhor à medida que os anos passam. Então continue procurando até você achar. Não sossegue.

Minha terceira história é sobre morte.

Quando eu tinha 17 anos, li uma frase que era algo assim: “Se você viver cada dia como se fosse o último, um dia ele realmente será o último.” Aquilo me impressionou, e desde então, nos últimos 33 anos, eu olho para mim mesmo no espelho toda manhã e pergunto: “Se hoje fosse o meu último dia, eu gostaria de fazer o que farei hoje?” E se a resposta é “não” por muitos dias seguidos, sei que preciso mudar alguma coisa.

Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo — expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar — caem diante da morte, deixando apenas o que é apenas importante. Não há razão para não seguir o seu coração.

Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração.

Há um ano, eu fui diagnosticado com câncer. Era 7h30 da manhã e eu tinha uma imagem que mostrava claramente um tumor no pâncreas. Eu nem sabia o que era um pâncreas.

Os médicos me disseram que aquilo era certamente um tipo de câncer incurável, e que eu não deveria esperar viver mais de três a seis semanas. Meu médico me aconselhou a ir para casa e arrumar minhas coisas — que é o código dos médicos para “preparar para morrer”. Significa tentar dizer às suas crianças em alguns meses tudo aquilo que você pensou ter os próximos 10 anos para dizer. Significa dizer seu adeus.

Eu vivi com aquele diagnóstico o dia inteiro. Depois, à tarde, eu fiz uma biópsia, em que eles enfiaram um endoscópio pela minha garganta abaixo, através do meu estômago e pelos intestinos. Colocaram uma agulha no meu pâncreas e tiraram algumas células do tumor. Eu estava sedado, mas minha mulher, que estava lá, contou que quando os médicos viram as células em um microscópio, começaram a chorar. Era uma forma muito rara de câncer pancreático que podia ser curada com cirurgia. Eu operei e estou bem.

Isso foi o mais perto que eu estive de encarar a morte e eu espero que seja o mais perto que vou ficar pelas próximas décadas. Tendo passado por isso, posso agora dizer a vocês, com um pouco mais de certeza do que quando a morte era um conceito apenas abstrato: ninguém quer morrer. Até mesmo as pessoas que querem ir para o céu não querem morrer para chegar lá.

Ainda assim, a morte é o destino que todos nós compartilhamos. Ninguém nunca conseguiu escapar. E assim é como deve ser, porque a morte é muito provavelmente a principal invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo. Nesse momento, o novo é você. Mas algum dia, não muito distante, você gradualmente se tornará um velho e será varrido. Desculpa ser tão dramático, mas isso é a verdade.

O seu tempo é limitado, então não o gaste vivendo a vida de um outro alguém.

Não fique preso pelos dogmas, que é viver com os resultados da vida de outras pessoas.

Não deixe que o barulho da opinião dos outros cale a sua própria voz interior.

E o mais importante: tenha coragem de seguir o seu próprio coração e a sua intuição. Eles de alguma maneira já sabem o que você realmente quer se tornar. Todo o resto é secundário.

Quando eu era pequeno, uma das bíblias da minha geração era o Whole Earth Catalog. Foi criado por um sujeito chamado Stewart Brand em Menlo Park, não muito longe daqui. Ele o trouxe à vida com seu toque poético. Isso foi no final dos anos 60, antes dos computadores e dos programas de paginação. Então tudo era feito com máquinas de escrever, tesouras e câmeras Polaroid.

Era como o Google em forma de livro, 35 anos antes de o Google aparecer. Era idealista e cheio de boas ferramentas e noções. Stewart e sua equipe publicaram várias edições de Whole Earth Catalog e, quando ele já tinha cumprido sua missão, eles lançaram uma edição final. Isso foi em meados de 70 e eu tinha a idade de vocês.

Na contracapa havia uma fotografia de uma estrada de interior ensolarada, daquele tipo onde você poderia se achar pedindo carona se fosse aventureiro. Abaixo, estavam as palavras:

“Continue com fome, continue bobo.”

Foi a mensagem de despedida deles. Continue com fome. Continue bobo. E eu sempre desejei isso para mim mesmo. E agora, quando vocês se formam e começam de novo, eu desejo isso para vocês. Continuem com fome. Continuem bobos.

Obrigado."

* Discurso de Steve Jobs na Universidade de Stanford, em 2005

Postado por Painel Opinativo

Discurso e realidade: uma análise para além da Era Lula

06.10.2011 às 14:12

Jorge Vieira – Jornalista*

O governo do presidente Lula deixa a direita sem discurso e a esquerda obnubilada! Para os primeiros, pela trajetória do sindicalista e de seu partido de esquerda, Lula não concluiria o seu governo; enquanto que a outra parte acreditava que era a oportunidade de um partido popular ter um pr4sidente esquerda para fazer a revolução no país e, quiçá!, no mundo!


Para os opositores de plantão, leia-se PSDB e PFL (Democratas), partidos alinhados do liberalismo econômico estadunidense e inglês e defensores ferrenhos da política de mercado laissez-faire, apostaram na inviabilidade da política econômica do sindicalista. Erram! E mais, diante da liderança e popularidade de Lula, restou-lhes somente espernear.


Indiscutivelmente, o Brasil de hoje não é mais o mesmo de 500 anos atrás. Mas não é somente na estabilidade econômica, social e política, mas sobretudo em nível da auto-estima de sua população. Internamente, o povo está comendo, estudando e passeando; no exterior, o brasileiro é respeitado e admirado pelo presidente que teve.


O Brasil, que anteriormente era vista como correia de transmissão dos interesses das principais economias mundiais, passa a agente importante na formulação de políticas no cenário internacional. Na geopolítica latino-americana, o impacto foi maior, a sua política influenciou a vitória de vários presidentes originários dos movimentos sociais e com perfil de esquerda.


Enquanto as lideranças controladoras das principais economias mundiais debatem e se atropelam sem saber o que fazer diante do caos financeiro, econômico, político e social em que se encontram os seus de seus países, o Brasil opta pela continuidade política elegendo Dilam Rousseff presidenta, e mantém sua base econômica desenvolvimentista.


Aqui se encontra o dilema! A massa alimentada físico e mentalmente, colhe os frutos do bem estar social. E, em geral, é por onde ela se movimenta - respeitando as raríssimas exceções. Na mesma direção, obviamente por outros motivos, os movimentos sociais e os partidos de esquerda encontram-se satisfeitos com os resultados obtidos. Mas, por outro lado, encontra-se uma classe média formadora de opinião, moralista e conservadora socialmente, ainda silenciosa quanto à defesa de seus interesses.


Esse quadro demonstra a fragilidade política para a sustentação das conquistas até aqui adquiridas e na possibilidade de fazer avançar a construção de uma nação que tenha um nível pleno de garantias para a sua população. Pela dimensão do Brasil e suas riquezas naturais e intelectuais, é preciso projetar base de um desenvolvimento que respeite a diversidade cultural e a natureza, possibilitando a qualidade de vida holística.


A intelectualidade brasileira encontra-se adormecida e atordoada! Escuta-se ruídos truculentos e dogmatismo raivoso e tresloucado ou um conformismo inerte diante do encantamento estético de uma obra inacabada. São raríssimas as reflexões que identificam os elementos fundamentais em que se encontra a atual realidade, e menos ainda indicativos de direções sustentáveis e seguras.


Para não ser pego de surpresa por algum discurso moralista e aventura eleitoreira, esta parece ser a tarefa fundamental da intelectualidade, dos movimentos sociais, esquerdas e segmentos que acreditam nesse paraíso chamado Brasil. E que seu povo possa participar e contribuir com suas extraordinárias qualidades da construção de mundo melhor.

*É professor do Cesmac

Postado por Painel Opinativo

Sem corrupção, não há democracia!

04.10.2011 às 11:20

*Fernando Filgueiras by Revista Pittacos

 
Dia desses fui buscar meu filho na escola, que se localiza em uma rua de mão única, em Belo Horizonte. Para parar o carro em frente à escola é necessário dar uma volta para poder acessar essa rua. A rua é bem sinalizada e, além de faixas de pedestres, há placas de sinalização e pinturas indicando que  é de mão única. Como um cidadão levemente consciente de seus deveres cívicos que sou, dei a volta com o meu carro e cheguei à distinta rua para estacionar em uma vaga que estava disponível. Para minha infeliz surpresa, uma senhora vinha com seu carro pela contramão e roubou-me a vaga.
 
Cena típica de um dos desenhos do Pateta, personagem da Disney. Pateta interpreta o Sr. Walker, um cidadão comum norte-americano, honesto e cumpridor dos seus deveres. Porém, quando atrás do volante, vira o Sr. Wheeler e, por sua vez, um monstro no trânsito.
 
Perplexo e revoltado, fiz cara de surpresa – ou de Pateta – para ela, que me disse que não havia problema algum em entrar na rua pela contramão e que, por necessidade, estava com pressa para pegar seu filho. Além de mim, o vendedor de balas ficou revoltado e outros pais que aguardavam a saída de seus filhos compartilharam minha raiva, apontando as mazelas do trânsito brasileiro. Contive-me em minha raiva e confesso que foi muito ruim, porque fiquei pensando no significado de tal ato. Fui o legítimo Pateta. A mulher, além de surrupiar a vaga para a qual me dirigia, ainda tirou meu sono.
 
Ora, qual o significado de tamanho desrespeito pela lei em uma sociedade democrática? Não falamos de um acontecimento entre pessoas distintas. Falamos de simples cidadãos comuns – eu e a distinta senhora. No limite, esta cidadã expressou o perfeito desrespeito à lei, justificando-se pelo fato de que suas necessidades falam mais alto que a virtude de obedecer à lei. Uma mãe que desobedece simples leis de trânsito em frente a uma escola diz a seus filhos que suas necessidades imediatas e pequenas são mais importantes que o bem da coletividade, da qual ela e seus familiares fazem parte. Mas será que precisaríamos de uma sociedade feita de cidadãos que obedeçam incondicional e virtuosamente à lei?
 
Certamente uma sociedade feita de cidadãos plenamente virtuosos não pode se dizer uma sociedade democrática, na qual haja liberdade. As virtudes, como já ensinava Aristóteles, se baseiam em uma concepção de boa vida e representam uma disposição de caráter dos cidadãos em persegui-las e realizá-las. Mas o que seria uma concepção de boa vida? Seria uma concepção de felicidade que nutrimos enquanto membros de uma comunidade. Concepção de felicidade esta que deve se basear em uma verdade. As virtudes, se tomadas como cegas, dependem, portanto, de uma concepção de verdade, para a qual estabelecemos nossa fé.
 
A relação entre virtudes e liberdade é muito tensa, porquanto agirmos cegamente em sua persecução significa abrirmos mão de nossos desejos e da satisfação de nossas necessidades individuais. A corrupção significa exatamente a sobreposição dos interesses individuais ao interesse público. E, virtuosos que somos, desejamos uma sociedade livre dela, em que governos e cidadãos cuidem da coisa pública, estando eles envolvidos na mais perfeita pureza de espírito. A corrupção nos horroriza e nos faz lembrar das mais importantes virtudes do caráter político. Todavia, somos incapazes de perceber a corrupção praticada em nosso próprio cotidiano. O cotidiano nos corrompe.
 
Uma sociedade feita de cidadãos e governantes virtuosamente puros é uma sociedade ideal, em que o tirano seja filósofo e os cidadãos iluminados o suficiente para compreender o bem. As democracias, por outro lado, são feitas de cidadãos comuns, que estão longe – muito longe – da filosofia e que seguem, sobretudo, a ordem das necessidades. Nas democracias a corrupção precisa ser tolerada, de modo que ela termina por ter um aspecto funcional. A corrupção nos lembra da existência da lei e de que instituições importam. E que obedecer à lei é fundamental para a existência de uma comunidade política. O que diferencia o reino do rei filósofo de uma democracia é que, no primeiro, as virtudes encontram-se com o demiurgo, enquanto na segunda as virtudes encontram-se nas instituições.
 
O argumento da senhora é que ela agia por necessidade. O ato de desrespeitar a lei seria, em tese, justificado. A ordem das necessidades não comporta as virtudes, para as quais está diametralmente oposta. E são as necessidades que corrompem as instituições. A democracia que se vislumbra no horizonte egípcio é motivada pelas necessidades do povo, tendo em vista desejos imediatos como o fim da carestia, a fruição de bens materiais e tecnológicos, que não poderiam ser garantidos por um governo que se alimentava há 30 anos da exceção. Em uma sociedade que deseja fruir da modernidade, não cabe uma constituição balizada nas virtudes do tirano. Em uma democracia cabe um conjunto de instituições virtuosas, que sejam capazes de alimentar as necessidades dos cidadãos, fazendo-os fruir seus bens e nutrindo desejos.
 
Uma sociedade que seja capaz de compatibilizar as virtudes com as necessidades é uma sociedade capaz de manter a corrupção sob pleno controle. Contudo, nas democracias, as virtudes não são compatíveis com as necessidades, o que exige uma tolerância em relação à corrupção. A corrupção, nas democracias, nos lembra da existência das leis e ocorre quando as necessidades se sobrepõem à lei. Por isso, ela precisa ser tolerada, porque o eventual moralismo que possa surgir desse processo exige um demiurgo platônico, que eleve a autoridade à liberdade, ou seja, estabeleça o autoritarismo.
 
A vil senhora que me roubou a vaga no espaço público, desrespeitando a lei, fez os que presenciaram a cena lembrar a existência das leis de trânsito. Esse é o aspecto funcional da corrupção. Sua existência lembra-nos a importância da constituição e também de que, em uma democracia, a autoridade política tem limites e deve zelar pelo interesse público. O episódio certamente nos faz próximos dos instintos mais primitivos. Teve gente querendo linchar a pobre senhora. Mas, talvez por acaso, isto não ocorreu. A corrupção precisa ser tolerada em uma democracia, como os erros dos outros precisam ser tolerados no trânsito.
 
A democracia exige tolerância à corrupção porque enquanto exigimos virtudes aos nossos concidadãos, esquecemos de olhar nossa própria prática. Os pais que se revoltaram com a vil senhora que me roubou a vaga pela contramão paravam seus carros em local proibido. O vendedor de balas não tem autorização para praticar comércio naquele local e eu, como reles cidadão comum, sigo tentando respeitar as leis e agir virtuosamente. Sem resultados, porque minhas necessidades importam.
 
 
*Texto extraído daqui
Postado por Painel Opinativo

Desafios da saúde pública em Alagoas

07.09.2011 às 05:42

Jorge Vieira - Jornalista*

O quadro da assistência às pessoas que precisam do Sistema Único de Saúde (SUS) em Alagoas é dos mais críticos entre os estados brasileiros. A falta de unidades básicas nos bairros e nos municípios e a carência de servidores públicos provocam no Hospital Geral do Estado (HGE) o acúmulo de pacientes à espera do serviço de saúde, diferentemente do imediato atendimento prestado à atual vereadora Heloísa Helena.


Esta realidade pode ser constatada cotidianamente nos corredores do Hospital Geral com o povão, na falta de leitos inclusive para os pacientes que correm risco de vida (Área Vermelha e pós-cirúrgico) que se encontram super lotados.


A Assembleia Legislativa de Alagoas realizou Sessão Especial, dia 15 de agosto, de iniciativa do presidente da Comissão Permanente de Saúde, deputado Judson Cabral (PT), sobre as dificuldades no atendimento dos serviços de Saúde do Estado. O debate foi motivado por denúncias de associações de moradores, Conselho Estadual de Saúde e Sindicato de servidores.


Além da Sessão, uma comissão de parlamentares tem visitado as unidades de saúde de Maceió. Após ouvir pacientes e profissionais da saúde, solicitou a prestação de contas por parte das autoridades responsáveis, como previsto na legislação do SUS, em Audiência Pública com a presença de representantes do Ministério da Saúde.
Desde 1963, ainda no governo de Jango Goulart, o então ministro da Saúde, Wilson Fadul, no discurso de abertura da 3ª Conferência Nacional de Saúde defendeu a uma assistência preventiva e curativa plena. Passado os anos da ditadura militar, as reivindicações e participação da população pela melhoria da qualidade da prestação de serviços aumentaram.


A presidente Dilma Roussef, nas eleições de 2010 colocou como prioridadea questão da saúde. Defendeu que a consolidação do Sistema Único de Saúde seria uma grande prioridade de seu governo.


Ao contrário das garantias constitucionais e toda legislação federal, da   determinação da política do governo federal, no estado de Alagoas a saúde encontra-se abandona e em curso o processo de terceirização e privatização da assistência através da Organização da Sociedade de Interesse Público (OSCIP).
Diante disso é urgente um projeto de apoio popular, concurso público para todas as áreas, construção do HGE do Tabuleiro e estruturação das unidades existentes. Somente assim pode atender aos princípios da Constituição Federal, como a universalização e integralidade do atendimento e com o controle social.

*É professor do Cesmac

Postado por Painel Opinativo

Trajetória de crimes e de terror

30.08.2011 às 20:33

Cavalcante é beneficiado por lei, mas 13 anos de prisão não mudam sua trajetória de assassinatos em Alagoas

*Redação

O ex-coronel Manoel Cavalcante recebeu o benefício da progressão de regime semi-aberto, depois de cumprir um sexto da pena pela condenação de seis crimes já transitados em julgados; os de homicídio contra Sílvio Viana, Ricardo Lessa e Antenor Carlota e de formação de quadrilha e porte ilegal de arma.

O assassinato do Cabo Gonçalves, onde Cavalcante também é réu confesso de participação, ele pode responder em liberdade porque o processo ainda está em fase de recurso.

Há uma lista de outras mortes e outros crimes onde o ex-oficial da Polícia Militar de Alagoas é apontado, mas isso não é o bastante para que ele continue atrás das grades. A lei lhe dá a garantia de ficar em liberdade monitorada, até cumprir todo o restante da pena ou, caso a condenação do crime contra o Cabo Gonçalves seja confirmada no STJ, ele retornar ao regime fechado.

O fato é que a notícia da soltura de Cavalcante provocou tensão em muita gente  que contribuiu para as condenações, na Justiça, do ex-militar.

Antes de ser preso há 13 anos, Cavalcante era temido dentro e fora do quartel. Ninguém ousava desafiá-lo e tinha proteção e ligação com muitos políticos no Estado, o que o tornava praticamente imune a qualquer investigação ou acusação formal.

Preso, chegou a ser acusado de mandar matar uma testemunha contra ele em Santana do Ipanema. Condenado, delatou ex-amigos da política como mandantes do assassinato de Gonçalves: Francisco Tenório, João Beltrão e Antônio Albuquerque. Considerado criminoso de alta periculosidade, Cavalcante viveu em vários presídios de segurança máxima no Brasil.

Agora está fora das grades e mesmo que tenha uma liberdade monitorada provisoriamente, a sua trajetória de vida e de crimes não permite que a população alagoana se sinta tranquila com a sua presença fora da cadeia.

Sua vida de ‘bom moço’ no sistema prisional não convence quem conhece de perto a sua forma de tratar a vida e a morte.

Ou seja, há quem garanta que a previsão para os próximos tempos é de dias tensos em nossa Alagoas.

            

Postado por Painel Opinativo


Painel Opinativo por Opinião & Expressão

Espaço para postagens de opinião e expressão dos internautas

Todos os direitos reservados
- 2009-2017 Press Comunicações S/S