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As poderosas (e perigosas) ramificações do caso Master

O caso Master há muito deixou de ser apenas a história da derrocada de um banco.

23.09.2026 às 22:20
AssessorIA


O caso Master há muito deixou de ser apenas a história da derrocada de um banco.
A cada nova revelação, investigação ou decisão judicial, surgem ramificações capazes de alcançar algumas das instituições mais poderosas da República.Banco Central, CVM, Polícia Federal, Ministério Público, Congresso, CNJ e Supremo Tribunal Federal passaram, de maneiras diferentes, a orbitar o mesmo caso.

Nesta semana, o CNJ determinou o cancelamento de 16 precatórios do setor sucroalcooleiro negociados com o Master, avaliados em R$ 4,7 bilhões. A medida decorreu de provocação da AGU e envolveu títulos cuja expedição ocorreu antes do trânsito em julgado das ações.

Em outra frente, Flávio Dino determinou uma revisão das normas da CVM e citou fragilidades nos mecanismos de fiscalização do mercado de capitais. A decisão menciona inclusive denúncia de 2022 que, segundo o ministro, antecipava com detalhes irregularidades posteriormente identificadas no Master.

O Congresso também entrou no tabuleiro.Existe requerimento para criação de uma CPI do Master no Senado. Cristiano Zanin recusou, por enquanto, obrigar Davi Alcolumbre a instalá-la, por entender que não estava caracterizada a omissão do presidente da Casa.

E existe ainda uma discussão aparentemente simples, mas politicamente explosiva: saber quem esteve ou não no Senado.Luiz Fux deu dez dias para a Casa se manifestar sobre o pedido de acesso a eventuais registros de entrada e saída de Daniel Vorcaro, Viviane Barci, Antônio Carlos Camilo Antunes e Fábio Luís Lula da Silva.É indispensável fazer a ressalva: buscar registros de acesso não significa comprovar visitas, muito menos irregularidades.Mas talvez a ramificação mais sensível esteja dentro do próprio Supremo.

A Corte ainda não concluiu sequer a discussão sobre como deverão ser tratados os episódios envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça. O julgamento foi interrompido por pedido de vista de Flávio Dino, quando havia placar parcial de 4 a 3 pela análise separada dos casos.

O Master, portanto, já não coloca sob observação apenas pessoas. Coloca sob observação mecanismos institucionais.Como um banco conseguiu estabelecer tantas conexões? Os órgãos reguladores funcionaram como deveriam? As relações identificadas produziram favorecimentos ou eram relações profissionais e institucionais legítimas? Houve omissões? Quem sabia o quê — e desde quando?

Essas perguntas não autorizam condenações antecipadas. Ao contrário: quanto mais poderosos forem os personagens alcançados pelas investigações, maior deve ser o compromisso com provas, contraditório e devido processo legal. Mas também maior precisa ser a transparência.

Porque existe um perigo adicional quando um caso alcança simultaneamente agentes financeiros, autoridades, órgãos fiscalizadores, Congresso e integrantes do Judiciário: a investigação passa a tocar estruturas que também têm poder para investigar, decidir, fiscalizar ou limitar a própria investigação.

É exatamente aí que o Master deixa de ser apenas um escândalo financeiro. Transforma-se num teste para as instituições brasileiras.

E talvez a pergunta mais importante já não seja apenas até onde chegam as ramificações do Master. É saber se a República conseguirá investigá-las até o fim — sejam quais forem os nomes encontrados no caminho.

Postado por Painel Editorial

O Master como última cartada?

Há uma diferença enorme entre um fato e uma narrativa construída sobre ele.

14.09.2026 às 19:20
AssessorIA


É fato que o Iprev de Maceió aplicou milhões de reais no Banco Master durante a administração de JHC. É legítimo, portanto, cobrar explicações de quem comandava politicamente a Prefeitura. Outra coisa é afirmar que JHC participou de desvio, determinou a operação ou integrou algum esquema criminoso. Até agora, essa prova não apareceu.

Mesmo assim, Renan Filho decidiu transformar o Master em uma das principais armas de sua campanha. Criou “silenciômetro”, levou o assunto ao guia eleitoral, às entrevistas, às redes sociais e ao debate. Foi além da cobrança administrativa e afirmou que JHC estaria sendo investigado (sem provas).

A Justiça Eleitoral já interveio mais de uma vez quando considerou que a associação ultrapassava o suporte factual disponível. Mais recentemente, determinou a retirada de publicação que apresentava como fato a existência de investigação contra JHC.

Por que tanta insistência?

Talvez porque Renan tenha identificado no Master aquilo que ainda procura nesta eleição: um fato capaz de aumentar a rejeição do adversário. As pesquisas não contam uma história única, mas mostram uma disputa difícil, algumas vezes equilibrada e outras com vantagem relevante de JHC.

Para Renan, não basta convencer o eleitor de que governaria melhor. Pode ser necessário convencer parte dele de que não deve confiar em JHC. É aí que o Master se torna eleitoralmente precioso.

O problema é que uma acusação repetida muitas vezes não se transforma automaticamente em prova. Renan tem todo o direito de cobrar onde foram parar os recursos do Iprev. Mas, se pretende transformar responsabilidade administrativa em responsabilidade pessoal ou criminal, precisa apresentar algo além de suspeitas. Caso contrário, corre o risco de transformar sua principal arma eleitoral em seu maior problema.

Porque, quando uma campanha passa a depender demais de uma acusação ainda não comprovada, surge inevitavelmente outra pergunta: se o Master não derrubar JHC, qual será o plano B de Renan Filho?

Postado por Painel Editorial

Supremo Desrespeito à Nação

Independente do motivo que tenha despertado o gargalhar coletivo , o clima de crise instaurado no STF exigiria um outro tipo de postura dos ministros da Casa

04.09.2026 às 12:40
Brenno Carvalho


Há fotografias que registram um instante. Outras acabam simbolizando uma época. A imagem de Brenno Carvalho, de O Globo, mostrando ministros do Supremo Tribunal Federal em descontração e gargalhadas ao final da sessão de quarta-feira talvez pertença à segunda categoria.

É preciso fazer uma ressalva indispensável: eles não estavam rindo da crise. Segundo relatos publicados pela imprensa, as gargalhadas surgiram de uma brincadeira feita por Flávio Dino durante uma conversa sobre o julgamento daquele dia. André Mendonça já havia deixado o local e Cármen Lúcia participara remotamente.

Mas o problema da fotografia não está na origem do riso. Está no momento do riso.

O Supremo atravessa uma crise de credibilidade de enorme gravidade. Revelações envolvendo Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes provocaram questionamentos que precisam ser esclarecidos, enquanto o próprio presidente da Corte, Edson Fachin, reconhece a gravidade do momento institucional.

E então surge aquela fotografia.

Alexandre de Moraes gargalha. Gilmar Mendes também ri. Cristiano Zanin sorri. Fachin aparece de costas. Para milhões de brasileiros, pouco importa qual foi a piada: a imagem transmitida é a de uma Corte aparentemente indiferente à tempestade que acontece do lado de fora.

Pode ser injusto julgar pessoas por uma fração de segundo congelada por uma câmera. Mas ministros do Supremo não são cidadãos comuns dentro daquele prédio. Representam uma das instituições mais poderosas da República.

Em momentos de crise, forma também é conteúdo. Liturgia, sobriedade e percepção pública importam.

Não por acaso, a repercussão foi devastadora. Monitoramento de mais de 86 mil comentários públicos encontrou forte associação da fotografia a sentimentos de deboche, escárnio e impunidade — e as críticas se dirigiram predominantemente à própria instituição, não apenas a um ministro.

O Supremo exige respeito às suas decisões — e deve exigir.

Mas respeito institucional não pode funcionar em mão única.

Quando parcela expressiva da sociedade cobra explicações e recebe como imagem daquele momento gargalhadas vindas do mais alto tribunal do país, instala-se uma sensação profundamente corrosiva: a de que Brasília vive uma realidade e o cidadão, outra.

Talvez tenha sido apenas uma piada, mas, naquele momento, aquela gargalhada coletiva soou como um tapa na cara da Nação.

Postado por Painel Editorial

Dá para acreditar nas pesquisas eleitorais?

Se o eleitor alagoano resolver acompanhar todas as pesquisas divulgadas nos últimos dias, talvez termine sabendo menos sobre a eleição do que imaginava

01.09.2026 às 15:00
AssessorIA


Em um levantamento, JHC está na frente. Em outro, Renan Filho lidera. E há pesquisa apontando até possibilidade de vitória no primeiro turno — curiosamente, para candidatos diferentes.

A Paraná Pesquisas colocou JHC com 47,2% e Renan Filho com 41,3%.

A Falpe apresentou cenário inverso: Renan com 41,25% e JHC com 37,5%.

E o Índice Inteligência ampliou ainda mais a divergência, apontando JHC com 47,6% contra 35,6% de Renan.

Naturalmente, pesquisas diferentes não precisam apresentar resultados idênticos.

Amostras, metodologias, distribuição geográfica, forma de abordagem, período de coleta e tratamento dos dados podem produzir variações.

Mas quando levantamentos realizados em períodos próximos apresentam retratos tão distintos, é legítimo que o eleitor pergunte:

em qual pesquisa acreditar?

A resposta talvez seja menos confortável do que gostaríamos: em nenhuma isoladamente.

Pesquisa eleitoral não é urna antecipada.

É uma fotografia estatística de determinado universo de eleitores, capturada segundo uma metodologia específica e dentro de determinado período.

Por isso, o mais prudente é observar tendências, comparar diferentes institutos e acompanhar a evolução das pesquisas ao longo da campanha.

O mesmo vale para o Senado.

Arthur Lira, Renan Calheiros e Marina JHC mudam de posição conforme o levantamento, embora os três apareçam repetidamente no núcleo mais competitivo da disputa.

O problema começa quando pesquisa deixa de ser instrumento de informação e passa a ser utilizada como peça de propaganda.

Campanhas naturalmente divulgam aquela que lhes é favorável, escondem a desfavorável e apresentam números como se fossem resultados definitivos.

Cabe ao jornalismo fazer justamente o contrário.

Mostrar todas.

Explicar as diferenças.

Contextualizar metodologias.

E evitar transformar qualquer fotografia momentânea em sentença eleitoral.

Porque, diante de números tão diferentes, talvez exista apenas uma pesquisa absolutamente confiável.

Ela acontecerá em outubro, terá milhões de entrevistados e será realizada diante das urnas.

Postado por Painel Editorial

Jornalismo é profissão

26.08.2026 às 19:40
AssessorIA


Em 2009, o Supremo Tribunal Federal tomou uma decisão que alterou profundamente o exercício do jornalismo no Brasil.

Por 8 votos a 1, derrubou a exigência do diploma de curso superior em Jornalismo para o exercício profissional, entendendo que a obrigatoriedade contrariava princípios constitucionais relacionados à liberdade de expressão.

Passados dezessete anos, talvez seja hora de perguntar se aquela decisão continua respondendo adequadamente à realidade brasileira.

O mundo da informação mudou.

As redes sociais transformaram qualquer cidadão em potencial produtor e distribuidor de conteúdo. Celulares tornaram-se câmeras, plataformas digitais assumiram parte da função anteriormente exercida pelos meios tradicionais e uma informação falsa pode alcançar milhões de pessoas em poucos minutos.

Nada disso deveria ser combatido restringindo a liberdade de expressão.

Todo cidadão deve continuar tendo o direito de falar, escrever, publicar, criticar e manifestar sua opinião.

Mas há uma diferença fundamental entre exercer a liberdade de expressão e exercer profissionalmente o jornalismo.

Um cidadão pode comentar uma decisão judicial.

O jornalista precisa saber apurá-la.

Pode criticar um político.

O jornalista precisa ouvir os lados envolvidos.

Pode reproduzir uma informação recebida pelo WhatsApp.

O jornalista tem obrigação profissional de verificar sua procedência antes de publicá-la.

Jornalismo pressupõe método.

Exige apuração, checagem, conhecimento sobre legislação, responsabilidade com fontes, respeito ao contraditório, compreensão dos limites entre interesse público e exposição privada e, principalmente, consciência das consequências provocadas pela publicação de uma informação.

Nada disso nasce automaticamente com a criação de um perfil numa rede social.

E chegamos a uma situação paradoxal.

O Brasil exige formação específica para inúmeras atividades profissionais justamente porque reconhece que determinadas funções possuem responsabilidade social.

Ao jornalismo, cuja matéria-prima é um dos pilares de qualquer democracia — a informação — decidiu-se dispensar a qualificação profissional obrigatória.

A discussão ressurgiu agora dentro do próprio STF. Flávio Dino e Alexandre de Moraes defenderam neste mês uma rediscussão da decisão de 2009 diante da nova realidade informacional produzida pelas redes sociais.

É importante, entretanto, que essa discussão seja conduzida com cuidado.

Regulamentar jornalismo não pode significar regulamentar opinião.

Muito menos entregar ao Estado o poder de decidir quem pode ou não criticar governos, autoridades ou instituições.

Esse caminho seria perigosíssimo.

A liberdade de imprensa precisa permanecer absoluta dentro dos limites estabelecidos pela própria Constituição e pelas leis.

A regulamentação deve servir para proteger a profissão, não para controlar seu conteúdo.

E talvez esteja justamente aí a oportunidade de corrigir o problema criado em 2009 sem produzir outro ainda maior.

A PEC 206/2012, aprovada pelo Senado e atualmente pronta para apreciação pelo plenário da Câmara, restabelece a exigência de formação superior em Jornalismo, mas preserva exceções importantes. Especialistas poderiam continuar produzindo conteúdos técnicos, científicos ou culturais, e profissionais que já exerciam regularmente a atividade seriam preservados.

Esse é um debate que o Congresso deveria finalmente enfrentar.

Porque defender a formação profissional não significa afirmar que somente uma universidade é capaz de produzir bons jornalistas.

A história do jornalismo brasileiro provaria facilmente o contrário.

Significa reconhecer que uma profissão precisa possuir critérios para ser profissão.

Também significa valorizar milhares de jovens que passam anos nas universidades aprendendo reportagem, edição, ética, legislação, comunicação, fotografia e tantas outras disciplinas necessárias ao exercício da atividade.

Que sentido existe em formar jornalistas se, juridicamente, a qualificação específica é considerada desnecessária para exercer o jornalismo?

O problema tornou-se ainda mais evidente na era da desinformação.

Nunca tivemos tanta informação disponível.

E talvez nunca tenha sido tão difícil distinguir informação, opinião, propaganda, manipulação e mentira deliberada.

É justamente nesse ambiente que o jornalismo profissional se torna ainda mais necessário.

Não precisamos de menos liberdade.

Precisamos de mais responsabilidade associada à liberdade.

O cidadão deve continuar tendo todo o direito de publicar.

O especialista deve continuar podendo escrever sobre sua área.

O articulista deve continuar opinando.

O influenciador deve continuar produzindo conteúdo.

Mas nenhuma dessas atividades precisa ser artificialmente chamada de jornalismo para possuir legitimidade.

Jornalismo é outra coisa.

É técnica, responsabilidade, compromisso público, dever de apuração e obrigação de responder profissionalmente pelo que se publica.

Dezessete anos depois, o Brasil tem elementos suficientes para reabrir essa discussão.

Não para ressuscitar simplesmente uma legislação do passado.

Mas para construir uma regulamentação compatível com o jornalismo do presente.

Liberdade de expressão é direito de todos.

Jornalismo é profissão.

E reconhecer uma coisa não ameaça a outra.

Ao contrário.

Pode ser exatamente uma maneira de proteger as duas.

Postado por Painel Editorial

Nem sempre Brasília manda

23.08.2026 às 13:20
AssessorIA


Um episódio ocorrido nesta semana mostrou os limites das decisões nacionais sobre a política local.

A desistência de Heloane Bezerra da candidatura a deputada federal pelo Solidariedade veio acompanhada de uma controvérsia envolvendo duas atas partidárias divergentes. Segundo a própria candidata, uma refletia a decisão estadual de apoiar Renan Filho; outra, a orientação nacional que aproximou a federação do palanque de JHC. Heloane anunciou que não permaneceria na disputa diante da mudança.

Independentemente da disputa jurídica ou partidária que possa existir sobre o episódio, ele é politicamente simbólico.

Mostra que as alianças nacionais não descem automaticamente para os estados.

E em Alagoas talvez desçam com dificuldade ainda maior.

Aqui, relações municipais, compromissos pessoais, grupos familiares, bases eleitorais e alianças construídas durante anos frequentemente possuem peso semelhante — quando não superior — às orientações nacionais dos partidos.

É por isso que tentar compreender a eleição apenas olhando as siglas poderá produzir conclusões equivocadas.

A campanha de verdade começa agora

A semana que terminou organizou as peças.

Mas não necessariamente simplificou o jogo.

JHC permaneceu candidato ao Governo e recompôs sua relação política com Arthur Lira.

Renan Filho consolidou Luciano Barbosa e Arapiraca como componentes importantes de sua estrutura.

Arthur Lira e Renan Calheiros descobriram que podem ser adversários sem impedir que parte de seus aliados peça votos simultaneamente para ambos.

Marina JHC recebeu a missão de quebrar justamente essa combinação.

Alfredo Gaspar saiu do tabuleiro estadual para entrar no nacional — e agora retorna a Alagoas como candidato a vice-presidente.

Flávio Bolsonaro chegará ao Estado enquanto JHC decide qual distância deseja manter da eleição presidencial.

E uma divergência entre decisões partidárias nacional e estadual já foi suficiente para provocar uma desistência de candidatura.

Tudo isso aconteceu praticamente em uma semana.

É um bom aviso sobre aquilo que ainda está por vir.

As coligações foram registradas. Os candidatos estão definidos. As fotografias oficiais mostrarão grupos aparentemente organizados em campos adversários.

Mas a eleição real provavelmente será muito mais embaralhada do que as fotografias sugerem.

Até outubro veremos prefeitos apoiando candidatos de chapas diferentes, deputados dividindo votos, lideranças municipais construindo combinações próprias e candidatos tentando impedir que a polarização nacional destrua alianças locais cuidadosamente construídas.

Não é necessariamente sinal de desordem.

É a maneira como a política alagoana historicamente acomoda interesses que nem sempre cabem dentro das fronteiras partidárias.

A diferença é que agora essas acomodações serão submetidas ao voto.

A primeira semana mostrou quem estará no jogo.

As próximas mostrarão quem conseguirá controlar o jogo — e, principalmente, se alguém conseguirá.

Postado por Painel Editorial

O verdadeiro desafio de Marina JHC

Inicialmente preparada para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados, Marina mudou de destino depois que Alfredo Gaspar deixou a corrida estadual para integrar como vice a chapa presidencial de Flávio Bolsonaro

21.08.2026 às 20:20
Assessoria


A eleição para o Senado em Alagoas reúne alguns dos personagens mais conhecidos e experientes da política estadual. Renan Calheiros busca mais um mandato. Arthur Lira tenta transformar em votos para o Senado a estrutura política construída ao longo de sua trajetória na Câmara dos Deputados.

No meio dessa disputa aparece Marina Cândia — ou, eleitoralmente, Marina JHC.

Sua candidatura nasceu praticamente na reta final das convenções. Inicialmente preparada para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados, Marina mudou de destino depois que Alfredo Gaspar deixou a corrida estadual para integrar como vice a chapa presidencial de Flávio Bolsonaro. Poucos dias depois, estava oficialmente candidata ao Senado.

É uma mudança de dimensão considerável.

Uma eleição proporcional permitiria a Marina trabalhar prioritariamente determinados segmentos, regiões e bases políticas. A disputa pelo Senado exige outra construção. É necessário falar com o estado inteiro e convencer o eleitor não apenas de que determinada candidatura merece seu voto, mas de que está preparada para representar Alagoas numa das casas mais importantes da República.

E aí começa seu verdadeiro desafio.

Marina carrega no próprio nome eleitoral sua principal força e, simultaneamente, uma questão que terá de resolver durante a campanha.

Marina JHC.

A associação é imediata.

JHC deixou a Prefeitura de Maceió com forte capital eleitoral, disputa agora o Governo e naturalmente empresta à candidatura da esposa parte de sua visibilidade, estrutura e identidade política.

Não há nada de incomum nisso. Política é também transferência de confiança, associação de projetos e construção coletiva de grupos.

Mas chegar ao Senado exige algo além.

Marina precisará demonstrar ao eleitor quem é Marina quando JHC não está na frase.

Até agora, sua apresentação pública procura associá-la aos projetos dos quais participou durante a administração municipal, especialmente iniciativas direcionadas a mulheres, famílias, educação infantil, saúde e empreendedorismo. A própria candidata vem citando programas como Banco da Mulher, Gigantinhos, Saúde da Gente e Casa do Autista como credenciais para a nova etapa política.

Esse provavelmente será um dos caminhos de sua campanha: transformar a experiência adquirida como primeira-dama e participante dessas iniciativas em patrimônio político próprio.

Mas existe um segundo desafio, talvez ainda maior.

Marina entra numa eleição em que Arthur Lira está dentro da mesma coligação. A chapa de JHC lançou justamente Lira e Marina para as duas vagas destinadas a Alagoas no Senado.

Formalmente, portanto, são companheiros de chapa.

Eleitoralmente, entretanto, cada candidato precisa conquistar seu voto.

E a política alagoana acrescenta uma peculiaridade: começam a aparecer articulações em que lideranças apoiam Arthur Lira e Renan Calheiros simultaneamente.

É o chamado voto cruzado.

O eleitor possui dois votos para senador e não é obrigado a utilizá-los dentro da mesma coligação. Isso permite combinações que desmontam a lógica tradicional de situação e oposição.

Para Marina, portanto, não basta convencer o eleitor de JHC a votar em Arthur Lira.

Será necessário convencê-lo de que o segundo voto também deve permanecer dentro da chapa.

Esse detalhe transforma profundamente sua campanha.

Arthur e Renan chegam à eleição carregando décadas de vida pública, redes municipais consolidadas, relações com prefeitos, vereadores, deputados e lideranças espalhadas pelo interior.

Marina estreia nas urnas.

Sua visibilidade é significativa, especialmente em Maceió, mas visibilidade e estrutura eleitoral são coisas diferentes.

Há, por outro lado, ativos importantes.

A coligação de Arthur e Marina terá 3 minutos e 18 segundos em cada programa eleitoral para o Senado, além do maior tempo de inserções entre as chapas concorrentes. A campanha terá, portanto, espaço suficiente para apresentar uma candidata ainda relativamente nova para grande parte do eleitorado estadual.

E talvez seja exatamente aí que esteja a oportunidade.

Marina não conseguirá competir com Renan ou Lira apresentando ao eleitor uma biografia política de décadas.

Ela simplesmente não possui essa trajetória.

Mas pode tentar transformar justamente a novidade em argumento eleitoral.

Enquanto seus principais concorrentes representam estruturas políticas conhecidas e experimentadas, Marina poderá tentar ocupar o espaço de uma candidatura feminina, estreante e associada a uma nova geração política.

A estratégia pode funcionar.

Mas somente se houver conteúdo suficiente para sustentá-la.

O Senado não é uma extensão da Prefeitura de Maceió.

Debate legislação nacional, reforma tributária, segurança pública, pacto federativo, orçamento, indicações para tribunais superiores e inúmeras decisões que ultrapassam os limites do estado.

Em algum momento da campanha, portanto, Marina terá de explicar qual senadora pretende ser.

Quais serão suas prioridades?

Que posições defenderá em Brasília?

Como pretende representar os municípios do interior, onde sua exposição pública é naturalmente menor do que na capital?

Em quais temas pretende construir protagonismo?

São perguntas absolutamente naturais para qualquer candidato ao Senado. Para uma estreante, tornam-se ainda mais importantes.

Existe também outra questão que provavelmente acompanhará toda a campanha.

Marina declarou que pretende chegar ao Senado para defender Alagoas e ajudar JHC, caso ele seja eleito governador.

A parceria política é compreensível.

Mas o eleitor precisará enxergar nela também independência suficiente para exercer um mandato próprio.

Porque o maior risco de uma candidatura construída em torno de uma liderança muito conhecida é tornar-se eleitoralmente dependente dela.

E talvez seja justamente essa a fronteira que Marina precisará atravessar.

Seu desafio não é apenas derrotar Renan Calheiros.

Não é apenas superar Arthur Lira.

Nem simplesmente impedir que eleitores façam uma combinação entre os dois.

O verdadeiro desafio de Marina JHC será deixar de ser apenas “a candidata de JHC” para tornar-se, aos olhos do eleitor, Marina.

Se conseguir fazer essa transição durante a campanha, poderá transformar sua estreia eleitoral numa candidatura efetivamente competitiva.

Se não conseguir, corre o risco de descobrir que um sobrenome político abre muitas portas — mas não necessariamente garante uma cadeira no Senado.

Postado por Painel Editorial

Entre Brasília e Alagoas: a eleição que começa a disputar sua própria identidade

Entre Brasília e o Palácio República dos Palmares existem 102 municípios, dezenas de grupos políticos e milhares de relações locais que não necessariamente obedecem à lógica estabelecida pelas direções partidárias nacionais.

20.08.2026 às 15:00
AssessorIA


A campanha eleitoral mal começou e uma das perguntas mais interessantes da sucessão estadual já está colocada: a eleição para o Governo de Alagoas será decidida essencialmente pelos temas alagoanos ou acabará absorvida pela polarização nacional?

A resposta ainda está longe de ser conhecida.

Mas os primeiros movimentos das campanhas mostram que essa disputa não ocorrerá apenas entre candidatos. Haverá também uma disputa pela própria narrativa da eleição.

De um lado está Renan Filho, ex-governador, senador e ex-ministro do governo Lula. Do outro, JHC, ex-prefeito de Maceió, que chega à campanha estadual procurando projetar para o restante de Alagoas a experiência administrativa construída na capital.

São trajetórias diferentes e, consequentemente, oferecem caminhos diferentes para a construção das respectivas campanhas.

Para Renan Filho, a aproximação com a eleição nacional pode representar um ativo político. Sua relação com Lula é conhecida, assim como sua passagem pelo Ministério dos Transportes. A associação entre as duas candidaturas, portanto, não precisa ser artificialmente construída: ela já existe politicamente.

A tendência de transformar essa proximidade numa das marcas da campanha parece natural.

Mas existe uma segunda consequência nessa estratégia.

Quanto mais Renan aproximar sua candidatura da de Lula, maior será a tentativa de empurrar JHC para o campo político adversário, transformando uma disputa estadual em uma espécie de extensão alagoana da eleição presidencial.

É justamente aí que começa o dilema de JHC.

Para o tucano, pode ser eleitoralmente mais conveniente preservar uma identidade estadual para sua candidatura, concentrando o discurso em administração, obras, serviços públicos e na experiência acumulada à frente da Prefeitura de Maceió.

Isso não significa ausência de alianças nacionais.

Significa apenas que uma coligação partidária e uma estratégia eleitoral não são necessariamente a mesma coisa.

E Alagoas oferece exemplos suficientes para demonstrar isso.

Talvez nenhum lugar represente melhor essa peculiaridade do que Arapiraca.

A formação das chapas estaduais transformou o segundo maior colégio eleitoral do estado em uma espécie de laboratório das alianças cruzadas.

Yale Fernandes, escolhido como vice de Renan Filho, possui trajetória profundamente ligada à política arapiraquense e ao grupo do prefeito Luciano Barbosa. Já Célia Rocha, ex-prefeita da cidade, ocupa a vice na chapa de JHC. Curiosamente, Célia e Yale já administraram Arapiraca juntos — ela como prefeita e ele como vice — e agora aparecem em lados diferentes da disputa estadual.

É difícil encontrar imagem melhor da política alagoana contemporânea.

Enquanto as campanhas tentam construir dois grandes campos, a política municipal insiste em produzir pontes entre eles.

E essas pontes não são necessariamente fruto de incoerência.

A política estadual é formada por relações acumuladas durante décadas: prefeitos, deputados, lideranças municipais, famílias políticas e grupos regionais mantêm compromissos que frequentemente sobrevivem às mudanças de partido e às alianças estabelecidas para uma determinada eleição.

O caso de Arapiraca mostra isso com particular clareza. Reportagem do Metrópoles publicada nesta quinta-feira descreve justamente como o grupo político ligado ao prefeito Luciano Barbosa conseguiu manter influência nas duas chapas mais competitivas da eleição estadual.

É nesse ambiente que a tentativa de nacionalizar a campanha encontrará seus limites.

A política nacional gosta de fronteiras claras.

Lula de um lado. Flávio Bolsonaro do outro.

Governo contra oposição.

Esquerda contra direita.

A política alagoana raramente oferece tamanha simplicidade.

Um prefeito pode apoiar um candidato ao Governo e escolher senadores pertencentes a campos diferentes. Um deputado pode estar numa coligação e manter relações políticas com integrantes da outra. Uma liderança municipal pode apoiar Lula para presidente sem necessariamente reproduzir a mesma composição na eleição estadual.

Foi justamente essa característica que discutimos recentemente ao analisar os chamados palanques cruzados.

A eleição de 2026 poderá levar esse fenômeno ao limite.

Renan Filho tem motivos políticos para tentar transformar sua proximidade com Lula em vantagem eleitoral.

JHC tem razões igualmente compreensíveis para procurar manter a discussão concentrada em Alagoas.

Nenhuma dessas estratégias, entretanto, será construída no vazio.

Entre Brasília e o Palácio República dos Palmares existem 102 municípios, dezenas de grupos políticos e milhares de relações locais que não necessariamente obedecem à lógica estabelecida pelas direções partidárias nacionais.

É nesse território que a eleição realmente acontecerá.

A polarização presidencial certamente estará presente. Seria ingenuidade imaginar o contrário.

Mas talvez o grande desafio das duas principais campanhas seja descobrir até onde ela consegue chegar.

Porque uma coisa é tentar dividir politicamente Alagoas em dois grandes campos.

Outra, bem diferente, é convencer a política alagoana a permanecer dentro deles.

Postado por Painel Editorial

Inteligência artificial coloca Justiça Eleitoral diante de seu maior teste digital

17.08.2026 às 10:40
AssessorIA


Por Direção

A campanha eleitoral começou oficialmente neste domingo e, com ela, entrou em campo um personagem que promete ocupar espaço inédito na disputa pelo voto: a inteligência artificial.

Não se trata apenas de uma nova ferramenta de comunicação. A facilidade com que hoje é possível produzir imagens, reproduzir vozes, modificar vídeos e criar situações inteiramente fictícias coloca a eleição brasileira diante de um desafio que provavelmente não encontra precedente na história recente do processo eleitoral.

A Justiça Eleitoral estabeleceu regras. Conteúdos sintéticos ou manipulados precisam observar exigências de transparência, e o uso de deepfakes destinado a favorecer ou prejudicar candidaturas encontra restrições expressas na regulamentação eleitoral. O problema é que estabelecer uma norma é apenas a primeira parte da tarefa.

A segunda — e certamente mais difícil — será fazê-la funcionar.

A inteligência artificial tornou-se acessível, rápida e extraordinariamente convincente. Aquilo que poucos anos atrás exigia conhecimento técnico, equipamentos sofisticados e muitas horas de trabalho pode hoje ser produzido em poucos minutos.

E distribuído para milhões de pessoas em segundos.

É justamente nessa diferença de velocidade que reside o maior problema.

Uma falsificação eleitoral não precisa permanecer disponível durante dias para atingir seu objetivo. Dependendo do conteúdo, algumas horas — ou mesmo minutos — podem ser suficientes para provocar repercussão, alimentar redes sociais, chegar aos aplicativos de mensagens e influenciar a percepção de milhares de eleitores.

Quando a Justiça determinar sua retirada, o estrago eventualmente já poderá estar feito.

O desafio, portanto, não será simplesmente identificar aquilo que foi produzido por inteligência artificial. Será distinguir rapidamente criação legítima, sátira, edição convencional e fraude deliberadamente concebida para enganar o eleitor.

Essa diferença é fundamental.

Transformar a inteligência artificial numa espécie de inimiga das eleições seria um erro. Campanhas sempre incorporaram novas tecnologias. O rádio modificou a política. A televisão modificou a política. A internet e as redes sociais fizeram o mesmo. A inteligência artificial será apenas o próximo capítulo dessa transformação.

Ela poderá ser utilizada legitimamente na produção de peças gráficas, tratamento de imagens, organização de informações, tradução, acessibilidade, edição audiovisual e inúmeras outras atividades relacionadas à comunicação eleitoral.

O limite deve estar na fraude.

Criar uma imagem ilustrativa e identificá-la como tal é uma coisa. Fabricar um vídeo aparentemente verdadeiro mostrando um candidato dizendo aquilo que jamais disse é outra completamente diferente.

É nessa fronteira que a Justiça Eleitoral terá de atuar.

Há ainda uma responsabilidade que não pode ser atribuída exclusivamente ao TSE. Partidos, candidatos, plataformas digitais, veículos de comunicação e os próprios eleitores precisarão desenvolver uma postura muito mais criteriosa diante daquilo que recebem e compartilham.

A tecnologia tornou possível fabricar uma mentira extremamente convincente.

Mas são pessoas que decidem colocá-la em circulação.

Também será necessário cuidado para que o combate à desinformação não produza efeito inverso. Regras excessivamente abertas ou interpretações demasiadamente abrangentes podem criar conflitos com a liberdade de expressão e transformar instrumentos destinados a combater fraudes em mecanismos de intervenção sobre o debate político legítimo.

Esse equilíbrio será tão importante quanto o combate aos deepfakes.

A eleição presidencial de 2026 será, nesse sentido, um gigantesco teste institucional.

Pela primeira vez, o Brasil realizará uma campanha presidencial num ambiente em que qualquer cidadão com acesso às ferramentas adequadas poderá produzir imagens e vozes artificiais com grau de realismo suficiente para confundir uma parcela considerável do público.

Não existe regulamentação capaz de fazer essa tecnologia desaparecer.

Existe, sim, a possibilidade de criar mecanismos capazes de tornar seu uso fraudulento mais difícil, sua identificação mais rápida e seus responsáveis efetivamente sujeitos às consequências previstas pela legislação.

A inteligência artificial não ameaça a democracia simplesmente porque existe.

O risco aparece quando a mentira tecnologicamente fabricada passa a competir em condições de igualdade com os fatos.

A campanha começou.

E talvez uma das maiores disputas destas eleições aconteça justamente num território que não aparece nas urnas: a preservação da diferença entre aquilo que realmente aconteceu e aquilo que uma máquina é capaz de nos convencer de que aconteceu.

Postado por Painel Editorial

Caso das filiações falsas extrapola candidatura de Flávio Bolsonaro e expõe fragilidade no sistema partidário

Episódio envolvendo a falsa filiação partidária de Flávio Bolsonaro seria suficientemente grave se tivesse terminado nele. Não terminou.

15.08.2026 às 11:20
AssessorIA


Por Direção

Às vésperas do prazo para registro das candidaturas, o senador descobriu que constava no sistema da Justiça Eleitoral como filiado ao partido Missão, situação que chegou a impedir temporariamente o registro de sua candidatura presidencial pelo PL.

Depois surgiu a informação de que também houve tentativa de alteração envolvendo o presidente Lula. Outros episódios semelhantes vieram à tona e o problema deixou de poder ser tratado simplesmente como uma confusão partidária ou uma provocação isolada de campanha.

O que apareceu diante do país foi uma vulnerabilidade que merece ser enfrentada.

O próprio Tribunal Superior Eleitoral esclareceu que não houve invasão hacker ao seu sistema. A inclusão indevida teria ocorrido mediante utilização de credenciais partidárias válidas. Essa explicação afasta uma suspeita, mas provoca outra pergunta igualmente incômoda: como uma informação politicamente tão relevante pode ser inserida sem mecanismos suficientemente robustos de confirmação da vontade da pessoa que está sendo filiada?

A legislação pressupõe consentimento para a filiação partidária. Na prática, entretanto, o sistema depende em grande medida das informações fornecidas e da atuação dos operadores autorizados pelas próprias legendas.

E é justamente aí que o episódio deixa de ser uma questão envolvendo Flávio Bolsonaro, Lula, PL ou Missão.

Passa a ser uma questão institucional.

Filiação partidária não é um cadastro trivial. Dela depende a possibilidade de alguém disputar uma eleição. Uma alteração irregular realizada no momento adequado pode gerar constrangimento, insegurança jurídica e, como vimos agora, até impedir temporariamente o registro de uma candidatura à Presidência da República.

É verdade que a Justiça Eleitoral reagiu rapidamente. O registro irregular foi corrigido, novas filiações foram temporariamente suspensas e uma investigação foi determinada.

Mas instituições sólidas não devem apenas solucionar problemas depois que eles aparecem. Precisam aprender com eles.

Se determinada operação possui potencial para produzir consequências eleitorais relevantes, talvez não seja mais suficiente depender exclusivamente de credenciais concedidas aos partidos e da boa-fé de seus operadores. Confirmação adicional pelo eleitor, autenticação reforçada, alertas automáticos e rastreabilidade imediata das alterações são mecanismos corriqueiros até em serviços bancários e comerciais.

Não parece exagerado exigir nível semelhante de proteção para uma informação que pode determinar se um cidadão está ou não habilitado a concorrer a um cargo público.

Também é necessário evitar outro erro.

Reconhecer uma vulnerabilidade específica não equivale a declarar que todo o sistema eleitoral brasileiro é inseguro. Muito menos autoriza transformar o episódio em argumento contra as urnas eletrônicas, que constituem estrutura distinta daquela utilizada para gerenciamento de filiações partidárias.

Misturar as duas coisas seria explorar politicamente um problema que deveria servir justamente para aperfeiçoar as instituições.

A pior resposta possível seria escolher entre dois extremos: fingir que nada relevante aconteceu ou aproveitar o episódio para lançar suspeitas indiscriminadas sobre todo o processo eleitoral.

Nenhuma democracia se fortalece dessa maneira.

O caminho adequado é muito mais simples: identificar exatamente como a irregularidade ocorreu, responsabilizar eventuais autores e fechar a porta que permitiu que acontecesse.

O fato de o problema ter atingido nomes de campos políticos opostos apenas reforça essa necessidade.

Hoje foi Flávio Bolsonaro. Houve tentativa envolvendo Lula. Amanhã poderá ser qualquer candidato — conhecido ou não — submetido a uma alteração indevida justamente quando os prazos eleitorais estiverem se encerrando.

A segurança de uma eleição não começa quando o eleitor aperta a tecla da urna.

Começa muito antes, nos registros, filiações, candidaturas, prestações de contas e em cada sistema eletrônico que sustenta o processo eleitoral.

A Justiça Eleitoral brasileira construiu ao longo das últimas décadas uma estrutura tecnológica sofisticada e tem o dever permanente de protegê-la. Isso inclui reconhecer vulnerabilidades quando elas aparecem.

O episódio das filiações falsas não deveria servir para desacreditar o sistema.

Deveria servir para torná-lo melhor.

E quanto mais rapidamente isso acontecer, menor será o espaço para que uma falha administrativa ou tecnológica seja novamente transformada em instrumento de interferência política — ou em combustível para a desconfiança sobre as eleições.

Postado por Painel Editorial


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