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Meio ambiente: a hora é agora

Dia Mundial do Meio Ambiente 2020 pede por ações em tempo integral, grandes e pequenas, pelas pessoas e pelo planeta

05.06.2020 às 00:00


José Renato Demian Ferreira* 

5 de junho é o Dia Mundial do Meio Ambiente. Embora o novo coronavírus esteja dominando manchetes, pensamentos e nossa atenção, é agora o momento de promover a conscientização e a ação em prol do meio ambiente. A pandemia é um lembrete da vulnerabilidade dos seres humanos e do planeta diante das ameaças globais. Nesta hora cabe a pergunta: será que se tivéssemos cumprido um pouco mais dos objetivos de desenvolvimento sustentável e de mudanças do clima, enfrentaríamos melhor esse desafio? A resposta soa bem óbvia, concordam?

Sob o tema Biodiversidade, o Dia Mundial do Meio Ambiente 2020 pede por ações em tempo integral, grandes e pequenas, pelas pessoas e pelo planeta. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), com um milhão de espécies de plantas e animais em extinção, nunca houve um momento mais importante para focar na questão da biodiversidade. O próximo ano também oferece uma oportunidade para acelerar o início da Década das Nações Unidas sobre Restauração de Ecossistemas (2021-2030), com o objetivo de ampliar massivamente a restauração de ecossistemas degradados e destruídos para combater a crise climática e melhorar a segurança alimentar, o suprimento de água e a biodiversidade.

Já que o mundo se apressa para planejar uma recuperação pós-pandemia, é correto afirmar que se trata de oportunidade única de chamar a atenção para a necessidade de reconstrução de um planeta melhor. Os riscos enfrentados por ignorarmos as ameaças de destruição ambiental devem ser entendidos e endereçados com proteções e políticas ambientais, por todas as instâncias. Por conglomerar diversas pessoas, as empresas acabam sendo um bom caminho para a conscientização dos impactos ao meio ambiente. E afirmo que, felizmente, muitas organizações já possuem planos ecológicos na política de boas ações. Nossa empresa é uma delas porque busca não apenas ter práticas saudáveis internamente, mas também produzir produtos robustos, duráveis e ecológicos.

O que todos já sabem, mas vale sempre reforçar

Dentre os principais problemas que afetam o meio ambiente, podemos destacar o descarte inadequado de lixo, a falta de coleta seletiva e de projetos de reciclagem, consumo exagerado de recursos naturais, desmatamento, inserção de espécies exóticas, uso de combustíveis fósseis, desperdício de água e esgotamento do solo. Esses pênaltis – e outros – poderiam ser evitados se os governantes e a população se conscientizassem da importância do uso correto e moderado dos recursos naturais. Apesar de sabermos que a mudança deve acontecer em escala mundial e que apenas uma pessoa não consegue mudar o mundo, é fundamental que cada um faça a sua parte e que toda a sociedade reivindique o cumprimento das leis ambientais.

Como parte desse todo, podemos destacar a cidadania e o consumo consciente como importantes ferramentas do processo. Quando temos isso como foco, a noção de direitos e deveres transcende meros interesses individuais para traduzir uma nova visão de mundo, que reflete a responsabilidade de cada pessoa na construção de valores coletivos plenos, plurais e democráticos que assegurem o bem-estar humano e o respeito a todas as formas de vidas em suas mais variadas manifestações.

Portanto, todos devemos assumir uma postura de responsabilidade ambiental, nos valendo de sentimentos e atitudes nobres como a cidadania e o consumo consciente, pois só assim conseguiremos mudar o quadro atual. E a hora é agora. É sempre agora...


*José Renato Demian Ferreira é Diretor Geral da JactoClean

Postado por Painel Opinativo

Polarização política e " fake news"

31.05.2020 às 08:00


O ambiente político

Um dos problemas mais complexos na pauta da Ciência Política, hoje, é o da polarização. Essa raiva política que tantos têm é atribuída, por muitos, aos algoritmos das redes constantemente nos provocando à indignação. Se retroalimentam. Muita gente constantemente em fúria com o outro lado — não importa qual. Polarizados são os mais susceptíveis a fake news. Mas a polarização não é de toda a sociedade. E o impacto da fake news é difícil de avaliar.

Um estudo do Pew Institute nos EUA, em 2019, apurou que metade dos americanos veem fake news como um problema grave. Quase 70% acreditam que notícias falsas impactam diretamente na confiança que as pessoas têm no governo. A percepção, portanto, é de que se trata de uma questão enorme.

Não é bem assim. O cientista político Brendam Nyham buscou dados diversos de consumo de informação online para pintar um quadro mais amplo. Descobriu que o consumo de fake news se concentra nos 10% dos americanos mais conservadores — estes são os responsáveis por 6 em cada 10 visitas a sites de notícias falsas. E, mesmo neste grupo, fake news representam apenas 8% de seu consumo total de notícias.

Mas o problema da política é que mesmo estes números, que parecem tranquilizar, não são tão simples assim. A parcela da população realmente ativa politicamente não é grande. Portanto, 10% dos mais conservadores quer dizer um índice muito maior daquelas que são as pessoas engajadas com questões políticas e que, portanto, influenciam grande parte da sociedade. Não é preciso atingir muita gente para ter grande impacto.

Não há números do tipo para o Brasil, mas Jair Bolsonaro é fruto do mesmo fenômeno do qual vem Donald Trump. O neopopulismo nacionalista conservador tem muitas vertentes. Bolsonaro poderia ter escolhido o caminho de um Viktor Orbán — mas escolheu emular Trump. E, feito presidente, Trump partiu para uma estratégia de embaralhar mais o ambiente. Ele pescou o termo ‘fake news’ e passou a atribuí-lo a veículos como New York Times, Washington Post, CNN. Ao mesmo tempo, ele mente, exagera, tira do contexto — e o tempo todo. Em 2007, 71% dos republicanos consideravam fundamental que seus líderes fossem honestos no que falavam. Em 2019, 49%.

Os eleitores de Trump sabem que ele mente. Que exagera. Que força a barra. Mas parte do fenômeno das fake news não está em enganar. Está na construção do discurso. Quando se encontra com o processo de polarização do naco politizado da sociedade, o resultado não é que engane. Porque nem sempre engana. Vira torcida. Vira esporte — e, para o torcedor, não importa tanto se o juiz é ladrão, desde que a vitória chegue.

No Brasil, o problema é mais complexo. Nos EUA, a influência de redes de mensagem fechadas é muito menor do que aqui, onde o WhatsApp é muito mais influente. E, por ser fechado e criptografado, é muito mais difícil compreender o fluxo da desinformação via esta plataforma.

O combate

Esta semana, pela primeira vez, um tuíte do presidente americano Donald Trump ganhou da plataforma um adendo — era um alerta com um link. Dizia que a informação era passível de contestação mediante checagem e oferecia a informação correta. As empresas jornalísticas que checam informação fazem parte dos antídotos em oferta para o problema. Trump ficou furioso.

Há dois anos, o Facebook começou a oferecer este serviço — o de marcar posts com links para a informação checada por profissionais. O resultado, de acordo com o estudo de cientistas políticos, foi ruim. Não porque as pessoas não acreditassem, mas porque causava uma falsa sensação de segurança. A partir do momento em que algumas notícias falsas vêm acompanhadas de links para os fatos, parece que tudo não marcado é verdadeiro. Este é um problema de escala. Produzir o falso é fácil, redigir a correção é trabalho de horas de gente especializada.

Mas, segundo Nyham, o que o Twitter fez pode dar certo. A desinformação é vasta, mas pouca desinformação circula tanto quanto aquela produzida na elite política. Os presidentes, os ministros, os parlamentares ou governadores. É mais importante corrigir aquilo que é passível de verificação e vem das mais altas autoridades, do que o todo.

E há outro aspecto. Estas operações são financiadas. É o velho conselho do Garganta Profunda aos repórteres do Washington Post: siga o dinheiro. Desde sua raiz no século passado, o desenvolvimento das técnicas modernas de desinformação traz financiadores. É mais fácil resolver punindo quem paga do que tentando coibir a produção e distribuição. Hoje, empresas de publicidade automatizada online, como Google e Facebook, têm regras rígidas para coibir propaganda em quem veicula fake news. Mas e empresários partidarizados que bancam a parte mais importante do negócio?

Isso não inocenta as redes sociais: são pouco transparentes e seus algoritmos caixa-preta são um problema. Exploram fraquezas humanas. São experimentos behavioristas. Mas, ali, a complexidade é imensa. Afinal, com todos seus defeitos uma qualidade se sobrepõe: ampliaram a Praça Pública. Ampliaram o número de pessoas conversando sobre as coisas da sociedade. E se ao menos uma lição o filósofo John Stuart Mill deixou, foi: o melhor combate a ideias ruins se dá com bons argumentos.

Não há consenso entre especialistas, mas estes itens se sobressaem. Mais importante do que coibir a desinformação nas redes há estes dois elementos. Atacar os financiadores e corrigir as vozes de autoridade política.


*Com informações de Pew Research Center , Gen Medium.com e  Money CNN, 

Postado por Painel Opinativo

Adiar as eleições municipais é prova de respeito à democracia

As eleições são o sopro de vida da liberdade, embora ultimamente venham sendo atacadas até por amigos da democracia

28.05.2020 às 16:32


*João Miras

As declarações do ministro José Roberto Barroso, novo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, que, em entrevista, afirmou considerar manter a data de eleição ou "adiar" pelo tempo de 1 mês, vai ao encontro da manifestação que fiz por meio de artigo publicado por vários jornais brasileiros há um mês.

Não há dúvida de que a pandemia e seus efeitos colaterais são fatores de inesperada relevância, que introduziram no processo sócio-político e eleitoral um notório distúrbio. Portanto é num contexto de anormalidade que se deve buscar pontos de equilíbrio para não desestabilizar as institucionalidades que sustentam a nação nas quais, indubitavelmente, estão inseridos os processos eleitorais, instrumento fundamental para a construção da representação democrática e do estado de direito.

As eleições são o sopro de vida da liberdade, embora ultimamente venham sendo atacadas até por amigos da democracia, que não atentaram para esse fato e, assim, enfraquecem involuntariamente a representação e, por consequência, a democracia e as liberdades. Adiar as eleições municipais e dar mais tempo para que os que pleiteiam a representação (candidatos) se encontrem com os representados (eleitores), amalgamando a sagrada simbiose do compromisso, representa hoje, na verdade, um ato de respeito à democracia e às liberdades.

O fundamento do que venho preconizando está baseado nesse raciocínio. Entendo que é preciso dar valor ao processo eleitoral em curso como prova do nosso compromisso como nação com o estado democrático de direito, por meio da celebração do grande ato litúrgico democrático das eleições municipais: as eleições cidadãs em essência, que carregam em si aspirações e esperanças intrínsecas às necessidades próximas dos cidadãos — pois é ali, no município, onde se travam as batalhas diárias pela sobrevivência das famílias, nos bairros, nos rincões. Onde se processam, por meio da atuação diuturna de vereadores e prefeitos, os anseios das comunidades pelas mais básicas necessidades, como a creche, a merenda escolar, os remédios nos postos de saúde, a condução (transporte público municipal e escolar), as vias públicas e rurais, as podas de árvores, a iluminação pública, as calçadas, os serviços de fornecimento de água, de afastamento do esgoto, da cesta básica, do médico da família, dos postos de saúde... Da própria vida em si do brasileiro. Como certa vez disse Mário Covas: "As pessoas vivem nas cidades".

Vivemos um momento triste da vida política nacional, quando novos políticos, sob o falso pretexto de representarem uma renovação que nunca se concretiza quando chegam ao poder, estimulam a destruição da própria classe política como instituto de representação social. Miram na cabeça do adversário, mas acertam a cabeça da democracia e acabam por explodir os próprios miolos. Essa postura criou a falsa ideia de que a democracia não consegue cumprir seu papel de representar, mas a maior prova em contrário é constatar o trabalho feito por prefeitos e vereadores por todos os cantos do país, mesmo representando o ente federativo mais pobre, segurando nas pontas das unhas os fios esgarçados do tecido social e mantendo a amarração institucional.

Conheço notáveis homens públicos administrando com muita garra os destinos de alguns dos 5.564 municípios do país, mas percebo que isso talvez não esteja sendo valorizado hoje. Sei que não é fácil "defender Judas em Sábado de Aleluia", mas trago testemunho franco da luta das instituições municipalistas para manter pulsando o coração da esperança do povo nas cidades.

Não podemos, então, relegar as eleições municipais a um plano menor, como se não tivessem importância. Adiá-las é dar a elas o destaque de que precisam ter, a importância que merecem.



*João Miras é um publicitário ítalo-brasileiro, de 56 anos, que já trabalhou em dezenas de cidades, 13 estados brasileiros e em outros quatro países. Realizou mais de 170 trabalhos em 40 anos de profissão. 

Postado por Painel Opinativo

Suspensão de eventos pode deixar mais de 3 milhões sem trabalho

24.05.2020 às 08:00


O avanço no número de demissões, o crescimento exponencial dos prejuízos financeiros e a estagnação total das atividades, em virtude da pandemia de coronavírus (COVID-19), devem afetar ainda mais o setor de cultura e entretenimento nos próximos meses. O cancelamento de eventos em todo País pode deixar mais de 3 milhões sem trabalho. A perda média por empresa já chega a 1,16 milhão. Os números, que constam da segunda pesquisa elaborada pela Associação Brasileira dos Promotores de Eventos - ABRAPE, entidade que representa produtoras e promotoras no País, traz previsões preocupantes.

Até o início da crise, o setor empregava em torno de 1,8 milhão de profissionais diretos e terceirizados. O estudo revela que, com o cancelamento e adiamento de eventos mais de 240 mil profissionais já perderam os empregos até o final de abril. E a tendência é que este número cresça para 563 mil demissões até agosto, e podendo chegar, em outubro, a 841 mil desempregados, caso não haja segurança nas variáveis que definirão o retorno das atividade. "É um dado que assusta, mas é muito realista. Se ficarmos estagnados até outubro, mais da metade das ocupações formais deixarão de existir", relata o presidente da ABRAPE, Doreni Caramori.

A informalidade também sofre os impactos. Há 5 milhões de indiretos e freelancers sem registro em carteira atuando no setor. "São trabalhadores que têm nos eventos a oportunidade de gerar renda, vendendo produtos como lanches e bebidas em entrada de shows, por exemplo. Pelo menos 670 mil já estão vulneráveis. Em agosto, o número pode subir para 1,5 milhão e, em outubro, atingir 2,3 milhões. Entre formais e informais, 3 milhões podem ficar sem renda", frisa.

Prejuízos - Responsável por 4,32% do PIB nacional, a cadeia produtiva de eventos é um universo de aproximadamente 60 mil empresas. Em abril, a ABRAPE já estimava que esses negócios poderiam atingir perdas substanciais. Mas os números podem ser ainda maiores.

"A nova rodada de pesquisa, realizada com a nossa base de associadas, mostra que o prejuízo médio por empresa acumulado até o final de abril foi de 1,16 milhão, e que as perdas até agosto devem aumentar 88,7%, chegando na casa dos R$ 2,205 milhões", relata o empresário líder da entidade. Se necessária a continuidade das políticas de isolamento, até outubro o rombo no caixa de cada empresa pode estar em torno de R$ 3,116 milhões. Esse aumento de 2,5 vezes o atual prejuízo é ainda mais preocupante por revelar que a cada semana o prejuízo aumenta quase 8%".

O novo estudo da ABRAPE revela, ainda, a curva crescente dos adiamentos e cancelamentos e seus desdobramentos se a atual conjuntura for mantida. Até agosto, 52% dos cerca de 590 mil eventos programados para 2020, segundo a entidade, estarão cancelados. "A informação mais dura pra gente é prever que, até outubro, dois terços de tudo que foi programado poderá ser rescindido, ou seja, mais de 454 mil eventos podem não acontecer", explica Doreni.

Crédito - Desde o início da pandemia, promotoras e produtores vêm lidando diariamente com o custo da paralisação e da incerteza de quando e como irão retornar à normalidade, o que para Doreni, é bastante preocupante. "Estamos verdadeiramente apreensivos quanto à sobrevivência das empresas. E trabalhando arduamente para minimizar obstáculos e ajudá-las em diversas frentes. A preocupação aumenta considerando a importância do setor enquanto âncora de uma cadeia econômica. Se o produtor de eventos não sobreviver, morre também uma grande rede de fornecedores e informais que têm renda ligada a nossa atividade", ressalta.

A ABRAPE tem discutido medidas com entidades do setor e órgãos do Governo Federal. Houve avanços como a normatização das regras para o tratamento de eventos cancelados e para a administração de questões trabalhistas. Mas as tratativas com Ministério da Economia e Ministério do Turismo seguem. "Nosso foco agora é buscar a solução no acesso às linhas de crédito emergenciais para concessão de capital de giro, com carências, prazo dilatado e condições subsidiadas", finaliza o presidente Abrape.


*Sobre a ABRAPE - Criada em 1992 com o propósito de promover o desenvolvimento e a valorização das empresas produtoras e promotoras de eventos culturais e de entretenimento no Brasil, a Associação Brasileira dos Promotores de Eventos - ABRAPE tem, atualmente, 270 associados, sediados em 22 Estados da Federação



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Os desafios de liderar à distância e manter os resultados de crescimento em meio à pandemia

21.05.2020 às 13:17

Temos visto, em tempo real, grandes potências sendo impactadas brutalmente por um vírus perigoso

*Sheynna Hakim Rossignol

Uma crise sem precedentes na história recente angustia o mundo neste momento. Temos visto, em tempo real, grandes potências sendo impactadas brutalmente por um vírus perigoso que revelou, sobretudo, a fragilidade de muitas nações em combater e dirimir os abalos provocados por uma pandemia desconhecida. Há cerca de cinco semanas, nós, brasileiros, começamos a sentir na pele os efeitos colaterais dessa guerra. E isso tem sido desafiador.

Digo isso porque enquanto acompanhamos pela mídia o trabalho de autoridades políticas e médicas em busca de uma solução para o problema, temos de nos preocupar, antes de tudo, com a nossa saúde e, também, com nosso trabalho. Nesse aspecto, o isolamento social impôs aos líderes das empresas uma tarefa extremamente complexa: gerir à distância com eficiência, manter a equipe engajada, desenvolver estratégias de curto prazo para superar a crise e, no meio de tudo isso, administrar a nossa vida em casa.

A mudança do nosso cotidiano, que com a quarentena passa a ser cada vez mais dentro de casa, pode ser um tanto angustiante para aqueles que nunca tiveram a experiência do home office. Porém, com algumas mudanças nos hábitos, uma boa comunicação e o apoio da família ou de pessoas próximas, é possível ver um outro lado deste momento tão difícil e o enfrentá-lo da melhor forma possível.

Um bom exemplo veio do meu próprio lar. Tenho uma filha que fez três anos durante o isolamento. Para minha surpresa, mesmo sendo nova, entendeu muito bem o que estava acontecendo. Fizemos uma festa virtual, inclusive com a recreação do "Tio Snoopy" e ela e seus amigos se divertiram muito. No início do isolamento, conversamos que eu trabalharia de casa durante um tempo, por causa do coronavírus. Ela, então, passou a observar a minha rotina e saber quais momentos poderia pedir minha atenção, ou quando eu estaria ocupada e eu também tive que me adaptar, tentando deixar o intervalo no meio do dia, como nosso momento para almoçarmos juntas e conversar.

Com apoio do meu marido, conseguimos dividir as tarefas e os horários de quem cuidaria dela, da casa e das refeições. Essa sustentação familiar foi fundamental para criar uma rotina dentro de casa. Até mesmo minha filha passou a contribuir para isso. Um exemplo é que toda vez que ela via que minha garrafinha de água estava vazia, a pegava e, sem falar nada, a enchia na cozinha e trazia de volta. Passamos também a cozinhar juntas depois do trabalho e aos finais de semana, hábito que nunca fez parte da nossa rotina.

Já no âmbito do trabalho também foi preciso nos adaptar como equipe e nos manter engajados. Como fazemos parte do segmento de serviços essenciais, afinal todos precisamos de gás, registramos de uma semana para outra um crescimento de 35% nas vendas de botijões por meio do aplicativo e um aumento de quase 10 vezes no número de usuários acessando o nosso aplicativo, o que exigiu da empresa uma resposta rápida para absorver esse volume repentino.

Como consequência desse aumento nas vendas, previmos também um crescimento nos atendimentos de clientes e revendedores via telefone, situação que rapidamente conseguimos resolver ao implantar o atendimento à distância, com todo o time trabalhando de casa. Além disso o time de tecnologia também teve que se adaptar. O volume de acessos cresceu de tal forma que tivemos que reforçar nossa infraestrutura tanto no aplicativo do consumidor, como no portal do parceiro.

Para administrar tudo isso, intensificamos ainda mais a nossa comunicação. Antes, sentávamos todos juntos, próximos um do outro, e nos falávamos o tempo todo. Agora, os gestores fazem calls diário para comunicar o que estamos fazendo e quais os desafios do dia. Também passamos a fazer com mais frequência um all hands, uma reunião com a empresa toda que costumava ser feita mensalmente. Muitos benefícios vieram a partir daí.

Logo na primeira video chamada com a participação de todos a gente pôde conversar sobre o que estávamos vivendo e como a crise do coronavírus nos afetava, não só como empresa mas como indivíduos também. Com cada um contando como está lidando com a situação, nós nos aproximamos e fortalecemos ainda mais o nosso time. Ideias surgiram e foram implementadas rapidamente. Os Chamosos puderam levar cadeiras e monitores para as casas deles, demos uma ajuda de custo para todos, dado o aumento de utilização dos recursos de casa e fizemos inclusive iniciativas para ajudar nossos fornecedores de frutas, plantas e limpeza. Todas ideias que surgiram do grupo.

A comunicação também se tornou mais efetiva, já que a distância nos impede de mantermos uma conversa direta o tempo todo. Dessa forma, para cada reunião, passou a ser necessário um preparo maior para facilitar a troca com os demais colegas. E passamos também a ser mais pontuais no início e fim das reuniões.

Todo esse entrosamento mostrou ainda um lado importante da nossa equipe que, mesmo em momentos difíceis, é capaz de usar todo o seu potencial para enfrentar os desafios. Para conseguir suportar o aumento do volume de trabalho, tivemos também que alterar os turnos e os próprios times se voluntariaram para fazer hora extra. Um empenho que reflete uma equipe consciente e engajada em uma hora em que essas suas qualidades são essenciais.

Foi justamente nas primeiras semanas de confinamento que percebi que também era preciso refletir sobre o que eu estava fazendo e quais eram as minhas prioridades nesse momento. Estava trabalhando mais de 12 horas por dia e quase não via minha filha ou passava tempo com a minha família. Quando terminava o trabalho, estava cansada demais e minha filha já estava dormindo. Então, no primeiro fim de semana de folga que tive, comecei a refletir e vi que era necessário trazer mais equilíbrio para este momento e ter uma rotina mais saudável. Assim, o trabalho continua sendo uma prioridade e eu ainda fico ocupada com ele de oito a 10 horas por dia, mas agora tenho tempo de dar atenção a quem está ao meu redor, além de participar das tarefas da casa.

A quarentena e o novo coronavírus podem ser temerosos, mas com apoio, uma boa organização e comunicação, vamos enfrentar esse momento angustiante e levaremos mudanças positivas para nossas vidas tanto do lado pessoal quanto profissional. Seja uma rotina mais saudável, uma consciência maior sobre a gente, ou uma conexão mais forte com nossa família e equipe. Juntos, vamos passar por isso.


Sheynna Hakim Rossignol é Presidente do aplicativo Chama no Brasil, marketplace que conecta revendedores de botijões de gás a clientes lançada em dezembro de 2016.

Postado por Painel Opinativo

O protagonismo feminino na pandemia

17.05.2020 às 08:00


Mais da metade dos homens dizem estar ajudando os seus filhos com o ensino à distância. Mas apenas 3% das mulheres concordam, segundo pesquisa do New York Times. Essa diferença ressalta as desigualdades que já existiam, mas estão sendo exacerbadas com as quarentenas. Com a pandemia, as mulheres ganharam ainda mais tarefas domésticas. Uma pesquisa do LeanIn.org, grupo de defesa das mulheres no trabalho, criado pela COO do Facebook, Sheryl Sandberg, aponta que as mulheres gastam em média 71,2 horas por semana em tarefas domésticas e cuidados com os outros desde o início da pandemia. Enquanto os homens relatam 51,5 horas.

As mulheres estão mais expostas nessa crise. Elas representam globalmente 70% dos profissionais de saúde, de acordo com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Mas as mulheres não estão apenas na linha de frente, como também compõem a maioria dos setores que foram mais afetados pelo isolamento, como lazer, hospitalidade e varejo. Ainda são mais propensas a ocupar cargos temporários e de meio período — os tipos de empregos mais suscetíveis a serem cortados em uma recessão.

Nos EUA, o país que tem mais casos registrados no mundo e dados sobre emprego, as mulheres representavam 55% dos pedidos de seguro-desemprego em abril. A taxa de desemprego entre as mulheres chegou pela primeira vez, desde 1948, na casa de dois dígitos. Aumentou de 3,1% para cerca de 15% — frente aos 13% entre os homens. As taxas são ainda piores para outros grupos: o desemprego de mulheres negras é de 16,4% e latinas, 20,2%. “Acho que devemos chamar essa crise de ‘shecession’ (algo como recessão das mulheres)”, diz C. Nicole Mason, presidente e diretora executiva do Instituto de Pesquisa de Políticas para Mulheres dos EUA, em referência à recessão de 2008 que passou a ser conhecida como ‘mancession’, porque mais homens foram afetados.

Normalmente, surtos de doenças ampliam as desigualdade de gênero. Durante o Ebola, na África Ocidental, mais meninas abandonaram os estudos com a quarentena, também teve um aumento nas taxas de gravidez na adolescência, mais mulheres morreram no parto porque os recursos foram desviados para outros setores e a violência doméstica e sexual aumentou. Esta última já tem ocorrido. O número de casos de violência cresceu em 25% pelo mundo, segundo a ONU. Dos EUA à Itália, os números só aumentam. No Brasil, as denúncias subiram 14% nos quatro primeiros meses do ano.

Para a ONU, os pequenos avanços vistos nos últimos anos para a igualdade de gênero podem retroceder com a pandemia. Todos tiveram suas rendas impactadas durante o Ebola, mas os homens se recuperaram economicamente mais rápido do que as mulheres, segundo Julia Smith, pesquisadora de políticas de saúde da Universidade Simon Fraser. Com um mercado de trabalho esgotado, homens que estavam em outras indústrias mais lucrativas podem começar a competir por cargos tradicionalmente ocupados por mulheres, de acordo com Toni Van Pelt, presidente da Organização Nacional para Mulheres dos EUA. Enquanto isso, as mulheres, que no geral sofrem com a jornada dupla (mais encarregadas de atividades domésticas e cuidados) terão que esperar para procurar trabalho até que seus filhos se estabeleçam na escola e qualquer membro da família doente fique melhor.


*Com informações da Folha, O Globo, CNN Brasil, NYTimes, World Economic Forum, The Atlantic e The Guardian

Postado por Painel Opinativo

A indústria do entretenimento em tempos de Covid 19

14.05.2020 às 06:00


A indústria do entretenimento é uma das mais requisitadas no momento. Mas também é uma das que mais tem sentido os impactos da pandemia. Suas produções dependem de grandes equipes ou públicos, viagens e contato entre os atores. Apresentações por videoconferências têm quebrado o galho. Só que sem previsão para o fim do distanciamento social, as produtoras estão começando a pensar na volta ao trabalho respeitando esse novo cenário.

Em artigo ao LA Times, o diretor de conteúdo da Netflix, Ted Sarandos, dá uma ideia de como essa indústria pode voltar a ativa. Na Coreia do Sul, Japão e Islândia, a empresa voltou suas produções com checagem diária da temperatura da equipe e apenas um maquiador usando aplicadores descartáveis. Durante as filmagens, o elenco faz pausas recorrentes para lavar as mãos e desinfetar as superfícies. Mas ele deixa claro que nem tudo dá para ser como antes. Cenas que envolvem multidões ou momentos íntimos precisariam ser adiadas até que a crise diminua. Os roteiros podem precisar ser rescritos, ou os produtores teriam que usar a tecnologia para recriar uma cena que, de outra forma, seria filmada ao vivo.

A BBC propôs um plano semelhante: colocar atores e diretores em quarentena e remover o público de programas de audiência. Também está considerando adotar como exemplo o que está sendo feito na Austrália. Elenco e equipe de uma novela foram divididos em grupos, restringindo seus movimentos a uma das quatro zonas diferentes no set. Para o público, algumas dessas mudanças vão aparecer nas telas: sem atores extras e atores cumprindo o distanciamento social em cena.

O entretenimento ao vivo também têm encontrado uma alternativa: os drive-ins. Populares nos EUA nos anos 50 a 70, eles se tornaram uma boa — e segura — opção para quem procura filmes em telas de cinema em tempos de pandemia. Nos EUA, os cerca de 300 drive-ins do país viram suas vendas de ingressos dobrarem nas últimas semanas. E a saída não tem ficado só por lá. No Brasil, o cine drive-in de Brasília, um dos únicos do país, voltou a funcionar. O Rio vai ganhar um até o final de maio e o Allianz Parque, em São Paulo, deve inaugurar outro em até dois meses. Na Europa, os drive-ins ainda têm funcionado para shows e até raves. Com os carros respeitando o distanciamento social.


* Com informações de Exame, Rolling Stone, The Guardian, LATimes e Bloomberg

Postado por Painel Opinativo

O Bitcoin em tempos de Covid-19

12.05.2020 às 06:00


No dia 3 de janeiro de 2009 nasceu o Bitcoin, com Satoshi Nakamoto, o pseudônimo de seu misterioso criador, minerando o primeiro bloco da criptomoeda, que gerou uma recompensa de 50 Bitcoins. Inscrito neste bloco estava o seguinte texto: ‘The Times 03/Jan/2009 O Chanceler está prestes a iniciar o segundo resgate dos bancos’. Era uma referência a um artigo publicado naquele dia no jornal Inglês The Times, uma pontada de ironia à instabilidade causada pelo sistema bancário. Uma das principais motivações por trás da criação do Bitcoin foi uma resposta ao excesso de dinheiro novo que os bancos centrais do mundo derramaram na economia para tentar salvar o sistema bancário da crise de 2008. Como resposta a isso, o Bitcoin foi criado de forma que sua base monetária não pudesse ser controlada por nenhum governo ou instituição, mas sim um algoritmo. Servidores chamados de mineradores ficam autenticando cada transação da moeda. Para remunerar esse trabalho, a rede, de tempos em tempos, emite um bloco novo como recompensa para um dos mineradores. Quando o total de Bitcoins existentes ultrapassa um certo volume, a quantidade de novas Bitcoins emitidas como recompensa em um bloco cai pela metade. Isso já ocorreu duas vezes desde que a moeda passou a existir. A projeção é que na próxima terça feira o fenômeno ocorrerá pela terceira vez.

O momento não poderia ser mais curioso. Justo quando os bancos centrais de todo o mundo estão novamente praticando afrouxamento monetário, o Bitcoin está prestes a passar por um aperto monetário. Para explicar as implicações dessa mudança a Grayscale Investments, uma gestora especializada em moedas digitais, publicou um longo relatório com sua visão sobre o assunto:

“Enquanto o mundo lida com o Covid-19, é importante para investidores entenderem os efeitos das intervenções fiscais e monetárias dos governos. Especialmente no contexto de moedas digitais como o Bitcoin. Enquanto governos praticam afrouxamento monetário, aumentando a quantidade de dinheiro em circulação, o valor das moedas fiduciárias tende a se depreciar. Na direção oposta, um ativo como o Bitcoin está para experimentar um aperto monetário causado pela redução programada da emissão de novos Bitcoins. Para tentar evitar a queda de preço de ativos e salvar empresas que estão à beira da falência, bancos centrais estão injetando imensos volumes de estímulos monetários e fiscais no sistema. Com a dívida global em torno de US$ 255 trilhões, é pouco provável que essas políticas de acomodação sejam revertidas em algum momento. Como comparação, em um período de 16 meses, entre novembro de 2008 e março de 2010, o FED adicionou US$ 1.5 trilhão de dólares em seu balanço. Em apenas 2 meses este ano, o FED adicionou outros US$ 2 trilhões. Um afrouxamento monetário como este não tem como ser revertido sem causar a deflação que o afrouxamento deveria combater. Apesar de a impressão de dinheiro ter a intenção de recuperar a economia, essa política não tem como se manter de forma perpétua sem repercussões negativas para as moedas. Já vimos diversos exemplos de como esse tipo de processo se desenvolve em hiperinflação, tanto nos EUA, como ocorreu com o Dólar Confederado na época da Guerra Civil, como em exemplos mais recentes como o Peso Argentino, o Bolívar Venezuelano e o Dólar de Zimbabwe.”

“O ambiente macroeconômico atual continua a reforçar que uma moeda digital escassa, não soberana, pode vir a ser uma forma atrativa de se preservar valor e se proteger da impressão ilimitada de dinheiro enquanto bancos centrais do mundo inteiro praticam afrouxamento monetário. O Bitcoin vai passar em breve por um aperto monetário. Após esse evento, a quantidade de novos Bitcoins emitidos vai ser cortada pela metade. Embora os efeitos de curto prazo dessa mudança não estejam claros, ela tem historicamente servido como ponto focal da comunidade de investimento. Mineradores são os vendedores naturais do mercado e após a redução na emissão, eles passarão a ter apenas metade do volume de moeda para vender. Este desequilíbrio entre uma demanda crescente com uma oferta decrescente pode servir como um catalizador positivo para o preço do Bitcoin.”


*Com informações de New Yorker, The Times, Bitcoinblockhalf, Grayscale

Postado por Painel Opinativo

Sobre coronavírus - certezas e incertezas

10.05.2020 às 08:00

 

A ciência avança e deixa cada vez mais claro que as incertezas permanecem

O que se sabe até agora é que o novo coronavírus terá vida longa.Mas, dependendo da localização geográfica e das políticas em vigor, exibirá dimensões e dinâmicas variadas. “Não é uma questão de atravessar o pico, como algumas pessoas parecem acreditar”, explica Marc Lipsitch, epidemiologista da T.H. Chan School of Public Health, de Harvard. Ele quer dizer que uma única rodada de distanciamento social — fechar escolas e locais de trabalho, limitar aglomerações e lockdowns de durações variadas — não será suficiente a longo prazo. Lipsitch é coautor de duas análises recentes — uma do Centro de Pesquisa e Política de Doenças Infecciosas da Universidade de Minnesota e a outra da Chan School, publicada na Science. Nelas, ele descreve uma variedade de formas que a onda pandêmica pode assumir nos próximos meses.

“Existe uma analogia entre previsão do tempo e modelagem de doenças”, explica o professor. Ambas são simples descrições matemáticas de como um sistema funciona: baseando-se na física e na química no caso da meteorologia; e sobre comportamento, virologia e epidemiologia, no caso de doenças infecciosas. “É claro que não podemos mudar o clima. Mas podemos mudar o curso da pandemia com nosso comportamento, equilibrando e coordenando fatores psicológicos, sociológicos, econômicos e políticos.”

O estudo de Minnesota descreve três possibilidades. O cenário número 1 mostra uma onda inicial de casos — a atual — seguida por uma corrida constante de ‘picos e achatamentos’ que diminuirão gradualmente ao longo de um ou dois anos. O cenário 2 supõe que a onda atual será seguida por um ‘achatamento’ maior, com ondas menores subsequentes, semelhante ao que ocorreu durante a pandemia de gripe de 1918-1919. O 3 sugere um intenso pico seguido de uma ‘combustão lenta’, com altos e baixos menos pronunciados. Os autores concluem que, independentemente da realidade que se materialize (considerando as medidas de mitigação em andamento enquanto aguardamos uma vacina), “devemos estar preparados para, pelo menos, 18 a 24 meses de atividade significativa do Covid-19, com hot spots surgindo periodicamente em diversas áreas geográficas.

No artigo da Science, a equipe da Harvard examinou de perto os vários cenários da dinâmica de transmissão usando os dados mais recentes do Covid-19 e de vírus relacionados. Os resultados viraram uma série de gráficos que projetam um futuro igualmente ondulado. Um dos possíveis cenários (os detalhes diferem geograficamente) mostra a trajetória das infecções, em vermelho, em resposta aos regimes de ‘distanciamento social intermitente’, representados por faixas azuis.  O distanciamento social é ativado quando o número de casos atinge uma certa prevalência na população — por exemplo, 35 casos por 10.000. É desativado quando os casos caem para um limite mais baixo, 5 casos por 10.000. Essa estratégia visa impedir que o sistema de saúde seja sobrecarregado. Outro gráfico representa o aumento correspondente, embora muito gradual, da imunidade da população. “O limiar de imunidade de rebanho no modelo é de 55% da população, ou o nível de imunidade necessário para que a doença pare de se espalhar sem outras medidas”, disse Kissler.

No modelo é assim. Na vida real, ainda não se sabe qual porcentagem total da população seria necessária para atingir a meta desta imunidade do rebanho. Pode chegar a 80% da população. Alguns especialistas prevêem que pelo menos 70% precisarão estar imunes ao vírus para chegar lá. Outra interação mostra os efeitos da sazonalidade — uma propagação mais lenta do vírus nos meses mais quentes.

O exemplo da Suécia, que rejeita o bloqueio total, demonstra que uma estratégia de imunidade direcionada a rebanhos também não faz muito para proteger populações em risco. As mortes de idosos por lá foram dolorosamente altas. Em um país mais densamente povoado, como os Estados Unidos, e com uma proporção maior de pessoas vulneráveis, a perda humana de uma estratégia de imunidade de rebanho pode ser devastadora. “Quando somos bem-sucedidos no distanciamento social, menos pessoas contraem a infecção, que é exatamente o objetivo”, disse a pesquisadora Christine Tedijanto. “Mas se a infecção levar à imunidade, o distanciamento social bem-sucedido deixaria mais pessoas suscetíveis à doença. Como resultado, assim que suspendermos as medidas, o vírus se espalhará novamente.”

É ainda mais complicado. Uma das grandes questões em aberto é se pacientes recuperados estão imunes. “Ainda não sabemos se o vírus protege você contra o vírus”, afirma Jared Baeten, professor de medicina e saúde global da Universidade de Washington. A OMS enfatizou que não se sabe se recuperados podem adoecer novamente. Basta pensar nos vírus respiratórios comuns que causam a gripe ou o resfriado — você pode receber vacinas todos os anos e ainda assim adoecer. Existem centenas de vírus que causam resfriados, mas a exposição a pelo menos uma cepa pode tornar as infecções subsequentes menos graves. A imunidade também pode desaparecer com o tempo, e é por isso que as doses de reforço são comuns para prevenir infecções como o tétano. Outras vacinas geralmente duram a vida inteira, como a SRC, ou tríplice viral, para caxumba, sarampo e rubéola. Só conseguiremos imunidade de rebanho se a grande maioria das pessoas for vacinada, diz Baeten. Dudley concorda: “A vacina é nossa melhor esperança.”

Um grande estudo com pessoas de Nova York que tiveram Covid-19 traz o que parece ser uma boa notícia: a maior parte dos infectados desenvolveu anticorpos. O estudo, ainda não revisado por outros pesquisadores, analisou 1.343 pacientes com Covid-19 confirmada em testes ou com sintomas autodeclarados da doença. Dos 1.343, 624 tiveram confirmação da Covid-19 por PCR. Destes, 511 tinham altos níveis de anticorpos presentes (o que os tornava também possíveis doadores de plasma sanguíneo para pacientes ainda afetados pelo novo coronavírus, uma opção terapêutica em estudo), 42 tinham níveis fracos e, em 71, não foram detectados os anticorpos.

Mas tudo sobre o coronavírus continua incerto. No lugar da suposta imunidade natural generalizada ou de uma vacina, o distanciamento social desempenha a mesma função, quebrando essas cadeias de transmissão, impedindo que os hospitais entrem em colapso. Mais pessoas sobrevivem. Portanto, na falta de uma vacina, nosso estado de pandemia pode persistir até 2021 ou 2022. Surpreende até especialistas.


Testes

Os testes generalizados são importantes para obter informações sobre a sua disseminação nos EUA. Mas um segundo aspecto merece atenção: precisão. Segundo Maureen Ferran, professora associada de biologia no Rochester Institute of Technology, é difícil determinar a precisão de um teste de coronavírus e entender como isto afeta os dados que as autoridades de saúde pública usam para tomar decisões.

Hoje, há dois tipos principais de teste em uso. O primeiro é um de reação em cadeia da polimerase com transcrição reversa, ou RT-PCR. Este é o de diagnóstico mais comum usado para identificar pessoas atualmente infectadas com SARS-CoV-2. Ele funciona detectando o RNA viral nas células de uma pessoa — geralmente coletadas pelo nariz. O segundo teste usado é o sorológico ou de anticorpos, que analisa o sangue de para ver se houve produção anticorpos para o coronavírus. Se um teste encontrar esses anticorpos, significa que uma pessoa foi infectada.

A precisão de um exame médico é determinada pela medição de duas aspectos: sensibilidade e especificidade. Se um teste for 90% sensível, ele identificará corretamente 90% das pessoas infectadas. No entanto, 10% dos infectados obteriam um resultado falso negativo — têm o vírus, mas o teste diz que não. Um teste específico identificará com precisão as pessoas sem a doença. A especificidade mede os negativos corretos. Se um teste for 90% específico, identificará corretamente 90% das pessoas que não estão infectadas, registrando um verdadeiro negativo. Para reiterar: a sensibilidade mede a precisão positiva; a especificidade mede a precisão negativa.

Os testes de RT-PCR são excelentes em condições ideais, considerados o padrão-ouro para a detecção de muitos vírus. Na Suíça, pesquisadores avaliaram cinco testes Covid-19 RT-PCR e descobriram que todos atingiam 100% de sensibilidade em amostras positivas e pelo menos 96% de especificidade em amostras negativas. Mas, no mundo real, as condições e o processo de teste estão longe de perfeitos. Ainda não sabemos qual é a taxa real de falsos positivos, mas a sensibilidade clínica dos testes de RT-PCR varia de 66 a 80%. Isso significa que quase uma em cada três pessoas infectadas testadas receberá resultados falsos negativos.

Coletar boas amostras não é fácil e é nisto que a maioria dos especialistas considera que está o problema. Provavelmente, resultados falsos negativos estão ocorrendo porque os prestadores de serviços de saúde não estão coletando amostras suficientes com o vírus. Isso pode acontecer porque alguém não insere um cotonete com profundidade no nariz. Falsos negativos também podem ocorrer se uma pessoa for testada muito cedo ou muito tarde durante a infecção e não houver muitos vírus em suas células. E, finalmente, erros podem ocorrer se uma amostra ficar muito tempo esperando antes de ser testada, o que permite que o RNA viral se quebre.

O risco relativamente alto de falsos negativos é o motivo pelo qual os médicos não confiam apenas em um teste para determinar se uma pessoa tem o coronavírus. Quando alguém apresenta sintomas e está em uma área de surto, médicos fazem o diagnóstico mesmo com testes negativos.

Já a maioria dos testes de anticorpos procura evidências da reação de “primeira resposta” — IgM (imunoglobulina-M) —, que aparecem cerca de uma semana após a infecção, bem como anticorpos IgG (imunoglobulina-G) de maior duração, produzidos entre duas e quatro semanas após a infecção. Recentemente, pesquisadores da Universidade da Califórnia compararam 10 testes sorológicos. A sensibilidade dos testes estava acima de 90%, mas a especificidade é mais importante ao verificar evidências de uma infecção passada. Outro ponto importante: leva de uma a duas semanas para que um paciente produza anticorpos para um vírus. Isso também significa que esses testes não devem ser o principal meio usado para diagnosticar uma infecção atual.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, é possível que os testes atuais de anticorpos reajam de maneira cruzada com outros coronavírus humanos, resultando em falsos positivos. Outra questão em potencial é que pessoas assintomáticas e com sintomas leves podem produzir menos anticorpos contra o vírus do que pessoas doentes. Portanto, um teste sorológico que pode detectar com precisão anticorpos em pacientes graves pode ser menos capaz de identificar pacientes com menos anticorpos no sangue. Assim como os testes de RT-PCR, isso resultaria em falsos negativos.

Nem a PCR nem os testes sorológicos são perfeitos, mas são muito melhores do que nada e oferecem informações valiosas. E mesmo com as incertezas atuais, no momento, o principal desafio não é a precisão dos testes, mas o fato de que não há pessoas suficientes sendo testadas. No Brasil a situação é bem pior.


Vacina

O vírus SARS-CoV-2 foi geneticamente mapeado faz já quatro meses. É o primeiro passo para que uma vacina apareça — e já há três opções diferentes e promissoras sendo avaliadas.

Vacinas em geral passam por três fases antes de distribuição em massa. Na primeira, são testadas em algumas dezenas de pessoas. Daí em algumas centenas e, tudo dando certo, em algumas milhares.

O Instituto Jenner da Universidade de Oxford começou a segunda fase de testes da sua. Como os pesquisadores já haviam trabalhado com um ‘irmão’ do novo coronavírus, aquele que causa a MERS, saíram na frente. Mas, nos EUA, a farmacêutica Moderna também foi autorizada a iniciar a fase dois da sua vacina e começa a busca por voluntários. São pessoas que a tomarão e serão expostas à doença. Enquanto isso, a chinesa CanSino Biologics também já está na segunda fase de testes de uma terceira versão.

Não são as únicas opções. Há ainda três vacinas distintas, uma da mesma CanSino, outra da Pfizer alemã, e uma terceira da americana Inovio, todas passando pela primeira fase.

Nesta história há uma questão delicada. O padrão é que vacinas sejam testadas por pelo menos dois anos para ter certeza de que não provocam efeitos colaterais graves. A maioria dos danos possíveis costuma surgir logo, mas não todos. Tanto a OMS como os órgãos regulatórios de EUA, China e Europa estão dispostos a acelerar este processo.

Ainda assim, o processo é lento. Na terceira fase, além dos pacientes vacinados há também um grupo de controle — pessoas que recebem placebos. A avaliação dos resultados é lenta, dura meses. Dificilmente, portanto, uma vencedora poderia aparecer em menos de um ano. Para não falar da questão logística — produção e distribuição.

Até os tubos onde a vacina é depositada, um vidro especial, são gargalos.


*Com informações de Folha, Estadão, NYT, Science Magazine, Popular Science, Wired e ABC News



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Pior que a crise política é a crise pandêmica

No pior dia da pandemia, Brasil ultrapassa a marca de 8.500 mortos

07.05.2020 às 12:45
Alexandre Schneider/Getty Images


O Brasil registrou 615 mortes decorrentes do novo coronavírus nas últimas 24 horas, segundo atualização feita ontem pelo Ministério da Saúde. São 8.536 mortes, no total, registradas por Covid-19. Na quinta passada eram 5.901 mortos. No mundo, são mais de 264 mil mortes até o momento, segundo levantamento da Universidade Johns Hopkins.

O chamado lockdown (confinamento radical) para cidades que estejam enfrentando uma transmissão mais grave do coronavírus já é uma possibilidade avaliada pelo governo, admitiu ontem o ministro da Saúde.

Em Belém e outros nove municípios do Pará, o confinamento radical já é uma realidade a partir de hoje. Com o objetivo de aumentar os índices de isolamento social e diminuir o número de casos de Covid-19 no estado, a restrição se estende por dez dias. Supermercados, farmácias, feiras e bancos seguem funcionando. Quem desrespeitar as medidas estará sujeito a advertências e multas de R$ 150 para pessoas físicas e R$ 50 mil para pessoas jurídicas. 

Para a Fiocruz, o confinamento radical no Rio pode acontecer de forma intermitente por até dois anos. O relatório enviado ao governo do estado e à prefeitura do Rio é bastante duro e assertivo na defesa de adoção de medidas mais rígidas de isolamento. Segundo a Fundação, a adoção tardia de lockdown "resultaria em uma catástrofe humana de proporções inimagináveis para um país com a dimensão do Brasil".

A inércia política aumenta número de mortes, indica estudo de três universidades federais brasileiras (UFPR, no Paraná; UFS, de Sergipe; e UFPE, de Pernambuco). Já com intervenções brandas (como o isolamento apenas de casos suspeitos) até 35 dias, a probabilidade de prevenir novas mortes é de apenas 10%. Intervenções drásticas (como a imposição de isolamento rigoroso) até 25 dias depois da primeira morte confirmada foram capazes de impedir até 80% de novas mortes em um país. Se a decisão demora 35 dias, a eficiência cai para 50%. Em outras palavras, quanto mais um governo demora para agir, maior é o número de óbitos.

Giovani Vasconcelos, físico do Departamento de Física da UFPR: “Governos devem agir logo, pois a 'janela' de oportunidade para conter o avanço do vírus é muito estreita. Não dá para esperar”.

Por falar em governo, o ministro da Saúde, Nelson Teich, anunciou a divulgação “em um ou dois dias” da data de início de uma campanha publicitária com orientações do governo sobre o coronavírus. A campanha do governo foi anunciada pelo ministro mais de dois meses (70 dias) após o registro do primeiro caso de coronavírus no Brasil, em 26 de fevereiro.

E a OMS declarou ontem que está pronta para trabalhar com os estados no Brasil. Mas, para isso, precisará haver um pedido do governo federal. O comentário foi feito por Michael Ryan, diretor de operações da OMS, numa coletiva de imprensa.

O Brasil está entre os países com maior número de profissionais de enfermagem mortos pela Covid-19. De acordo com os dados reunidos pelo jornal El País, 73 profissionais morreram em decorrência da doença. O número supera o registrado pela Itália e Espanha juntas, os dois países que acumulam o maior número de mortes de enfermeiros pelo novo coronavírus.

Mais de 90% dos leitos de terapia intensiva destinados ao tratamento de pacientes com Covid-19 estão ocupados em quatro estados brasileiros. Pernambuco, Rio de Janeiro, Ceará e Roraima são os que vivem a situação mais grave —o número muda diariamente, de acordo com a liberação de leitos por alta médica e mortes. 

Com o colapso da rede pública e privada de hospitais e a falta de leitos de UTI em Manaus e Belém, pacientes mais ricos destas e outras cidades das regiões Norte e Nordeste têm utilizado UTIs aéreas para fugir principalmente até São Paulo e Brasília em busca de tratamento adequado. O Uol fez um levantamento junto a cinco empresas de aviação executiva que prestam o serviço de UTI aérea. O aumento na demanda neste tipo de voo destas cidades em direção à capital paulista e a capital federal vai de 30% ao dobro no número de voos e orçamentos realizados.


*Com informações de FolhaSP, G1, O Globo, BBC e UOL

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